27 novembro 2012

As quatro estações

Hoje, hoje acordei inverno, gélida sob os cobertores da cama vazia, do corpo aos pedaços, da alma cansada. 
Levantei aos pouquinhos e caminhei pela garoa que virou chuva, que virou vento, que virou nuvem, que virou sol. 
De tarde fui primavera, florescendo sorrisos ralos enquanto esperava pelas flores que ainda não se abriam. Flores que viraram pétalas, que viraram sementes, que viraram partes. 
Entardeceu e sob o vento de crespúsculo senti-me outono. Partes de garoa insistiram em escorrer por meu rosto, mas fui forte, fui quente e não permiti que me chegasse o inverno. 
Amanhã, amanhã talvez eu acorde verão, quem sabe primavera, porque  não final de outono?
Afinal, hoje fui gélida, amanhã posso estar morna

20 novembro 2012

Ei,

você de quem tenho lembranças e saudades. 
Qual é a possibilidade, me diz? Por que teço esse fio cuidadoso de esperança? 
Que me dá calma? Que esfria?
Quais são, afinal, teus gostos musicais? Qual é tua cor favorita? Qual pesadelo te deixou assim?
Vem cá? Você tem medo de mim, é isso?
Deita aqui, deita a cabeça no meu colo e chora. Se não quiser, deixa que eu deite nos teus braços e te olhe.
Me abraça vai, e não pergunta nada.  
Porque você respira assim? Que te aflige?
É verdade mesmo, somos você e eu estranhos. 
Foge comigo? Vem comigo?
Eu sabia, te falta o sentimento que nasce em mim. 
Ei, ei, olha pra cá. Promete? Promete que vai se cuidar?
Vê se pelo menos pára de remédio, deita e descansa a cabeça. 

1/11/2012

30 outubro 2012

Engano

Achei que poderíamos caminhar de mãos dadas.
Achei que seríamos assim, sorridentes.
Achei que éramos semelhantes.
Achei que poderia fazer uma escolha e que tudo de resolveria.
Acuei que estaríamos, 
achei que seríamos, 
achei que éramos.

Mas então, sem achar mais nada abri os olhos e achei apenas o vazio.

25 outubro 2012

Rumos

Cansei - Ela me disse me olhando firme. - Cansei!
Fiquei assustado, e pus rapidamente as sacolas de compras recém tiradas do porta malas sobre a mesa.
- Cansou de que amor? Que houve? - Ela me olhou indignada, do jeito corriqueiro que fazem as mulheres quando querem que adivinhemos seus pensamentos. 
- Não acredito que você está me perguntando isso!
- Vem cá, me diz o que houve - Tentei puxá-la com leveza pelo braço, pois tratá-la com carinho costumava funcionar nessas horas. 
- Não encosta em mim! - Era grave, percebi no ato. Talvez uma frase de impacto fosse melhor. Tentei. 
- Amor, pelo menos me explica, desabafa comigo. - Eu disse. Ela me encarou, como não costumava fazer. 
- Você quer saber? Quer mesmo saber?! - Fiz que sim com a cabeça, temendo pela resposta.
- Cansei de viver a vida do dia-a-dia, de não jantar em lugares paradisíacos, de não ter você por perto quando mais preciso, de trabalhar da aurora ao crespúsculo, de não gozar toda a vez que faço sexo, de não conhecer o mundo, de não ser quem eu gostaria! Cansei! - Surtou. Pensei. Devia ser a tal da TPM, mas nunca tinha acontecido dessa forma. Fiquei atônito. 
- E você? Não vai falar nada? - Balbucieu dois ou três inícios de frase, mas não saiu nada.
- Sabe por que você não vai falar nada? - Apenas esperei a resposta - Porque você não sabe nada a meu respeito! Você não sabe como eu me sinto, ainda não aprendeu o que me dá tesão e o pior, você sabe de tudo isso e finge que nada existe!
Olha pra você também, pro seu emprego que te explora e te faz fingir que você é feliz. Olha pra gente que finge que é feliz! - Ela estava séria e tudo aquilo fez um turbilhão na minha cabeça. Mas respirei fundo, tentando ser racional.
- E o que você acha que a gente pode fazer? - Foi ela quem respirou dessa vez. Jogou-se no sofá conforátavel, mas de classe média e me olhou daquele jeito que as mulheres nos olham quando querem nos desafiar.
- Fugir?
- Pra onde? - Ela me sorriu. Sabia minha resposta antes da pergunta. 
- Vem comigo? - Sentei-me ao seu lado no sofá, procurando as melhores palavras. Ela permitiu que eu a deixasse encostar a cabeça em meu ombro. 
- Vem? - Ela insistiu. Beijei sua testa e acomodei-a melhor em meus braços. Sem dizermos o que não havia para ser dito, dormimos no sofá desajeitados. Quando acordei percebi que não era TPM, não era surto, mas uma decisão tomada há tempos enquanto eu fingia que nada existia. 
Fugira, sem bilhetes, sem dramas, sem olhar pra trás, apenas porque precisava respirar outros ares e talvez se dar a chance de voltar. 

13 outubro 2012

Amores inexistentes

Estranho, por instante pensei. A ausência, o sumiço, o turbilhão, o desejo pelo toque do telefone.
Não sou tola - sempre - nunca fui. Paixão avassaladora, elo, será que falta?
Tanto faz, não é mesmo, porque estou ligada aos encaixes, à agenda, às pequenas brechas, ao tempo.
- Vem cá. Você me ama?
- Quem pode amar um pedaço que inexiste?
- Com posso amar um sorriso que não existe?
- Te amo.
- Amo somente nosso amor inexistente.
Estranho, que essa ausência momentânea é tão natural quanto o afastamento que nos cerca.
Afastados pela nossa proximidade.
Sabe, não faz tanto tempo mas faz. Não faz tanto tempo, mas fecho os olhos e deixo ir. Afinal, quem pode amar um amor que já existe?

03 outubro 2012

A morte

morte nunca é fácil, nunca é aceitável, nunca nos parece boa. A morte aos 5 é devastadora, 20 arranca-nos o coração, aos 30, aos 40, aos 50,aos 90, não importa; nos desarma, nos fere, nos destroi. Destroi porque não importa a idade, a gente sempre acha que as pessoas são eternas, a gente sempre acha que a sabedoria supera a doença, que o otimismo supera as angústias, que a vida supera seu próprio fim.
morte nunca é fácil, nunca é bela, sublime, simples. Nem por isso precisa ser assustadora, embora seja, nem por isso precisa ser vazia, embora pareça, nem por isso precisa ser temida, embora seja. 
morte é desses mistérios que a gente vê na vida, é dessas coisas que a gente tenta racionalizar e não consegue, é dessas coisas que a gente fica fingindo que não se importa. Talvez porque a morte seja dessas coisas da vida, dessas coisas que a gente sabe que são assim mas nos machucam, nos ferem, nos intrigam. A morte: simplesmente a única  certeza, o mais duro aprendizado. Afinal, a vida é assim e tudo o que vive, morre.  

29 setembro 2012

Tempo

Há quantos tempo nos conhecemos? 20? Quase 30 anos? Pelo menos foi a esse número que cheguei nas minhas últimas contas. Deve dizer que fizemos sexo? Devo dizer o que a nosso respeito?  Por não saber, digo aquilo que sempre digo, que somos amigos de infância, que nossas famílias se conhecem desde de que me conheço por gente, que estudamos juntos e construímos uma história que talvez tenha errado o tempo, a forma, a vez. 
Há quanto tempo nos conhecemos? Duas, três, cinco semanas? Não sei te dizer, sei apenas que te conheço desde que eu sorri e você brincou com meu nome. Te conheço desde que brindamos o primeiro copo, desde nossa primeira aventura, despedida, frio na barriga, decepção, volta, sorriso. Sei o que você me conta, o que eu percebo e o que os meus olhos enxergam.
Há quanto tempo nos esbarramos? 20, 30 anos? E porque não nos vemos, não nos sabemos, não nos envolvemos?
Há quanto tempo nos procuramos? Hoje, amanhã, ontem? E por quê? É porque te vejo por dentro e por fora, porque somos íntimos, porque o tempo simplesmente não precisou nos dar mais tempo ao tempo.

20 setembro 2012

Voltas


Algumas vezes o mundo dá voltas. Na verdade ele sempre gira para um mesmo rumo além do que podemos compreeender. 
Ninguém se importa com nada, somos todos iguais achando que somos diferentes. 
Eu também sou assim: chata, mentirosa e inacessível; tão displecente e desligada de todas as coisas que amo. Isso porque o mundo sempre gira, numa loucura que me faz fingir ser aquilo que sou não sou. 
Você deve me achar louca, saiba que eu também penso assim. 
 

Escrito em 21/3/07. 

12 setembro 2012

Ousar

Não ouso falar o teu nome, dizer tua cor, o tom dos teus olhos, o louro acastanhado dos teus cabelos.
Não ouso olhar-te nos olhos, beijar tua boca, esquecer-te.
Não ouso sentir-te, rir-te ou fingir-te. Sequer ouso escutar tua voz ou ler tuas palavras recém escritas.
Mas ouso, ouso sim, ouso olhar-te escondida, calar-te em bilhetes, tirar-te o fôlego em sorrisos.
Ouso, ouso sim, tentando fazer-te me perceber para que juntos ousemos fingir que não somos nós mesmos.

05 setembro 2012

A Doença do Pai


Naquele dia o pai adoeceu, teve uma crise nervosa louca, tirou todos do sério.
Que doença era aquela? Doença séria, daquelas que não tem porque não querem ser curar.  
Naquele dia o pai matou os filhos no grito sem paciência e a mulher na raiva sem motivos. O pai
não queria curar-se, e quem poderia viver com ele assim? Antes o pai era pai, do nada o pai virava pó.
Seus gritos sem razão ecoavam pelo ar. Brincadeiras fora de hora e instigadas
por estigmas que cresciam gradativamente. Não tinha mais graça, nem mais
nada. Morre devagar o pai, que tenta estar dentro mas está fora.
Ninguém agüenta esta doença fétida, amargurada e exibicionista. Doença que traz aquilo que o pai esconde, mas que o pai é. Morre aos poucos e vai morrendo, arrasta-se, talvez nem perceba. 
A doença consome as capacidades do pai, e por que tem que estar errado o médico e certo o pai?
E por que tem que calar-se o filho para ouvir o pai? E por que deve ser-se esposa junto desse pai?
Que doença! Veja esta fumaça fétida que sai da boca do pai. Veja esses dentes podres que tem o pai. Veja este nervosismo louco que atinge o pai. Veja este homem tosco que é...
Naquele dia o pai adoeceu, num surto de raiva fechou seus olhos, tapou os ouvidos, trancou a mente, adormeceu. Alguém ainda deve sentir saudades do pai, e talvez ainda exista esperança, pois a cada segundo morre um pai.


16/04/2006

28 agosto 2012

Ver

A última vez que eu a vi nem faz tanto tempo, mas na verdade faz. Eu a vi, ela não me viu, sequer notou minha presença. 

Chegamos em sua casa para a visita habitual e já era crepúsculo. Um resto de luz no céu não deixava ser noite. Toquei a campainha e pelas frestas da cortina de renda pude perceber que ela assistia à TV.  E a TV nem estava tão alta assim, sei que ela poderia ter nos escutado. 
Mas ela não ouviu, nem a campainha, nem o telefone, nem os gritos, nem nada. Chegou a olhar para fora como se procurasse por algo, mas não nos viu nem nos encontrou. Seus olhos percorreram vagos pela rua e depois ela pousou-os novamente sobre a tela luminosa da televisão. 
Tentamos, sem sucesso, fazê-las nos encontrar de outras maneiras e em nosso último suspiro de ânimo deixamos um bilhete na caixa de correio. 
Ela não nos viu, sinceramente não sei quando vai nos ver de novo.
Na verdade eu não sei qual será a última vez que vou vê-la. E não é ver olhando apenas. Afinal, assim, só com os olhos, pude vê-la por detrás da cortina e ela poderá me ver na próxima visita. Digo ver de verdade, encontrar, reconhecer... 
Estranho, penso, estranho porque quando meu avó morreu ele morreu antes da morte. O que restou foi um fio de olhos vazios que não enxergava nada, não falava, não vivia. Estranho perceber, através da cortina, os mesmo olhos que nada veem, que se distanciam e que morrem enquanto fingem viver. 



Foto retirada de http://www.flickr.com/photos/gracie_said/7173626038/

23 agosto 2012

A MENINA TRISTE

A menina triste levantou os pés e remexeu-se na cama.
A menina triste disse bom dia porque era educada.
A menina triste passou o verão sentada olhando as árvores balançarem.
A menina triste comeu carne na janta porque a mãe mandou.
A menina triste viu que a chuva caia forte no fim da tarde.
A menina triste riu do desenho animado porque todos diziam que era engraçado.
A menina triste começou a gostar de rir.
A menina triste não pôde ver TV porque era hora de dormir.
A menina triste foi à escola aprender coisas que nunca usaria.
A menina triste não respondeu à altura porque era falta de respeito.
A menina triste sorriu para a diretora, mesmo sem gostar dela.
A menina triste ficou parada vendo as figuras do livro
A menina triste foi obrigada a ler o livro chato sem figuras.
A menina triste ouviu dizer que era feio ser triste
A menina triste aprendeu a sorrir, mesmo estando triste.
A menina triste obedeceu; e nunca mais ficou triste.


Escrito em 16/12/05

17 agosto 2012

Bobagem

De verdade? Eu tenho mesmo esse jeito meio duro-direto-apaixonado-tolo-emotivo que me faz apaixonar-me pelas pessoas. E eu as amos, amo mesmo, nem que seja por apenas uma semana. Por isso toda a vez que vão-se embora fico assim, triste escondida sob meu sorriso de despedida.
Verdade, eu amo mesmo, amo sim, desse jeito confuso que ainda não conseguiu aprender odiar de fato., pois insisto em odiar somente aos pouquinhos.
De verdade? Sou assim, tenho mesmo esse jeito que não chora mas sorri, esse jeito tão nostálgico que se pega chorando sem saber. 
Bobagem, parece, bobagem sentir falta dessas pessoas que passam e nos conquistam na superfície, Bobagem porque eu as amo lá no fundo, da maneira mais superficial que consigo. Amo quem me sorri sem saber, quem me reclama, me chateia, me cutuca. 
Bobagem, não é? Bobagem porque cada arrogância alheia me incomoda e me conquista. Porque cada vez que mudo meu coração aperta e sorrindo me despeço.  Sorrindo porque sei que sempre existirá uma tola nostalgia a me fazer sorrir em cada lembrança.

06 agosto 2012

Nunca

Pedro acordou em meio à madrugada, estava um pouco frio mas alguém já o cobrira. Eram apenas as cortinas que faziam barulho, pois a janela tinha se fechado sozinha como num passe de mágica. Pousado sobre o criado mudo estava seu livro favorito, Peter Pan. Mais uma vez Pedro dormira revendo as ilustrações.

Pedro era um menino comum, desses de contos infantis. Tinha pai, mãe, irmãos e uma namoradinha de infância. De cara feia era a coisa mais linda do mundo. Rancoroso? Ah! Um amor. Sorrindo? Nossa! Um anjo, desses que toda a avó guarda no porta-retrato.
Mas Pedro tinha decidido, seria criança para sempre e mesmo tendo uma mãe persistente, como essas de histórias contadas, não houve jeito. Não houve psicólogo, psiquiatra ou psicoterapeta que fizesse Pedro  fechar a janela para dormir. Não estava preparado, talvez nunca estivesse.
As pernas esticaram, o rosto ganhou barba, a voz engrossou e a Terra do Nunca continuou nos sonhos do menino. Pedro tinha certeza que dia em que o jovem Pan viria buscá-lo para seguirem juntos em uma aventura.

Até houve vezes, poucas vezes, que Pedro tentou viver no mundo real e se deixar ser como gente grande. Porém seu mundo era tão melhor, tão mais fácil... era tão mais legal ser apenas um garotinho.
Talvez tenha sido por isso nunca houve jeito, e os pais de Pedro tenham ido sem vê-lo crescer. Foi essa a primeira vez que Pedro sentiu dor de adulto. Até então pensava que a morte fosse como nos livros, onde não tem solução, mas tem jeito. Pedro descobriu que na vida real a dor doia e finalmente olhou para os lados e percebeu-se só. Era nada além do garoto esquisito, cujas pessoas diziam que não tivera infância ou preferiam apenas não dizer nada.

Mas no mundo dos contos de fadas a dor vai logo embora, por isso Pedro hesitou quando lhe ofereceram mudanças. Decidiu retomar sua vida: saia aos domingos para ir ao parque, comia doces escondidos antes do jantar, deixava os brinquedos espalhados pelo chão da casa, via desenho animado até tarde.
Assim, Pedro nunca deixou de sonhar, nunca desistiu.  "Quando você vem me buscar?", questionava às estrelas esperando que Peter pudesse ouví-lo "Quando?".

Parecia mesmo que Peter não viria nunca, e por isso naquela noite Pedro adormeceu, deixando dessa vez a janela entre-aberta para conter um pouco o vento que lhe causava piagarro. Talvez por isso ele tenha se assustado ao ouvir passos de criança dentro de seu quarto. Talvez por isso quase não tenha visto a sombra sozinha que escondia-se de seu dono dentro das gavetas.
Pedro apenas percebeu o que estava acontecendo quando olhou as próprias mãos, salpicadas de algo tão brilhante e reluzente que iluminava o quarto todo. Era verdade, pensava, sempre fora verdade.
Pedro pulou da cama e assim mesmo, de pijamas, dirigiu-se à janela. Pulou tão alto que logo alçou voo, voando até que o ar lhe cortasse as bochechas. Talvez tivesse seguido para a Terra do Nunca, certamente não voltaria mais.


 

31 julho 2012

Dona Morte


Ri para mim ela
vestida em preto branco,
a figura magrela
atrás do velho manto.

A face cinzenta. É careca,
irônica e torta
Mas diz-se fina boneca
inclusive quando arrota 

E, como pode?
É tão etérea, que porte!
Justo a cinza megera
já conhecida morte.

Quer mais? Veja só
além de tudo é arquétipa,
quer passar por santa.
Dos dentes tenho dó.
É uma figura patética
e inclusive manca.

É louca, chata, enfim,
decerto não teve sorte
Só peço eu, dona morte,
que passe longe de mim.



Não sou boa nas poesias, mas essa me gusta :)

23 julho 2012

O preço da felicidade

- Dois milhões e nem um centavo a mais - dizia o anúncio. Carina caminhava pelo lado oposto da rua e voltou-se para enxergar melhor. Nas letras miúdas falava-se que não se garantia felicidade futura, mas que as lembranças, o passado, tudo seria inigualavelmente feliz. Eliminariam-se os traumas, as incertezas, as bobagices. 
Carina pareceu interessada. Diferente da maioria das pessoas, para ela dois milhões nem era tanto dinheiro assim. 
Impensando, tomou um táxi e foi direto ao endereço marcado no anúncio. Surpreendeu-se com a fachada de vidro, o paisagismo do jardim à porta, o mármore impecavelmente branco no piso. 
Recebida com café e bolachinhas tão macias que desmanchavam na ponta da língua, derreteu-se fácil pelos sorrisos mais amistosos que já vira e que por si só fizeram seu dia mais alegre. 
Em seu passeio fora levada a diversas salas, cheias de grandes especialistas que lhe contavam sobre o método inovador.  A cada conversa sentia-se mais e mais leve. Era surpreendente, como se cada trauma, cada tristeza, cada arrependimento se deixasse escapar. 
- Mas como saber se serei feliz de verdade - perguntou Carina ao médico que lhe fez o último exame. 
- É simples - respondeu pianamente - com o coração livre  de traumas, seu futuro será mais leve e ingênuo. - Carina sorriu, pensando que aquela solução impensada solucionaria  sua alma impensante. 
- Eu pago - disse - pago o que for preciso. 
O médico lhe sorriu com uma doçura tão grande que Carina desfaleceu sem qualquer injeção. Era assim mesmo, sem dor. Numa cirurgia rápida o médico limpou-lhe as amarguras, os resquícios, as doenças. 
Bobagem, talvez parecesse, mas em apenas uma hora Carina estava de pé, sorrindo tão feliz quanto sua foto na rede social. Felicidade de verdade, daquelas que ninguém nunca viu e que faz o chão tremer. 
Antes de partir Carina ainda selecionou seus amigos de verdade, colegas que desejava por perto e os tolos que menosprezaria. Programou ainda suas maravilhosas viagens futuras, seus romances bem sucedidos, suas vitórias, suas não derrotas, suas não marcas. Marcou quem queria que a marcasse e deixou que cuidassem de tudo por ela. Em sua inércia Carina teve alta e saiu sorrindo como nunca sorrira. Um sorriso tão belo e tão largo, tão radiante e tão vazio de amarguras, de más lembranças, de profundidades. Sorriu Carina e sorria, sorriria, sorriria, sorriria... Simplesmente assim, como nunca antes sorrira. 

18 julho 2012

Joga-te,

do abismo, da montanha, de onde a ponta dos teus pés puder pular.
Joga-te porque viver o amanhã não interessa mais. Afinal, talvez amanhã eu chore, ou sorria, ou viva, ou morra, que mais? Apenas jogua-te e não me deixa saber como, quando ou porquê.
É medo? Então diz, feridas ou marcas, quem pode viver sem elas? Diz, porque talvez eu deva lhe dizer que o que senti um dia não sinto mais, o que sinto agora nunca senti.
Por isso, fecha os olhos e não escuta a ninguém, nem a mim, nem a ti. Caminha reto, respira fundo e pula! Pula o mais alto que a ponta dos teus pés puder alcançar!
Joga-te, deixa que o vento te leva e que a vida corra por nós. Afinal, se cairmos cada um para o lado talvez apenas eu desabe enquanto tu choras. Que importa? Afinal tudo que se quebra se conserta, dá-se um jeito.
Deixa ir, abstrai; quem não se fere não vive e enquanto o tempo cura, juntam-se os cacos, levanta-se e vai.
Por isso não pensa, não olha pra baixo. Venha, mê dá a mão e pula comigo. Afinal, o futuro é tão incerto, talvez nem precise ser assim. Quem sabe o céu esteja limpo e a gente voe, pouse e siga por um caminho tranquilo e, mesmo oposto, incapaz de nos deixar mais que apenas lembranças.

13 julho 2012

Babila


Babila e eu nos conhecemos meninas, de camiseta, shorts, uniforme e trancinhas. Ela loira, eu morena. 
Não, não éramos melhores amigas, nem amigas sequer. Também não éramos inimigas ou coisa parecida, apenas andávamos em grupos diferentes. Éramos assim, duas meninas que dividiam um espaço comum, se cruzavam e conversavam às vezes.
Um dia mudamos os caminhos, ela foi pra lá, eu pra cá e não nos vimos mais. Talvez por isso tenha sido tão curioso nosso reencontro, justamente no ginásio que treinávamos juntas. Sabe, foi aquele reencontro ao acaso, quando as pessoas se reconhecem sem se conhecerem. Conversamos pouco, sobre o passado, sobre as lembranças, sobre a vida. Desde então eu a vi poucas vezes, mas sempre encontrando-a por aí.
Essa semana soube que ela se foi e eu ainda não acredito que não vou mais revê-la. Talvez aconteça de novo, talvez daqui a dez anos eu entre num ginásio e ela esteja lá, Vou olhá-la, pensar que a conheço e dizer a aquela mulher madura: ei, você não é a Babila? Lembra, a gente treinava juntas, de trancinhas, e riremos disso por alguns minutos. Será um bom reencontro, tenho certeza. Talvez seja apenas mais ameno, como esses rápidos e esporádicos encontros que tivemos por esse ano.
E a certeza do re-encontra-la cresce a cada segundo, porque nada justifica o fato dela ter ido embora tão jovem. Nada justifica essa bobagem toda, dela ter ido tão de repende sem defesa e sem poder se despedir. Por isso apenas não acredito que ela se foi, e finjo que nãome diz respeito. Finjo porque sei que ela sempre estará por aí, de bobeira, pronta para reencontrar a todos nós, sorrir e dizer olá. 


Uma homenagem não tão bem escrita a alguém que se foi tão de repente.

09 julho 2012

O jardim das não verdades


Quando acordou, olhou as azaléias abertas. Algumas brancas, outras rosadas, uma azul. Era azul celeste, royal, marinho.
Mas se não existem azaleias azuis, talvez quase azuis, azuladas, azaleias, que bobagem! Quem pode gostar de uma flor que nasce em julho, em meio ao seco frio da chuva?

Quando acordou, viu seus chinelos sob a cama, seu edredon sobre a mesa, suas palavras sobre si. Acredite, é o mesmo sol que bate em seu rosto, esconde as marcas de batom que sugam o sangue e afloram as lembranças.

Não me pergunte, pois eu não acredito em mentiras, só em não verdades, Sou como ele, acredito em cada palavra que colho com aquelas azaleias azul-azuladas que florescem em todas as manhãs de chuva e sol. Acredite, pois acreditamos em cada não verdade que nos esbarra.

Ikebana, azaleias, orquídeas, vivas-mortas-retorcidas-multiladas. Quem mais precisa de cuidados? Eu, tu, ele, nós?  Mentira? Verdade? Não verdade? 

Que bobagem, dizemos. Apenas nos deixe em paz, nos deixe dormir, deixe. Quando acordarmos choverá, e sob o sol colheremos nossas azaleias azuis.

05 julho 2012

Valores

Não adianta você me olhar assim, dizer o que quer que seja, sorrir, não adianta. Assim como também não adianta dizer que não tem nada haver, que você não está levando isso a sério, que estava bom do jeito que estava. 
Pode parecer bobo, eu sei, mas a partir do momento que você fura fila, compra droga na favela, dirige perigosamente, e finge que não é problema seu, a gente se afasta e não há sorriso ou olho azul capaz de me re-seduzir.
Entenda,  é apenas porque não concordo, para mim lima nossas conversas, amassa nossos elos. 
Perceba, eu e você não saiamos para os mesmos lugares, embora escutemos o mesmo tipo de música, não caminhamos para o mesmo lado, nem mesmo quando damos as mãos. 
Eu sou assim, mesmo acreditando em liberdade, também acredito nas regras, tento encontrar um porque, uma causa, uma razão, e isso não lhe interessa. 
Sendo assim, mesmo que quando estejamos juntos as coisas peguem fogo, mesmo que minha boca arda quando encontre a sua, prefiro apagar a lenha e deixar que aos poucos a fumaça se va, se va e se va, perdendo-se enquanto se mistura com o ar.