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16 maio 2014

Desandanças

Ando, veja bem, desandada.


E a vida está boa, as prestações estão em dia, o sonho da casa própria está ali, para ser entregue pontualmente ao mês que vem. 
Mas tem algo que soa errado, que está errado. 

E não falo do assalto que sofri na semana passada, nem do imposto que me arrancou as calças, nem das injustiças, dos atrasos, nem de nada disso. 
Na verdade todas essas coisas já estavam ali, e sempre estiveram enquanto meu caminhar era certo e eu andava. 

Mas acontece que sem mais desandei. É como se somente a cama me bastasse, mas não basta. Como se a comida me satisfizesse, mas não satisfaz. Como se o carro novo me fizesse bem, mas não. 
Como se sem porque eu pudesse esticar, alcançar mas não alcanço. 

Porque de repente perdi o passo, desandei.  

08 abril 2014

De novo o tempo





Com o Tempo a gente desmonta, desfalece, desarma. 
E quem disse que o tempo agride? Talvez cure, perca, 
amadureça. 
Mas é certo, certo mesmo que corrói, desencanta, 
desanda, desfalece-nos. 
Quem mais se não o tempo; tempo este, tempo tudo;
por que apressa e demora a passar?

30 março 2014

Ironia


Que fique claro, desde já. Que eu não te detesto, porque não sei como você é fora daqui. Mas detesto essa tua ironia que te percorre, esse sadismo em humilhar e assoprar que sempre te deu prazer. 

Se você fez faculdade por esforço seu, se veio da favela, do gueto, não me importa. Ou você por acaso um dia já me perguntou minha história de vida antes de me jogar na cara que seu pai bebia?
E reconheço tua garra, teu esforço, tudo mais. Mas você não sabe nada sobre mim, querido, nunca saberá. 
Gente que destrata as pessoas é gente merda. Gente assim como você.
Então, queridão, pouco me importa se você ri pelas minhas costas, se de repente se acha tão superior. A mim importa que você suma, corra e me deixe em paz. Afinal, gente que bisbilhota e cutuca assim sem mais é gente merda. E gente que nem você, como eu, que dá indireta pela Internet por achar que assim, desta maneira, tá tudo bem. 

20 março 2014

Tempo de Mulher

Com o tempo a gente se perde, esquece que chorar faz bem, que a vida se vive por um fio, que não adianta bater a todo o momento de frente com o mundo. 
O tempo nos descasca, descama, desima, desarma, desmonta, desmancha.
Mas que tempo não cura, diga você?
Afinal, que te fez levantar da cama com essa cara de ontem e não lavar bem os olhos?

Que mal te fez guardar essa ramela ao redor das suas olheiras e infiar-se nesse uniforme pra ir estudar?
Com o tempo a gente se ajusta. Passa delineador, descobre o batom vermelho, descobre também que tem que trabalhar. 

Descobre porque nasce já no mundo do trabalho, percebe que é só o trabalho quem te trás independência. 
Mas em tempo eu digo. Independência é felicidade? Não importa. Afinal, independência é escolha, é livre arbítrio, é a saborosa dor de escolher.

Se viemos da costela de adão, da macaca, da bactéria, do sopro, da argila, não me importa. Se viemos das chamas, do pó, das nuvens, não sei. 

Importa que o tempo, esse sim nos permitiu não aceitarmos os maridos, os pais, os chefes. O tempo nos permitiu passar batom sem sermos chamada de puta, delinearmos os olhos quando temos vontade, usarmos salto alto enquanto permitirem os joelhos. E o tempo também nos permitiu a recusa.

Mas não nos enganemos, afinal qual recusa é fácil? Qual mudança é simples? Qual mundo é perfeito? 
Hoje, bem ou mal há escolhas, basta fortalecê-las e não deixar o tempo as engula novamente.

E eu, eu hoje removi as ramelas, passei delineador e no tom inexistente do meu batom pus uma calça comprida e fui trabalhar.  

09 março 2014

A Mulher Encantadora

- Respeitável Público! - começou dizendo, com sua voz vibrante e rouca. Ajustou a capa, mantendo os olhos fixos na platéia em silêncio.
- Apresento-lhes a mulher mais encantadora do mundo! - O Mágico transpassou a capa pelo vazio ao seu lado, mas sob o soar dos tambores nada apareceu. 
- Não deixem que seus olhos os enganem, senhores, pois o encanto está no sentir - disse passando as mãos pelas coxas femininas que ninguém era capaz de enxergar. 
- O sentir - continuou - este sim é que mais importa. – Num movimento solene o mágico abocanhou a coxa, após deslizar mais uma vez os dedos sobre ela. Levantou o rosto vagarosamente em direção a platéia, buscando os olhares desconfiados de todos. Por seus lábios, antes pálidos, agora escorria sangue e devagar ele mastigava um pedaço da carne. 
- A mulher encantadora precisa de cicatrizes - disse a voz reverberante – mesmo que ninguém possa enxergá-las - O público arregalou os olhos, mas mostrou-se visivelmente desacreditado do poder daquele homem. Era apenas um truque qualquer, diziam os burburinhos. O Mágico não se deixou abater, e pelas mãos fez sugir uma navalha diante do público agora atento. Aproximou-se do pescoço imaginário, cortando-lhe uma pequena fatia. Escorria sangue no ar e a platéia aos poucos delirava ao ver as mãos mágicas manchadas daquele líquido escarlate.
Encantador? Não? - Disse pausadamente encarando cada um que o assistia - Encantador...
Aos poucos as pessoas tornavam-se serpentes seguidoras de uma de uma flauta, os olhos vidrados em cada gesto do Mágico.
- Quero ver o rosto encantado - Pediu uma voz da platéia. - Quero vê-la!
O Mágico pausadamente lambeu o sangue das mãos,
- Antes mesmo de vê-la é preciso senti-la. – Advertiu.
As mãos dele percorriam um caminho pelo ar. Assim, surgiram os primeiros traços dos olhos femininos levemente puxados. Sua boca rubra apareceu, em seguida e a pele apresentou-se da cor e tonalidade ideal para qualquer visão. 
O Mágico percorreu o palco, rodeou-a fazendo seu corpo surgir aos poucos. 
- Encantadora você é... - sussurrou o mágico ao ouvido dela, enquanto conduzia seu corpo e os olhos da platéia ao centro do palco. 
Os do público estavam atônitos, incapazes de compreender porque não conseguiam desviarem-se daquela figura serena. Aos poucos o Mágico também parecia encantado, deslizando as mãos incansavelmente pelo rosto feminino.
As luzes, porém, apagaram-se. Apenas um feixe iluminava ambos no palco. O mágico abraçou-a por trás carinhosamente. Com a navalha abriu-lhe o peito delicado e tirou-lhe o coração ainda pulsante diante da platéia agora aterrorizada.
- Não há magia alguma. - disse cortando um pedaço do órgão e guardando em sua cartola. – Assim como não há encanto que dure para sempre.  
Com um olhar sereno o Mágico fitou novamente a platéia, estava desorientado, porém firme. Devagar ele retornou à mulher, deslizou as mãos sobre seu corpo desacordado, repôs o restante do coração no peito. Seus olhos fundos estavam marejados e com a boca seca ele abaixou-se e beijou-a na testa. 
Cordialmente, levantou-se reverenciou o público, ajustou a cartola e num ensaiado movimento da capa sumiu, fazendo-se desaparecer.

13/11/2009, sexta feira.

06 março 2014

Alex, Joaquim, quantos mais?

Quantos crimes por aí, cujos pais matam seus filhos? Quantas vezes mais? 
O motivo? 
Qual seria, além da crueldade? Talvez intensificada pela bebida, ou por outra droga, pela cólera, ou por outra droga? 
Nada justifica, nada, mas não seria ela, a droga que você também consome na balda, que não faz mal a ninguém, um intensificante? 
A coragem que falta, a paranóia que cresce, a raiva que multiplica?
Gente cruel, gente assim está por aí, sempre vai ter. Mas de onde vem o mais absurdo? Da certeza da impunidade? De onde vem o mais absurdo? Da omissão de mães igualmente desestruturadas? 
De onde você, absurdo, de onde vem? 

16 fevereiro 2014

Carta de amor

Anita,

Deixa eu te dizer, nós duas não podemos ser assim amantes, casadas, juntas, porque o amor não cabe aos iguais. Não seremos felizes, alternas, bem quistas. O que não significa que deixarei de te amar; te amarei a cada segundo, e quando estiver com ele casada, darei um jeito que conheças nosso filho. Serás madrinha, está prometido.
Entenda, por favor, que o futuro é nosso, mas que preciso casar-me, afinal, há honra, há família, há dinheiro. 
Mas amor, este só há contigo e talvez por isso serei uma boa esposa, darei um jeito de ser feliz. Que me importará se ele dormirá com outras depois? Em segredo dormirei contigo e ele nunca saberá. 
Que me importará se ele chegar tarde à noite, se me perder o desejo, se me deixar de lado. A mim importa tu, sempre será assim, ainda que hoje tu sintas que não. 
Mas prometa que continuarás a ser minha, que vais ser feliz, e que este amor em segredo não vai se deixar morrer por este meu casamento. Pensa e me responda, com uma rosa, um cravo, ou com o calor do teu perfume. 

Um beijo, da tua

Carla