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04 setembro 2017

Foto: freepik.com
Ah! Noite! E dançava! As mãos perdidas descendo pelas coxas que vibravam ao som dos surdos. 
E diz pra mim - ou dizia - o que é essa paixão me me sobe pela nuca e me devora pelas costas? 
Se eu não sou nada pra você, porque não me larga dos olhares? Se não lhe sirvo pra um mês porque te sirvo para uma noite?
Somos assim, deixa ver, tão distantes, enquanto seu corpo desce e desce e escorrega e desce mais. 
Então por que não olha pra mim enquanto dança e me diz que medo é esse? Quem é essa ilusão que flerta comigo sem me dizer sequer o nome.  Você e eu somos a história que só existe em mim, o corpo ardente que me aquece a alma e me sobe a voz; enquanto você continua a descer e escorregar ao som dos surdos.   

23 junho 2017

Quantas vezes


foto por: www.freepik.com
Quantas vezes você já colocou uma calça mais larga pra ir trabalhar porque ia pegar trem lotado?
Quantas vezes você já ouviu que era melhor contratar uma locutora porque daria mais credibilidade ao filme?
Quantas vezes a taxista já pediu seu telefone e já se ofereceu indiscriminadamente  pra subir no seu apartamento?
Quantas vezes vc já fingiu mexer no celular porque um mina "nada haver" resolveu te cantar na fila do supermercado do nada?
Quantas vezes já disseram que você merece ganhar menos sua carreira inteira porque quer ter filhos?
Quantas vezes você foi chamado de "delicioso, gostoso, tesão" ao passar na frente da obra?
Quantas vezes vc já deixou de sair de casa sozinho por ter medo de ser estuprado? 
Quantas vezes uma desconhecida já pegou no seu saco no transporte público como se fosse a coisa mais normal do mundo?
E sua bunda, já encostaram nela sem permissão? 

27 outubro 2015

Ser Mulher

Ilustração por Mari Fakih
O primeiro assédio que lembro, na verdade foi na rua, com um grupo de amigas. A gente  devia ter uns 11 anos, treinava handebol, e saia de camiseta e shorts para pegar o ônibus. Entre fiu-fius e gracinhas a gente ia pra casa, de ônibus, a pé, como seria possível. 

Mas o mais escandaloso, ao meu ver, foi um professor de matemática que tentou sair comigo. Eu tinha 16 anos, estava no colégio, ele devia ter uns 40. Era até bonitão, malhado, um tipo OK,  mas lembro que fiquei enojada e confusa. Não saí com ele, mas não denunciei ou contei para ninguém. Apenas passei e evitá-lo. Talvez porque aos 16 a rua já tivesse me ensinado que eu era deliciosa, pernuda, bundão e que isso era "assim mesmo". Talvez porque também foi aos 16 que, enquanto eu corria, indo e voltando na avenida, um cara resolveu bater uma punheta e quando passei novamente por ele disse que era pra mim. Depois daquilo por anos minhas corridas tornaram-se restritas aos parques, com guardas e grades, onde me parecia mais seguro. 

Não me lembro a idade, mas já apertaram meu peito no amontoado do trem, depois daquilo aprendi a andar sempre encostada nas paredes do vagão, a andar de cara fechada na rua enquanto caminho sozinha, a tantas outras coisas. 

E isso não para, pois esses dias, quando fui pegar ônibus, havia um grupo de homens no ponto, talvez conscientes, legais, mas tive medo. Por isso esperei de longe, olhando para trás a cada segundo. Quando o ônibus chegou dei sinal de longe, e corri até o ponto, passando rapidamente por eles.
Pequenas "infrações sem sinal de violência" que toda a mulher passa. Que ao longo de anos me - nos - deixaram escolada. Afinal, começa quando a gente ouve fiu fiu a cada esquina; de shorts, de decote, de vestido longo, de calça, de burca. E na verdade a gente precisaria responder e chingar, e gritar, e denunciar; mas como, se a gente tem medo, se tem a certeza da impunidade? Medo porque somos assediadas por professores, por chefes, por motoristas de ônibus, por tantos lugares. Medo porque aprendemos que é "normal", que simplesmente é assim. 



Conheça mais do trabalho da Mari Fakih aqui: https://www.facebook.com/Fakih-Maa-280527268763501/

10 junho 2015

Renata

Grafite por: Nina Pandolfo e Finók
Renata é reservada e bonita e sonhadora e não tem muitos amigos; por isso quando encontra alguém disposto a conversar, conversa. Conversa muito com o dono da loja de envelopes, com a atendente do mercadinho próximo a ela, com o cobrador do ônibus que costuma se o mesmo na hora que ela pega. 
E Renata sonha com o dia em que conversará sobre seu coração, sobre seus medos, dividirá seus sonhos. Afinal, ela é talentosa, mas guarda todo o seu talento escondido numa grande caixa de veludo no fundo de seu armário. Lá, também guarda papeis antigos, mensagens importantes, suspiros por amores que nunca viveu. 
Talvez se eu penteasse melhor esse cabelo, pensa consigo, talvez se eu tivesse alguns quilos a menos, se meus olhos azuis fossem mais azulados... talvez...
Mas na verdade, Renata re-vive num mundo de amores tão seus, que não consegue partilha-los, re-vê-se numa angústia tão solitária que não consegue enxergar a si, vive revivendo tão em silêncio que conversa comigo, contigo, conosco, com quem estiver disposto a conversar. 

05 janeiro 2015

Altamira do Cerrado

Do sol, da areia, da água das dunas. Nelas surgem os olhos tão intensos que se escondem na aurora. 
É sob as dunas, antes do Sol Nascer que nasce Altamira, um mulher de pele bulgre, olhos castanhos, queixo fino e pele ardente. 
Dizem que Altamira flutua, tão intensa quanto o vento que molda as dunas nos meses de maio. 
É bela, tão bela que hipnotiza. Nas mesmas noites de maio que vem o vento, vem Altamira atrás de jovens apaixonados, hipnotizados por seu corpo que arde laranja.
É ela, Altamira, vista apenas antes da aurora. Canta, e sob a forma de pássaro torna-se mulher para o viajante que a chama. Pousa primeiro os ombros, depois nas costas, por fim enlouquece-o até que venha a hora. 
É ela, cujas mãos suaves percorrem vivas até a aurora. É ela, cujos viajantes procuram pelas histórias. É ela que quando os primeiros raios de sol despontam, encerra e esvai deixando inertes seus homens. Homens esses que sempre voltam para tentar encontrá-la novamente, mas ela não se repete, nunca vem.

02 dezembro 2014

Aniversariei

Aniversariei, e de repente, estou quase aos 30.

Aniversariei vendo as fotos daqueles que um dia foram tão próximos e agora são rosto na rede social. E aniversariei encontrando rostos de rede social e em conversas, em risadas, amigos novos.

Aniversariei sorrindo, pensando como é bom não ter mais 18 nem estar tão próxima dos 40.

Aniversariei leve, de batom vermelho, que agora me cai melhor que alguns anos atrás. Contudo, aniversariei também com 4 monstruosos quilos a mais, com 40 projetos a mais, com 400 ambições a caminho.

De repente, olha só, meus amigos tem filhos planejados, minha faculdade ficou há anos luz e ao passar na frente de um colégio qualquer sou tia, professora, não mais estudante.
De repente, veja, abri os olhos e aniversariei! E se envelhecer for sempre assim, que venha: os batons, as bases, os cremes anti-idade e claro, as (malditas) rugas. 

20 março 2014

Tempo de Mulher

Com o tempo a gente se perde, esquece que chorar faz bem, que a vida se vive por um fio, que não adianta bater a todo o momento de frente com o mundo. 
O tempo nos descasca, descama, desima, desarma, desmonta, desmancha.
Mas que tempo não cura, diga você?
Afinal, que te fez levantar da cama com essa cara de ontem e não lavar bem os olhos?

Que mal te fez guardar essa ramela ao redor das suas olheiras e infiar-se nesse uniforme pra ir estudar?
Com o tempo a gente se ajusta. Passa delineador, descobre o batom vermelho, descobre também que tem que trabalhar. 

Descobre porque nasce já no mundo do trabalho, percebe que é só o trabalho quem te trás independência. 
Mas em tempo eu digo. Independência é felicidade? Não importa. Afinal, independência é escolha, é livre arbítrio, é a saborosa dor de escolher.

Se viemos da costela de adão, da macaca, da bactéria, do sopro, da argila, não me importa. Se viemos das chamas, do pó, das nuvens, não sei. 

Importa que o tempo, esse sim nos permitiu não aceitarmos os maridos, os pais, os chefes. O tempo nos permitiu passar batom sem sermos chamada de puta, delinearmos os olhos quando temos vontade, usarmos salto alto enquanto permitirem os joelhos. E o tempo também nos permitiu a recusa.

Mas não nos enganemos, afinal qual recusa é fácil? Qual mudança é simples? Qual mundo é perfeito? 
Hoje, bem ou mal há escolhas, basta fortalecê-las e não deixar o tempo as engula novamente.

E eu, eu hoje removi as ramelas, passei delineador e no tom inexistente do meu batom pus uma calça comprida e fui trabalhar.