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24 março 2016

Carta aos primos

Sabe, eu tenho pena de você, apesar dos pesares. Pena mesmo. Afinal, os bons momentos de neta foram mais meus do que seus. Quando eu era criança, e todos eram saudáveis, você estava longe, distanciada daquilo que era tão bom: os jogos de cartas, as comidas saborosas, as conversas sobre o Baú da Casa Própria, as cambalhotas no colchonete que me fazia espirrar.


Você perdeu os aniversários cheios de gente, os Natais fartos, quando a gente não acreditava em Papai Noel mas acreditava que aquilo tudo era gostoso. Quando a gente esperava pela meia noite para ganhar um presente, um cartão, um beijo.

E depois de refletir muito sobre, depois que a ferida acalmou, consigo apenas pensar que sinto mesmo é pena. Porque ela está aí por uma disputa, que se transformou em ódio. Ela é uma peça que se mexe pra lá e pra cá, justificando o jogo amargurado.

Mas apesar de tudo, apesar de não achar certo ou justo, sei que ela sempre quis você por perto, que estava saudosa, que sua presença lhe faz bem. Espero que seja recíproco, que a presença dela faça bem a você, que você sinta o que é ter um colo por perto, uma história antiga a ser novamente e novamente e novamente contada. 

E eu espero, sinceramente, que você possa sentir parte do que senti. Que nunca precise se despedir abruptamente, que nunca precise de uma ordem judicial para visitá-la, que nunca precise por a si mesma diante do tiroteiro, que você possa se libertar e ser também feliz. 


30 setembro 2015

Carta do Esquecimento

Aos filhos meus, que mesmo sem lembrar nunca esqueço,


Se te ofendo, filho meu, me desculpe, é que ando fora de mim. Minha cabeça, você sabe, já não anda bem e meus passos traiçoeiros caminham sobre pés fatigados. Você vem e me cuida desse jeito controlador, daí te ofendo e te boto pra fora. Mas a verdade é que quando você se enche e vai embora eu desarmo, desabo intensamente. 

Não pense que não sei o que se passa, eu sei, e por isso me angustia. Mas é me escapa tudo e birro e teimo e insisto.  O mal é que sei que não sei mais, e me vejo desaprender a tomar um gole d'agua, a escovar os dentes, a cuidar de mim. Eu quero - queria - estar livre novamente, mas não consigo, não posso mais.

Que sou eu, afinal, senão o rastro daquilo que está no retrato pendurado na parede? Quem sou esse eu que mal sabe onde está? 
As vezes na solidão choro, mas não quero que ninguém me veja, porque ainda quero parecer intensa. E se me maquio e me arrumo é porque não quero estar moribunda, embora esteja.
Me desculpa, meu filho, por de repente te dizer o que não merece. Me perdoa, minha filha, por te ofender pelo nada, por te prender a mim. 
Porque esse rastro que me resta não é aquela eu, mas por hora é só o que fica, até o momento que ele mesmo se perder e eu me for embora por inteira, antes mesmo de ir.

Por isso, sem lembrar bem porquê te agradeço e te peço perdão, ainda sabendo que serei bruta outra vez.