23 junho 2017

Quantas vezes


foto por: www.freepik.com
Quantas vezes você já colocou uma calça mais larga pra ir trabalhar porque ia pegar trem lotado?
Quantas vezes você já ouviu que era melhor contratar uma locutora porque daria mais credibilidade ao filme?
Quantas vezes a taxista já pediu seu telefone e já se ofereceu indiscriminadamente  pra subir no seu apartamento?
Quantas vezes vc já fingiu mexer no celular porque um mina "nada haver" resolveu te cantar na fila do supermercado do nada?
Quantas vezes já disseram que você merece ganhar menos sua carreira inteira porque quer ter filhos?
Quantas vezes você foi chamado de "delicioso, gostoso, tesão" ao passar na frente da obra?
Quantas vezes vc já deixou de sair de casa sozinho por ter medo de ser estuprado? 
Quantas vezes uma desconhecida já pegou no seu saco no transporte público como se fosse a coisa mais normal do mundo?
E sua bunda, já encostaram nela sem permissão? 

12 junho 2017

Foto: Bruno Bondarenv
Eu sou uma pessoa reservada, cujas dores as vezes solitárias não deixa transparecer a qualquer um. Sou uma pessoa cujos ideais fortes gostariam de não ser apenas sonhos, uma pessoa que não se conforma em ser parte de um mundo que não concorda.
Pessoa esta que tenta a todo tempo enfrentar as consequências boas e ruins das suas próprias escolhas, que tenta passar pelo mundo com calma, mas atropelando sempre que preciso, pessoa que aprendeu a lidar com os códigos sociais, mesmo não concordando com muitos deles.
Aos poucos esta pessoa entende o valor do silêncio mas ainda se magoa quando não é ouvida, ou quando fala para quem não lhe quer ouvir. Pessoa cujos passos remetem ao passado, mas que olha pra frente e tenta sempre seguir adiante.
Afinal, eu sou uma pessoa reservada, cujos sorrisos abertos são verdadeiros, cujas pequenas felicidades são importantes e cujos caminhos próprios - às vezes únicos - não deixa transparecer a qualquer um. 

19 maio 2017

A gente trabalhar muito, trabalha de verdade, Trabalha porque acredita no nosso trabalho, trabalha porque faz bem pra gente, trabalha porque precisa de dinheiro, trabalha pra sustentar alguém que a gente ama, trabalha porque nos motiva, porque precisa, não importa o porquê.
Mas é foda, é foda trabalhar e ver que o outro te rouba o tempo todo. É foda trabalhar pra alguém que quer que você se foda, que joga SEU dinheiro pela janela e acha que pode. É, é foda…

Assim como é foda trabalhar e não ter a tranquilidade de estacionar o carro onde se quer, a moto onde se deseja. É foda trabalhar e viver tenso, com medo de alguém te roubar; de cima abaixo. Afinal, em quantos lugares vc já deixou de ir porque “tá tarde” ou “é perigoso”?

Porque a gente que tenta é assim, trabalha muito, trabalha pra caralho! Mas quem de fato se importa com o suor que cai do teu rosto?

18 abril 2017

Amor de Verdade

Foto: Bruno Bondarenv
Ame alguém que te ama como você é, como é você de verdade. Porque o amor mesmo não é aquele que te muda, mas que te aceita e te melhora. Amor é via de mão dupla, é companheirismo e as vezes renúncia mútua, mas nunca só. 

E o amor intenso e farto e com conflitos, não é o amor das fotos da internet, das declarações infinitas, dos sorrisos nunca tristes das selfies. 

Porque não há perfeição em nada nesta vida e não há relacionamento sem atrito. E atrito nem sempre é desrespeito, mas desrespeito não é amor. Porque o amor não se contrai com erros e pedidos de desculpas sinceros e abraços intensos. 

Porque intensidade é estar com o outro deixando-o livre, inclusive para escolher outros caminhos. 

Afinal, amar temendo e aprisionando é amar doente. Porque amar de verdade é amar a cada dia e se indispor as vezes, é estar-se junto por vontade e desejo mas nunca preso por medo. Daí é mentira, é estar-se só ao lado de outro. 

15 março 2017

Sinto falta talvez, desse andar só, desandada. 
Sinto falta de pensar mais leve, de ser mais serena e simples. 
Sinto falta até dos amigos que talvez amigos não fossem, da liberdade que julgo que tive, desse lastro que não sabia carregar mas carregava. 
Sinto falta desse mundo cor de rosa que já se foi, onde eu não sabia em qual flor pousar e me sentia só. 

Sinto falta porque me falta um pedaço meu que já se desfez, ainda que me sinta hoje mais intensa e completa. 

05 dezembro 2016


"As pessoas que realmente importam são aquelas que se importam", estava escrito à caneta no banco de trás do ônibus em caligrafia escolar. E Andreia fotografou e postou no Instagram e a foto viralizou e foi comentada e foi reproduzida e foi vista e re-vista várias vezes. 

E Andreia olhou aquilo e se sentiu importante mas logo esqueceu. Porque a sua foto de um milhão de curtidas não refletia o que era seu apartamento vazio, sua horta e temperos murchos pela falta de tempo e cuidados, sua conta bancária quase vazia. 

E Andreia sentiu-se profundamente mal quando as pessoas desmarcaram o cinema que ela combinara e recusou-se a ir só. 

E Andreia entristeceu ao perceber que seu apartamento era pequena demais para acomodar os 100 amigos que confirmaram que viriam ao seu aniversário. E Andreia decidiu remarcar a comemoração em um bar enorme e só foram 5 dos 100. E Andreia ficou chateada pelos que não foram e esqueceu que as pessoas que realmente importam são aquelas que se importam.

Foto: http://frasespoesiaseafins.tumblr.com/post/145184847914

04 novembro 2016

Fastasma


Foto: Bruno Bondarenv 
Fantasma

Você é fantasma, alma penada que me tira o sono e me ronda pela penumbra, permitindo que se tornem as lembranças esperança e dor.
O seu sorriso na foto é de um ser que inexiste, que já foi, que se apagou por si e quer espalhar sua sombra, tenta pelas bordas os outros apagar.
Aos poucos te enxergo sádico em sua perdição, como se lhe desse prazer estar no olho de um furação criado para si, como se te fosse bom ser o coitado que não é, como e te fizesse forte pisotear e ser vítima desse jogo de assombra e esvai.
É esse rastro que virou você, essa não identidade que te paira, este ser maquiado que você se tornou. Essa alma que flutua, incapaz de se olhar no espelho e me olhar nos olhos. E isso me incomoda, me tira o sono.
Afinal, esta escolha sua me faz conviver com o fantasma, alma penada, sinal de desacordo, desandança, desconfiança, desverdades. Estou sempre aflita, a espera dos outros "des". E quantos serão? Quantos mais?

Luz e Sombra

Foto por: Bruno Bondarenv
A tristeza a gente costuma esconder. Na fotografia, na internet, por aí. Mas a tristeza sem escape vira mágoa, consome a alma, destrói a gente de rancor. 
E o rancor destrói todos nós, apaga a gente pelas bordas e vai consumindo quem está ao nosso redor. A sombra que perpassa quem estiver conosco. 
O que não tem remédio remediado está, dizia minha avós, todos nós temos um limite e o meu chegou. Justo ela, que é prisioneira de sua própria mente, de sua própria cria. 
Será que a nossa prisão a gente constrói aos poucos? Que vale a pena dar de tudo por um filho que vai te sugar depois? O mundo, veja bem, está cheio de psicóticos, neuróticos, problemáticos. É você é só mais um deles, e ele é apenas mais um, e eu sou outro em potencial.
Como não regar cada mágoa, botar no colo e pegar pra criar? Como livrar-se de cada dor?  Como não se permitir enlouquecer? Como ser melhor de verdade? Como seguir sem deixar que te digam o que fazer e ser único sem ser egoísta? 

Ser mais forte sem ferir, ser digno sem diminuir ninguém, ajudar sem ser tolo, ser grande sem pisotear. Porque é preciso admirar, ser, estar, sonhar, erguer e seguir. E o tempo não espera enquanto as neuroses se acumulam.

28 setembro 2016

Crônicas do Trem - Rose, Daniel e a cabine blindada

Foto por Bruno Bondarenv
   - Oi Rose, eu sou o Daniel, disse o homem sorridente que carregava no colo um menino cujos primeiros dentes ainda nasciam - Daniel, essa é a tia Rose. - Rose levantou os olhos e pelo vidro blindado da cabine sorriu de volta pra Daniel. 

  - Nossa que lindo, mais bonito do que você fala. Pena eu não poder sair pra pegar no colo.... - Daniel riu de volta, gostou de Rose. - E ai, conseguiu aquele emprego?

  O pai de Daniel sorriu largo em esposta. 

  - Acabei de fazer o exame lá, aquele que faz quando contratam. Levei o Daniel comigo, pro pessoal da firma já conhecer. Esse menino me dá sorte! Dai vim pra cá te apresentar ele, que você merecia conhecer.

 Rose sorriu em resposta, enquanto cobrava o bilhete do próximo passageiro. 
  - Obrigado, viu Rose - seguiu dizendo o homem - agora não vou mais precisar dos bilhetes, sou pai de família de verdade, sou trabalhador.
  O homem discursava, naquela alegria de quem nem percebe que discursa. Enquanto isso Rose fez uma brincadeira a mais com Daniel pelo vidro e despediram-se. 
  Eu, observadora, era a próxima da fila e aguardei o que foi preciso para que a despedida fosse calorosa, ainda que embarreirada pela cabine. Daniel foi embora olhando para Rose. Rose seguiu o olhar de Daniel até que fugisse da vista. Daí  chegou minha vez; comprei meu bilhete e entrei na plataforma pensando neste causo, escrito antes mesmo do trem partir.


06 julho 2016

Falar brasileiro

Gosto das palavras e dos sotaques, e costumo ouví-las de peito aberto, nessa língua que é tão minha. 
Mas não falo português não, que junta as consoantes que evolui pro lado de lá, em vogais que aos poucos de perdem e num sotaque me parece cômico por natureza.  
Falo mesmo é brasileiro:  língua de mãe latina, pai português, tio índio e avó africana. 
Porque falar brasileiro é entender a diferença entre cu e bunda, é fazer fofoca e não bisbilhotar; é entender que a saudade não é fado que se sofre ao eterno, mas pode ser mais sertaneja, curando-se no dia depois de amanhã. 

Falar brasileiro é conseguir pronunciar Itaquaquecetuba e Anhangabaú de primeira, é consternar-se e ficar de cara, é sentir a mistura sem se dar conta, é perceber que ser caboclo, caipira ou caiçara é ser parte do que somos. 

Porque falar brasileiro é estar no fuzuê linguístico, é ser a cultura que nasceu da mistura, é ser único, é estar mais que independente. 

30 junho 2016

Veneno

Você é do tipo de mulher normal. Eu sou do tipo que acha essas coisas que você gosta uma tolice. 
E aqui não é um questão de ser ou não superior (embora seja), pois aposto que você diz pior de mim, as piores maledicências, dissemina mesmo veneno. 

Opa! Mesmo não, porque até meu veneno é menos tolo, menos cabresto, mais elegante e mais puro, podendo uma dia até nos matar.  

08 junho 2016

E se chover na nuvem?

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Hoje deixei a nuvem chover: planilhas, trabalhos antigos, atritos sem sentido que os e-mails guardam. 

E se não faz bem, por que guardar? Se a discussão já perdeu o foco, se a dor já se foi, se o sentimento já inexiste?  

Desapegar, lutar contra essa maré que nos permite amontoar tudo para sempre, mesmo sem fazer sentido. Fazer chover porque o acúmulo não gera futuro, não faz a gente ir. 

E por isso a nuvem precisa chover, chove e choverá; até que sequem as conversas amassadas, até que se iluminem as linhas em branco, até que se olhe adiante. 

20 abril 2016

O trem e os amantes

Eram 23h30min e eu descia na estação Tamanduateí rumo às escadas rolantes. Bem na minha frente, seguindo pela plataforma um jovem casal se despedia. 
Deram-se um beijo carinhoso, daqueles apaixonados, cujas mãos delicadamente se soltam, percorrendo do braço à ponta dos dedos, até que ele restasse na plataforma enquanto ela pulava pra dentro do vagão. 
Já dentro do trem ela sentou-se junto à janela de vidro. Ele padeceu a observá-la com carinho e li em seus lábios "eu te amo", ditos quando o sinal tocou e as portas se fecharam. Vagarosamente o trem partiu acompanhando seus olhares saudosos, até que sumissem no horizonte.  

12 abril 2016

Carta a eles

Ilustração de Mariana Fakih
 Deixa eu te explicar uma coisa, meu amor. Não é porque sou bonita que sou burra. Porque sou gorda que não transo, porque sou gostosa que sou fútil. 
  A minha TPM não me torna mais louca que você, e se eu choro mais é porque a sociedade me permite, porque alivia e acalma; talvez você devesse tentar, sem culpa, sem medo ou vergonha. 
 Sinto muito se aprendi a dirigir, se trabalho numa multinacional, se gosto de usar decote e saia curta. Mas não é por isso que minhas pernas de fora te dão o direito de me chamar de tesão, de gostosa, de gatinha, isso não é legal, não te torna mais homem, entenda de uma vez.
  Eu falo palavrões quando desejo, chego em casa a hora que quero e escolhi fazer engenharia, medicina, direito, teatro, moda e nada disso é da sua conta. Eu não sou sua, não lhe pertenço, nem a você nem a ninguém. 
  De repente, se ganho equivalente ou até mais do que você - e se você se sente envergonhado ou intimidado - devo dizer que deveria sentir que isso é normal. Até mesmo porque é preciso ser muito macho pra aceitar que você e eu devemos ter os mesmos direitos, as mesmas oportunidades, simples assim. 
E se hoje posso te escrever abertamente é porque me foi permitido o estudo, o voto, a liberdade, a palavra, a independência. Hoje posso escolher ser o que desejo, partir pra onde quero, escolher por mim mesma. E apesar do tom pesado, quero que seja leve, que nos demos as mãos e que você me (nos) acompanhe.
  Liberte-se também e chore e fragilize-se e permita-se. Siga melhor e quebre as supostas regras daquilo que é ser um homem à moda antiga.

24 março 2016

Carta aos primos

Sabe, eu tenho pena de você, apesar dos pesares. Pena mesmo. Afinal, os bons momentos de neta foram mais meus do que seus. Quando eu era criança, e todos eram saudáveis, você estava longe, distanciada daquilo que era tão bom: os jogos de cartas, as comidas saborosas, as conversas sobre o Baú da Casa Própria, as cambalhotas no colchonete que me fazia espirrar.


Você perdeu os aniversários cheios de gente, os Natais fartos, quando a gente não acreditava em Papai Noel mas acreditava que aquilo tudo era gostoso. Quando a gente esperava pela meia noite para ganhar um presente, um cartão, um beijo.

E depois de refletir muito sobre, depois que a ferida acalmou, consigo apenas pensar que sinto mesmo é pena. Porque ela está aí por uma disputa, que se transformou em ódio. Ela é uma peça que se mexe pra lá e pra cá, justificando o jogo amargurado.

Mas apesar de tudo, apesar de não achar certo ou justo, sei que ela sempre quis você por perto, que estava saudosa, que sua presença lhe faz bem. Espero que seja recíproco, que a presença dela faça bem a você, que você sinta o que é ter um colo por perto, uma história antiga a ser novamente e novamente e novamente contada. 

E eu espero, sinceramente, que você possa sentir parte do que senti. Que nunca precise se despedir abruptamente, que nunca precise de uma ordem judicial para visitá-la, que nunca precise por a si mesma diante do tiroteiro, que você possa se libertar e ser também feliz. 


26 janeiro 2016

Crônica da Vida Urbana

  A Vida não é fácil, ninguém disse que seria. As palavras ainda lhe martelavam a mente desde que acordara. Era o sonho que revivia todas as manhãs, enquanto trocava as marchas e comia um pacote de biscoito água e sal.
  Aos poucos o trânsito caminhava, tão lentamente que dava até desgosto. “Isso porque nem voltaram as aulas”, pensou consigo enquanto mastigava mais um pedaço da bolacha. 
  Enquanto o sinal abria e fechava sem fazer com que os carros se movessem, Paulo pegou o celular. Com o dedo indicador deslizou pelas fotos dos amigos de férias, sorrindo, passeando nas praias e pela neve. Suspirou. Acabara de voltar de férias, e não sabia quando seriam as próximas, se teria dinheiro para pagar as prestações do último resort superfaturado, se poderia ser por 30 dias o cara livre que fingia ser na rede social. 
  “Essa vida me engole” - disse passando a mão sobre o abdome e tentando abrir os botões do colarinho da polo "me deixa gordo, infeliz, feio, patético,  BUM!” Bum?! Paulo olhou para trás assustado. Era um carro, modelo antigo, que colidira com seu modelo do ano, cuja primeira prestação tinha acertado há menos de duas semanas. 
  “Filho da puta! Viado do caralho da porra! - O Homem que batera saiu do carrro, dizendo que não teve culpa, que não tinha seguro, que estava desempregado, que não estava nem aí, que não podia pagar. Paulo saiu dizendo que estava menos aí ainda, que queria que se fudesse, que ele ia pagar. O Homem sacou uma arma e Paulo sacou os punhos. O Homem tentou atirar mas Paulo se atirou em cima dele, e socou-o até que o sangue jorrasse em seu rosto e lhe acalmasse a alma. O Homem chegou a acertar o tiro de desesperado, raspou no braço de Paulo que apenas teve vontade de socá-lo ainda mais. 

  Ao redor, as pessoas saíram de seus carros e se esconderam onde puderam, como ratos urbanos. Ao centro, Paulo levantou-se ofegante e limpou o suor do rosto, agora manchado de sangue. Paulo sorriu, o caminho estava livre. Ufa! Mas antes de partir, sacou o celular, fez pose e tirou uma selfie. Postou com a seguinte frase. "A Vida não é fácil, ninguém disse que seria”.

20 janeiro 2016

Viajar é preciso!

Foto: Bruno Bondarenv
E deixa a gente mais jovem e menos a gente. Viajar e não querer voltar pra casa é a sensação de que por aqueles dias sua alma flutuou, se coração se desamarrou, sua pele recuperou alguns meses - ou anos.
Viajar porque o tempo é curto para tantas experiências. Viajar porque a cada caminhada que descobre uma nova rua, praia ou esquina a gente entende que nem tudo é igual, que a vida segue um passo em cada lugar, que a certeza pode se desfazer em uma nova cultura.
Viajar porque a saudade que fica dá espaço a um novo instante que está por vir. 
Viajar porque é necessário, porque é revigorante. 

Viajar simplesmente porque sim. 

27 outubro 2015

Ser Mulher

Ilustração por Mari Fakih
O primeiro assédio que lembro, na verdade foi na rua, com um grupo de amigas. A gente  devia ter uns 11 anos, treinava handebol, e saia de camiseta e shorts para pegar o ônibus. Entre fiu-fius e gracinhas a gente ia pra casa, de ônibus, a pé, como seria possível. 

Mas o mais escandaloso, ao meu ver, foi um professor de matemática que tentou sair comigo. Eu tinha 16 anos, estava no colégio, ele devia ter uns 40. Era até bonitão, malhado, um tipo OK,  mas lembro que fiquei enojada e confusa. Não saí com ele, mas não denunciei ou contei para ninguém. Apenas passei e evitá-lo. Talvez porque aos 16 a rua já tivesse me ensinado que eu era deliciosa, pernuda, bundão e que isso era "assim mesmo". Talvez porque também foi aos 16 que, enquanto eu corria, indo e voltando na avenida, um cara resolveu bater uma punheta e quando passei novamente por ele disse que era pra mim. Depois daquilo por anos minhas corridas tornaram-se restritas aos parques, com guardas e grades, onde me parecia mais seguro. 

Não me lembro a idade, mas já apertaram meu peito no amontoado do trem, depois daquilo aprendi a andar sempre encostada nas paredes do vagão, a andar de cara fechada na rua enquanto caminho sozinha, a tantas outras coisas. 

E isso não para, pois esses dias, quando fui pegar ônibus, havia um grupo de homens no ponto, talvez conscientes, legais, mas tive medo. Por isso esperei de longe, olhando para trás a cada segundo. Quando o ônibus chegou dei sinal de longe, e corri até o ponto, passando rapidamente por eles.
Pequenas "infrações sem sinal de violência" que toda a mulher passa. Que ao longo de anos me - nos - deixaram escolada. Afinal, começa quando a gente ouve fiu fiu a cada esquina; de shorts, de decote, de vestido longo, de calça, de burca. E na verdade a gente precisaria responder e chingar, e gritar, e denunciar; mas como, se a gente tem medo, se tem a certeza da impunidade? Medo porque somos assediadas por professores, por chefes, por motoristas de ônibus, por tantos lugares. Medo porque aprendemos que é "normal", que simplesmente é assim. 



Conheça mais do trabalho da Mari Fakih aqui: https://www.facebook.com/Fakih-Maa-280527268763501/

30 setembro 2015

Carta do Esquecimento

Aos filhos meus, que mesmo sem lembrar nunca esqueço,


Se te ofendo, filho meu, me desculpe, é que ando fora de mim. Minha cabeça, você sabe, já não anda bem e meus passos traiçoeiros caminham sobre pés fatigados. Você vem e me cuida desse jeito controlador, daí te ofendo e te boto pra fora. Mas a verdade é que quando você se enche e vai embora eu desarmo, desabo intensamente. 

Não pense que não sei o que se passa, eu sei, e por isso me angustia. Mas é me escapa tudo e birro e teimo e insisto.  O mal é que sei que não sei mais, e me vejo desaprender a tomar um gole d'agua, a escovar os dentes, a cuidar de mim. Eu quero - queria - estar livre novamente, mas não consigo, não posso mais.

Que sou eu, afinal, senão o rastro daquilo que está no retrato pendurado na parede? Quem sou esse eu que mal sabe onde está? 
As vezes na solidão choro, mas não quero que ninguém me veja, porque ainda quero parecer intensa. E se me maquio e me arrumo é porque não quero estar moribunda, embora esteja.
Me desculpa, meu filho, por de repente te dizer o que não merece. Me perdoa, minha filha, por te ofender pelo nada, por te prender a mim. 
Porque esse rastro que me resta não é aquela eu, mas por hora é só o que fica, até o momento que ele mesmo se perder e eu me for embora por inteira, antes mesmo de ir.

Por isso, sem lembrar bem porquê te agradeço e te peço perdão, ainda sabendo que serei bruta outra vez. 

04 agosto 2015

O Mundo dos Adultos


Eu era apenas uma criança passeando pelos adultos, nos tempos que as coisas me passavam despercebidas. 

Ainda dizem que por debaixo daqueles tacos lustrados havia uma lama tão espessa que grudava nos sapatos. 
Por isso hoje, quando vejo a casa ruir para virar condomínio de luxo, penso quantas mais na vizinhança eram assim, escondidas sob o cheiro de lavanda e cera, cujos  assoalhos eram lustrados semanalmente. 
As cortinas rendadas ajudavam a formar um degradê luminoso que vinha da cozinha e esfumaça até os quartos, escondidos na penumbra no fundo de um corredor.

Eu era apenas criança e brincava na sala quando os adultos resolviam me levar pra lá. Eles falavam trivialidades sob a luz da cozinha e fingiam gostar uns dos outros - e talvez até sem gostassem alguns. 
E os quartos que nunca entrei estavam abarrotados de mágoa, de mentiras, de fantasmas que se empilhavam sob os tapetes, debaixo das camas, dentro dos armários. 

Eu era apenas uma criança, que ficava na sala de fronte ao armário de brinquedos com os quais nunca se podia brincar. Eu era uma criança cujo nariz se irritava com o perfume da lavanda, com o odor de cera nos tacos, com a penumbra que levava aos quartos.  
Mas eu era apenas uma criança e precisava esperar que me pegassem pela mão e me levassem lá pra fora. E lá fora, havia mais e mais lama, talvez até mas espessa, mais suja, mais densa; porém era lama visível, não desapercebida sob os tacos de cera e perfume de lavanda.