15 maio 2015

Amanda cansou,


veja só, cansou de algo que já deveria ter cansado há tempos. Por que mesmo ela fora àquela festa de aniversário da amiga? Amiga dos amigos, que sequer fez questão de ligar no aniversário de Amanda? 
Por isso, naquele ano Amanda não foi ao aniversário dela, nem inventou desculpas nem nada, simplesmente não apareceu ou deu staisfações.
"Amanda, que modos", disseram quando ela contou isso numa rodada de cerveja, mas Amanda entre-sorriu e sem desconversar disse que tinha tentando deixar as cargas de lado e andar ao seu rumo. Disse estar decidia a deixar, deixar e deixar.
Por isso, devagar Amanda desistiu das pessoas que desistiram dela, e isso a fez ir mais longe. Afinal, Amanda é assim, quanto mais cansada está, mais caminha pra chegar lá.

08 abril 2015

Há não tanto tempo



Há algum tempo, que ironia, os tempos eram outros. Conversávamos, ainda que não fôssemos próximos. Mas o tempo fez com que as angústias se acumulassem, fez o ódio se alocar e as vozes se calarem. 

Me lembro do silêncio de meu avô, magro, alcoólatra, outrora falador e simpático.  Me lembro ainda que de tempos em tempos ele sorria, costumava, mas se perdeu, mesmo na sobriedade. Era um velho triste que entre um gole e outro se calava. Morreu mudo, e podia falar. 
O tempo, que ironia, lavou as lembranças e trouxe os traumas. A sujeira, abarrotada sobre o tapete transbordou. Aquela mágoa de repente era ódio. E aquele ódio novamente tornou-se silêncio, impondo-se e alojando-se nas almas de seus filhos. 

Às vezes, veja só, estou eu, cultivando também parte dessa mágoa, pensando em acertar a cara de alguém, arquitetando uma vingança imaginária. 
Bobagem, não vale.  
Não vale carregar, e me convenço para que não me consuma.  Não quero que me leve como os levou. Afinal, há algum tempo, não tanto tempo assim, conversávamos. Mas isso, isso foram outros tempos. 

4/2/2105

23 fevereiro 2015

Estar Só

Eu só quero ficar só, comer bobagens de frente à teve enquanto vejo uma programação fútil. 
Me deixa, porque estou bem, apenas preciso ouvir CPM 22 e reclamar de quão ruim é. Ou talvez eu precise comer um saco de Lays e depois me arrepender porque tem 20 milhões de calorias e me sinto gorda. 
Preciso descarregar meu mau humor, minhas angústias, tudo isso aí, mas em silêncio, só, pra não descarregar no mundo. 
E se hoje eu não lhe sorrio, não liga, não é contigo, se hoje não lhe falo, esqueça, eu só preciso ficar só.

20 fevereiro 2015

Desejo Noturno

Mariano trabalhou o dia todo, tomou a última cerveja da geladeira e viu TV até que os olhos pesassem. 
Dormiu no sofá e acordou de madrugada, melado e com torcicolo. 
Não se lembrava do rosto dela no sonho, apenas dos seus peitos gigantescos e do desejo tão intenso de matá-la que achou prudente não lembrar-se de quem era.  

29 janeiro 2015

O amor que se enrola

Como posso, ou devo dizer, pude eu, dizer que eu amo você? Você é assim tão complexo e tão distante. Um certo eu ausente, sempre foi. 
E eu? Veja só, eu sempre tentei me arrastar para você, e você sempre fingiu arrastado de mim, mas olhando pra mim, aproximado de mim.  
Como pôde você? Como pude eu te perseguir em silêncio? Se era eu quem plantava a semente de nós? Esse eu tão distante que sou eu, enrolada numa bolha de mentiras minhas que me levavam até mim mesma, que me deixaram fingir acreditar naquilo que você contava, que eu sabia que você mentia.
 
E eu, Como pude eu achar que amava você, se não amava sequer a mim mesma?

05 janeiro 2015

Altamira do Cerrado

Do sol, da areia, da água das dunas. Nelas surgem os olhos tão intensos que se escondem na aurora. 
É sob as dunas, antes do Sol Nascer que nasce Altamira, um mulher de pele bulgre, olhos castanhos, queixo fino e pele ardente. 
Dizem que Altamira flutua, tão intensa quanto o vento que molda as dunas nos meses de maio. 
É bela, tão bela que hipnotiza. Nas mesmas noites de maio que vem o vento, vem Altamira atrás de jovens apaixonados, hipnotizados por seu corpo que arde laranja.
É ela, Altamira, vista apenas antes da aurora. Canta, e sob a forma de pássaro torna-se mulher para o viajante que a chama. Pousa primeiro os ombros, depois nas costas, por fim enlouquece-o até que venha a hora. 
É ela, cujas mãos suaves percorrem vivas até a aurora. É ela, cujos viajantes procuram pelas histórias. É ela que quando os primeiros raios de sol despontam, encerra e esvai deixando inertes seus homens. Homens esses que sempre voltam para tentar encontrá-la novamente, mas ela não se repete, nunca vem.

02 dezembro 2014

Aniversariei

Aniversariei, e de repente, estou quase aos 30.

Aniversariei vendo as fotos daqueles que um dia foram tão próximos e agora são rosto na rede social. E aniversariei encontrando rostos de rede social e em conversas, em risadas, amigos novos.

Aniversariei sorrindo, pensando como é bom não ter mais 18 nem estar tão próxima dos 40.

Aniversariei leve, de batom vermelho, que agora me cai melhor que alguns anos atrás. Contudo, aniversariei também com 4 monstruosos quilos a mais, com 40 projetos a mais, com 400 ambições a caminho.

De repente, olha só, meus amigos tem filhos planejados, minha faculdade ficou há anos luz e ao passar na frente de um colégio qualquer sou tia, professora, não mais estudante.
De repente, veja, abri os olhos e aniversariei! E se envelhecer for sempre assim, que venha: os batons, as bases, os cremes anti-idade e claro, as (malditas) rugas. 

23 outubro 2014

Xenofobia

Hoje o nordestino que volta pro Nordeste. Volta porque pode, porque dá.

Surpreende a mim, de verdade, esse monte de paulistas, filhos de italianos, espanhóis, alemães, japoneses, cujos avós, assim como os meus, fugiram desesperados da fome e da guerra na Europa tentando a sorte aqui no Brasil. 

Surpreende porque seus ancestrais vieram em busca de esperança, de trabalho, assim como os nordestinos o fazem, assim como outra parte dos meus avós fizeram. 

E assim como alguns imigrantes puderam, agora os nordestinos voltam. Voltam porque também há trabalho por lá, porque há esperança. 
Finalmente matam a saudade que sempre esteve no peito, no sotaque, na canção. Matam-na como não pôde matar D. Paquita, vizinha minha que mesmo após 70 anos de São Paulo nunca perdeu o espanhol carregado nas palavras.
Afinal, mudar é bom, faz bem, mas é bom mesmo é quando a gente deixa a nossa terra porque quer, quando a gente pode decidir se vai pra Manaus ou pra Miami porque o dinheiro dá, porque a gente deseja. Porém, quando é o medo, a sede e a violência quem determinam a partida, meu amigo, tenho certeza que você se mudaria também. 



25 setembro 2014

O Príncipe Encantado

Você precisa acordar, abrir os olhos, perceber. Não adianta dizer, falar, mostrar, nada. 
É você, só você, cujos olhos cegos, precisa enxergar.
A gente repete os erros, repete sim. A gente se fixa, se forja, deixa acontecer.
E pensar que você anda tão perto e tão longe. Tão distante que nem me lembro mais quando foi nossa última conversa, afago, intimidade.

Aos poucos você vai-se embora, aqui do lado, sem parecer ter ido. Como se eu não conhecesse seus passos, como se sua voz fosse dita não por você, como se suas ações, seus sorrisos, seus costumes... 
E esses olhos estão calmos, estão longe, estão estáticos, parecem medrosos. Justo você que nunca teve medo, cujo medo sempre enfrentou.

Você precisa abrir os olhos, e acordar desse encanto que não te deixa ser aquilo que fora. Ou talvez aquilo que fora te doa, te marque, e por isso você abandonou, fugiu, deixou como se não fizesse parte de você. E eu acobertei.
Deve ser bom, imagino, afinal, qual será o sabor desse encanto? Qual será o gosto dessa calmaria? Será por isso que você escolheu a cegueira? Este é o motivo dessa venda? Diz pra mim, quem é você hoje, afinal? 

26 agosto 2014

Soberba

Veja bem, querida, que fala de aceitação, de tentativas, de amizades, de amor. 
Para mim, o nome disso é falsidade, é soberba, é manipulação. 

Não, me desculpe, eu não respeito sua suposta crença, assim como você não respeita a minha. Então estejamos acertadas. 
Eu não respeito a sua maneira de ver o mundo, porque para mim ela é preconceituosa. Para mim ela e retrógrada, pra mim ele é tola. 

Não, não falo de fé. Não falo de Jesus, de Ala, de Tupã de quem quer que seja. Falo dessa hipocrisia de falar de respeito, de deus e no final das contas estar de cabeça feita, de não ter opinião. 

Você finge, sei bem, e leva as pessoas sorrindo - talvez nunca mais voltem - com essa cara de anjo, com esse jeito de certa. Mas, talvez por te confontar, você me deteste. Por ver eu não te engolir você me esnobe e por não te concordar você delicadamente me tire da frente. 

08 agosto 2014

Apagar

Ela, assim como eu, nunca gostou da casa escura. Sempre havia o sol, uma luminária, um brilho, uma bobagem.
Costumava também gostar de moda, da costura fina, do convívio, das amizades. 
Ela, assim como eu, um dia fora bela, um dia fora jovem, um dia fora crível.
Mas hoje,  assim como eu, é como as luzes da sala apagada, cujo rosto iluminado pela televisão se lamenta do tempo que se foi. 
As lembranças se embaralham, a memória se desmembra e ela, assim como eu, envelheceu, enrugueceu e assim, sem a luz do sol, se desfaz, apagando-se com a luz da televisão. 
 

05 julho 2014

O Jardim das Onze Horas

Aquele jardim era o jardim da minha infância. Ficava bem de frente à casa pequena de terreno grande, e se estendia por uma área que todo o corretor de imóveis dizia ser perfeita para uma piscina. 

Ali ela plantava onze horas, uma flor miúda que abre somente perto do almoço, no sol quente, e depois se fecha. Faz os mesmo à noite, pontualmente às onze. 
Era, sem dúvida, o jardim mais bonito de uma rua cheia deles, no tempo em que as roseiras com facilidade cresciam mais que os muros baixos.

Mas aos poucos, conforme os dias correram, as onze horas se despetalaram, assim como todo o jardim. As mãos outrora jovens que delas cuidavam, estão cada vez mais cansadas, mais esquecidas, e dormem para passar o tempo que demora a passar. 
Mãos essas cuja dona esqueceu seu nome, quem foi um dia, quem um dia ela desejou ser. 

Das onze horas não restam nem rastros, nem mudas e no jardim que no futuro será piscina, se propaga um mato seco e cada vez mais alto, quase pronto para invadir a casa, igualmente deslocada na rua cheia de prédios.

Triste ver que a dona se desmancha na medida que o mato cresce, triste saber que nunca mais haverá onze horas, rosas, hortênsias, nem nada. Se desmancha o jardim como se desfaz sua memória. Porque na verdade assim é, todos as lembranças se desmancham, sempre é. Porque a memória desmonta, e nos faz ir embora, antes até mesmo de termos ido. 

29 junho 2014

Eu nos vejo, mas não consigo compreender, como essa lembranças se marcam, se ficam e se apagam.


Se é noite, perco o sono. Perco também a inspiração, a vontade e o carisma, mas nunca esse medo que me persegue. Também não deixo de sonhar que você me atira pelas costas e que eu, mesmo ferida, me levanto e te dou um merecido soco na cara, quebrando um dos ossos das mãos.
Mas não acordo assustada nem aos solavancos, acordo tão calma quanto fria, quase num sorriso de angústia.


E pensar que houve um dia que quase cuspi na nossa cara, mas o catarro não veio, a vontade não permitiu, a garganta não coçou o suficiente. Afinal, a quem ofenderia mais esse gesto?


Talvez a raiva que se cultiva, se eu a jogasse, tudo fora... jogaria também o medo, a preguiça, a procastinação? Jogaria também a máscara que me nasceram na cara e que persisto em usar?
Se eu ligasse menos, se eu bebesse mais, se eu pensasse..


Afinal, que escondem esses olhos tão belos, qual é o gesto, a forma, a melancolia, se não aquela que te pertence, que te tira o sono, que te faz dormir.

16 maio 2014

Desandanças

Ando, veja bem, desandada.


E a vida está boa, as prestações estão em dia, o sonho da casa própria está ali, para ser entregue pontualmente ao mês que vem. 
Mas tem algo que soa errado, que está errado. 

E não falo do assalto que sofri na semana passada, nem do imposto que me arrancou as calças, nem das injustiças, dos atrasos, nem de nada disso. 
Na verdade todas essas coisas já estavam ali, e sempre estiveram enquanto meu caminhar era certo e eu andava. 

Mas acontece que sem mais desandei. É como se somente a cama me bastasse, mas não basta. Como se a comida me satisfizesse, mas não satisfaz. Como se o carro novo me fizesse bem, mas não. 
Como se sem porque eu pudesse esticar, alcançar mas não alcanço. 

Porque de repente perdi o passo, desandei.  

20 abril 2014

Amargura


Uma dia, talvez, sei lá quando, a gente volte a se falar e mundo volte a ser da cor das rosas. 

Pois a que levou essa tola briga, se não a uma mágoa tão e tão grande que me faz perder horas pensando? Que me fez senão dar pesadelos, me tirar do sério. 

De repente não sei o que me faz não rir, mas não rio. E quando vejo acordo em espasmos, tensa, como se me visse ali, no futuro, amargurada. 

Será que me é reservado? Amargurar-se e não rir-se? Como será que pode ser a vida se ela no leva a saúde e nos deixa a birra?

Talvez ela, a idade, um dia traga junto com a velhice, a vontade de reconciliar- ou pelo menos de conversar e pronto. Afinal, não te proponho um brinde, apenas uma conversa que não termine em gritos, uma mágoa que não nos despenque e nos carregue. 

Porque neste futuro de amarguras não tenho certeza do peso que me pesa, não sei dizer onde cabe a mesquinharia e por isso, e talvez, um dia, sei lá quando, o peso passe e a gente vá, esqueça, se deixe ir.



Não sei o autor da foto

14 abril 2014

O Julgamento da Alma

Não me julgue pelas fotos, pelo escrito, pelo status, deixa eu te dizer. 


Se a alma dói, dói lá dentro e nem sempre - quase nunca - o mundo precisa saber. 

Você olha meu sorriso e acha que me conhece, você ouve minha voz e acha que entende meu olhar. 

Não me julgue, nem tente, nem queira, nem pense, nem interprete. 

Talvez se for pra você eu diga, talvez.  

Deixa estar, deixa ir, pois a alma ferida é lá dentro e ninguém precisa estar lá, se não eu, ninguém precisa saber.
E a alma, mesmo amarga pode sim sorrir. Assim como a alma cansada, preocupada e fatigada sempre pode se reerguer. 

10 abril 2014

Sociedade

Joguei, joguei mesmo na tua cara o meu sucesso, não me importo.
Ele me disse sem dizer. Estava nos seus olhos tão verdes e calmos quanto o mar de Alagoas. 
O nome disso é mágoa, mágoa de sócios tão antigos que se engoliram depois de 10 anos de sucesso e 7 de amargura. 
Filho da puta, eu penso sempre que o vejo chegar naquele carro importado. Certo que é alienado, como o meu. Era pra ter sido diferente, era pra gente ser grande, maior imbatível. 
Dessa última vez a briga tinha sido feia, eu quase dei um soco na cara dele. A mão coçou, fechou, eu me contive, respirei fundo e coloquei aqueles anos todos na frente do meu ódio. 
- Você me roubou, seu bosta! - Eu disse. Ele não respondeu que sim, nem que não, nem sorriu. Apenas disse pra eu crescer, que desse jeito não dava mais, que estava acabado. 
Sócios, vinte anos de sociedade, de faculdade, de sonhos, tudo ao vento. Aquele cara acabou comigo, me pois no chão, disse as verdades engolidas por anos.


Desgraçado tava certo, sempre certo. Fui eu quem perdeu o trem, quem gastou a grana toda e não pensou sequer que poderia por um fio dar errado. 

08 abril 2014

De novo o tempo





Com o Tempo a gente desmonta, desfalece, desarma. 
E quem disse que o tempo agride? Talvez cure, perca, 
amadureça. 
Mas é certo, certo mesmo que corrói, desencanta, 
desanda, desfalece-nos. 
Quem mais se não o tempo; tempo este, tempo tudo;
por que apressa e demora a passar?

30 março 2014

Ironia


Que fique claro, desde já. Que eu não te detesto, porque não sei como você é fora daqui. Mas detesto essa tua ironia que te percorre, esse sadismo em humilhar e assoprar que sempre te deu prazer. 

Se você fez faculdade por esforço seu, se veio da favela, do gueto, não me importa. Ou você por acaso um dia já me perguntou minha história de vida antes de me jogar na cara que seu pai bebia?
E reconheço tua garra, teu esforço, tudo mais. Mas você não sabe nada sobre mim, querido, nunca saberá. 
Gente que destrata as pessoas é gente merda. Gente assim como você.
Então, queridão, pouco me importa se você ri pelas minhas costas, se de repente se acha tão superior. A mim importa que você suma, corra e me deixe em paz. Afinal, gente que bisbilhota e cutuca assim sem mais é gente merda. E gente que nem você, como eu, que dá indireta pela Internet por achar que assim, desta maneira, tá tudo bem. 

25 março 2014

O que somos?

Somos todos irmãos, órfãos, filhos de uma mesma realidade que já não nos pertence mais. 
Caímos noutro mundo, o mundo real, cheio de pequenos detalhes os quais não estávamos acostumados a encarar.   
É estranho perceber que de repente e sem mais a nostalgia nos cerca, todos nós, e que as nossas risadas se concentram num mundo que simplesmente não é mais nosso.