23 agosto 2012

A MENINA TRISTE

A menina triste levantou os pés e remexeu-se na cama.
A menina triste disse bom dia porque era educada.
A menina triste passou o verão sentada olhando as árvores balançarem.
A menina triste comeu carne na janta porque a mãe mandou.
A menina triste viu que a chuva caia forte no fim da tarde.
A menina triste riu do desenho animado porque todos diziam que era engraçado.
A menina triste começou a gostar de rir.
A menina triste não pôde ver TV porque era hora de dormir.
A menina triste foi à escola aprender coisas que nunca usaria.
A menina triste não respondeu à altura porque era falta de respeito.
A menina triste sorriu para a diretora, mesmo sem gostar dela.
A menina triste ficou parada vendo as figuras do livro
A menina triste foi obrigada a ler o livro chato sem figuras.
A menina triste ouviu dizer que era feio ser triste
A menina triste aprendeu a sorrir, mesmo estando triste.
A menina triste obedeceu; e nunca mais ficou triste.


Escrito em 16/12/05

17 agosto 2012

Bobagem

De verdade? Eu tenho mesmo esse jeito meio duro-direto-apaixonado-tolo-emotivo que me faz apaixonar-me pelas pessoas. E eu as amos, amo mesmo, nem que seja por apenas uma semana. Por isso toda a vez que vão-se embora fico assim, triste escondida sob meu sorriso de despedida.
Verdade, eu amo mesmo, amo sim, desse jeito confuso que ainda não conseguiu aprender odiar de fato., pois insisto em odiar somente aos pouquinhos.
De verdade? Sou assim, tenho mesmo esse jeito que não chora mas sorri, esse jeito tão nostálgico que se pega chorando sem saber. 
Bobagem, parece, bobagem sentir falta dessas pessoas que passam e nos conquistam na superfície, Bobagem porque eu as amo lá no fundo, da maneira mais superficial que consigo. Amo quem me sorri sem saber, quem me reclama, me chateia, me cutuca. 
Bobagem, não é? Bobagem porque cada arrogância alheia me incomoda e me conquista. Porque cada vez que mudo meu coração aperta e sorrindo me despeço.  Sorrindo porque sei que sempre existirá uma tola nostalgia a me fazer sorrir em cada lembrança.

06 agosto 2012

Nunca

Pedro acordou em meio à madrugada, estava um pouco frio mas alguém já o cobrira. Eram apenas as cortinas que faziam barulho, pois a janela tinha se fechado sozinha como num passe de mágica. Pousado sobre o criado mudo estava seu livro favorito, Peter Pan. Mais uma vez Pedro dormira revendo as ilustrações.

Pedro era um menino comum, desses de contos infantis. Tinha pai, mãe, irmãos e uma namoradinha de infância. De cara feia era a coisa mais linda do mundo. Rancoroso? Ah! Um amor. Sorrindo? Nossa! Um anjo, desses que toda a avó guarda no porta-retrato.
Mas Pedro tinha decidido, seria criança para sempre e mesmo tendo uma mãe persistente, como essas de histórias contadas, não houve jeito. Não houve psicólogo, psiquiatra ou psicoterapeta que fizesse Pedro  fechar a janela para dormir. Não estava preparado, talvez nunca estivesse.
As pernas esticaram, o rosto ganhou barba, a voz engrossou e a Terra do Nunca continuou nos sonhos do menino. Pedro tinha certeza que dia em que o jovem Pan viria buscá-lo para seguirem juntos em uma aventura.

Até houve vezes, poucas vezes, que Pedro tentou viver no mundo real e se deixar ser como gente grande. Porém seu mundo era tão melhor, tão mais fácil... era tão mais legal ser apenas um garotinho.
Talvez tenha sido por isso nunca houve jeito, e os pais de Pedro tenham ido sem vê-lo crescer. Foi essa a primeira vez que Pedro sentiu dor de adulto. Até então pensava que a morte fosse como nos livros, onde não tem solução, mas tem jeito. Pedro descobriu que na vida real a dor doia e finalmente olhou para os lados e percebeu-se só. Era nada além do garoto esquisito, cujas pessoas diziam que não tivera infância ou preferiam apenas não dizer nada.

Mas no mundo dos contos de fadas a dor vai logo embora, por isso Pedro hesitou quando lhe ofereceram mudanças. Decidiu retomar sua vida: saia aos domingos para ir ao parque, comia doces escondidos antes do jantar, deixava os brinquedos espalhados pelo chão da casa, via desenho animado até tarde.
Assim, Pedro nunca deixou de sonhar, nunca desistiu.  "Quando você vem me buscar?", questionava às estrelas esperando que Peter pudesse ouví-lo "Quando?".

Parecia mesmo que Peter não viria nunca, e por isso naquela noite Pedro adormeceu, deixando dessa vez a janela entre-aberta para conter um pouco o vento que lhe causava piagarro. Talvez por isso ele tenha se assustado ao ouvir passos de criança dentro de seu quarto. Talvez por isso quase não tenha visto a sombra sozinha que escondia-se de seu dono dentro das gavetas.
Pedro apenas percebeu o que estava acontecendo quando olhou as próprias mãos, salpicadas de algo tão brilhante e reluzente que iluminava o quarto todo. Era verdade, pensava, sempre fora verdade.
Pedro pulou da cama e assim mesmo, de pijamas, dirigiu-se à janela. Pulou tão alto que logo alçou voo, voando até que o ar lhe cortasse as bochechas. Talvez tivesse seguido para a Terra do Nunca, certamente não voltaria mais.


 

31 julho 2012

Dona Morte


Ri para mim ela
vestida em preto branco,
a figura magrela
atrás do velho manto.

A face cinzenta. É careca,
irônica e torta
Mas diz-se fina boneca
inclusive quando arrota 

E, como pode?
É tão etérea, que porte!
Justo a cinza megera
já conhecida morte.

Quer mais? Veja só
além de tudo é arquétipa,
quer passar por santa.
Dos dentes tenho dó.
É uma figura patética
e inclusive manca.

É louca, chata, enfim,
decerto não teve sorte
Só peço eu, dona morte,
que passe longe de mim.



Não sou boa nas poesias, mas essa me gusta :)

23 julho 2012

O preço da felicidade

- Dois milhões e nem um centavo a mais - dizia o anúncio. Carina caminhava pelo lado oposto da rua e voltou-se para enxergar melhor. Nas letras miúdas falava-se que não se garantia felicidade futura, mas que as lembranças, o passado, tudo seria inigualavelmente feliz. Eliminariam-se os traumas, as incertezas, as bobagices. 
Carina pareceu interessada. Diferente da maioria das pessoas, para ela dois milhões nem era tanto dinheiro assim. 
Impensando, tomou um táxi e foi direto ao endereço marcado no anúncio. Surpreendeu-se com a fachada de vidro, o paisagismo do jardim à porta, o mármore impecavelmente branco no piso. 
Recebida com café e bolachinhas tão macias que desmanchavam na ponta da língua, derreteu-se fácil pelos sorrisos mais amistosos que já vira e que por si só fizeram seu dia mais alegre. 
Em seu passeio fora levada a diversas salas, cheias de grandes especialistas que lhe contavam sobre o método inovador.  A cada conversa sentia-se mais e mais leve. Era surpreendente, como se cada trauma, cada tristeza, cada arrependimento se deixasse escapar. 
- Mas como saber se serei feliz de verdade - perguntou Carina ao médico que lhe fez o último exame. 
- É simples - respondeu pianamente - com o coração livre  de traumas, seu futuro será mais leve e ingênuo. - Carina sorriu, pensando que aquela solução impensada solucionaria  sua alma impensante. 
- Eu pago - disse - pago o que for preciso. 
O médico lhe sorriu com uma doçura tão grande que Carina desfaleceu sem qualquer injeção. Era assim mesmo, sem dor. Numa cirurgia rápida o médico limpou-lhe as amarguras, os resquícios, as doenças. 
Bobagem, talvez parecesse, mas em apenas uma hora Carina estava de pé, sorrindo tão feliz quanto sua foto na rede social. Felicidade de verdade, daquelas que ninguém nunca viu e que faz o chão tremer. 
Antes de partir Carina ainda selecionou seus amigos de verdade, colegas que desejava por perto e os tolos que menosprezaria. Programou ainda suas maravilhosas viagens futuras, seus romances bem sucedidos, suas vitórias, suas não derrotas, suas não marcas. Marcou quem queria que a marcasse e deixou que cuidassem de tudo por ela. Em sua inércia Carina teve alta e saiu sorrindo como nunca sorrira. Um sorriso tão belo e tão largo, tão radiante e tão vazio de amarguras, de más lembranças, de profundidades. Sorriu Carina e sorria, sorriria, sorriria, sorriria... Simplesmente assim, como nunca antes sorrira. 

18 julho 2012

Joga-te,

do abismo, da montanha, de onde a ponta dos teus pés puder pular.
Joga-te porque viver o amanhã não interessa mais. Afinal, talvez amanhã eu chore, ou sorria, ou viva, ou morra, que mais? Apenas jogua-te e não me deixa saber como, quando ou porquê.
É medo? Então diz, feridas ou marcas, quem pode viver sem elas? Diz, porque talvez eu deva lhe dizer que o que senti um dia não sinto mais, o que sinto agora nunca senti.
Por isso, fecha os olhos e não escuta a ninguém, nem a mim, nem a ti. Caminha reto, respira fundo e pula! Pula o mais alto que a ponta dos teus pés puder alcançar!
Joga-te, deixa que o vento te leva e que a vida corra por nós. Afinal, se cairmos cada um para o lado talvez apenas eu desabe enquanto tu choras. Que importa? Afinal tudo que se quebra se conserta, dá-se um jeito.
Deixa ir, abstrai; quem não se fere não vive e enquanto o tempo cura, juntam-se os cacos, levanta-se e vai.
Por isso não pensa, não olha pra baixo. Venha, mê dá a mão e pula comigo. Afinal, o futuro é tão incerto, talvez nem precise ser assim. Quem sabe o céu esteja limpo e a gente voe, pouse e siga por um caminho tranquilo e, mesmo oposto, incapaz de nos deixar mais que apenas lembranças.

13 julho 2012

Babila


Babila e eu nos conhecemos meninas, de camiseta, shorts, uniforme e trancinhas. Ela loira, eu morena. 
Não, não éramos melhores amigas, nem amigas sequer. Também não éramos inimigas ou coisa parecida, apenas andávamos em grupos diferentes. Éramos assim, duas meninas que dividiam um espaço comum, se cruzavam e conversavam às vezes.
Um dia mudamos os caminhos, ela foi pra lá, eu pra cá e não nos vimos mais. Talvez por isso tenha sido tão curioso nosso reencontro, justamente no ginásio que treinávamos juntas. Sabe, foi aquele reencontro ao acaso, quando as pessoas se reconhecem sem se conhecerem. Conversamos pouco, sobre o passado, sobre as lembranças, sobre a vida. Desde então eu a vi poucas vezes, mas sempre encontrando-a por aí.
Essa semana soube que ela se foi e eu ainda não acredito que não vou mais revê-la. Talvez aconteça de novo, talvez daqui a dez anos eu entre num ginásio e ela esteja lá, Vou olhá-la, pensar que a conheço e dizer a aquela mulher madura: ei, você não é a Babila? Lembra, a gente treinava juntas, de trancinhas, e riremos disso por alguns minutos. Será um bom reencontro, tenho certeza. Talvez seja apenas mais ameno, como esses rápidos e esporádicos encontros que tivemos por esse ano.
E a certeza do re-encontra-la cresce a cada segundo, porque nada justifica o fato dela ter ido embora tão jovem. Nada justifica essa bobagem toda, dela ter ido tão de repende sem defesa e sem poder se despedir. Por isso apenas não acredito que ela se foi, e finjo que nãome diz respeito. Finjo porque sei que ela sempre estará por aí, de bobeira, pronta para reencontrar a todos nós, sorrir e dizer olá. 


Uma homenagem não tão bem escrita a alguém que se foi tão de repente.

09 julho 2012

O jardim das não verdades


Quando acordou, olhou as azaléias abertas. Algumas brancas, outras rosadas, uma azul. Era azul celeste, royal, marinho.
Mas se não existem azaleias azuis, talvez quase azuis, azuladas, azaleias, que bobagem! Quem pode gostar de uma flor que nasce em julho, em meio ao seco frio da chuva?

Quando acordou, viu seus chinelos sob a cama, seu edredon sobre a mesa, suas palavras sobre si. Acredite, é o mesmo sol que bate em seu rosto, esconde as marcas de batom que sugam o sangue e afloram as lembranças.

Não me pergunte, pois eu não acredito em mentiras, só em não verdades, Sou como ele, acredito em cada palavra que colho com aquelas azaleias azul-azuladas que florescem em todas as manhãs de chuva e sol. Acredite, pois acreditamos em cada não verdade que nos esbarra.

Ikebana, azaleias, orquídeas, vivas-mortas-retorcidas-multiladas. Quem mais precisa de cuidados? Eu, tu, ele, nós?  Mentira? Verdade? Não verdade? 

Que bobagem, dizemos. Apenas nos deixe em paz, nos deixe dormir, deixe. Quando acordarmos choverá, e sob o sol colheremos nossas azaleias azuis.

05 julho 2012

Valores

Não adianta você me olhar assim, dizer o que quer que seja, sorrir, não adianta. Assim como também não adianta dizer que não tem nada haver, que você não está levando isso a sério, que estava bom do jeito que estava. 
Pode parecer bobo, eu sei, mas a partir do momento que você fura fila, compra droga na favela, dirige perigosamente, e finge que não é problema seu, a gente se afasta e não há sorriso ou olho azul capaz de me re-seduzir.
Entenda,  é apenas porque não concordo, para mim lima nossas conversas, amassa nossos elos. 
Perceba, eu e você não saiamos para os mesmos lugares, embora escutemos o mesmo tipo de música, não caminhamos para o mesmo lado, nem mesmo quando damos as mãos. 
Eu sou assim, mesmo acreditando em liberdade, também acredito nas regras, tento encontrar um porque, uma causa, uma razão, e isso não lhe interessa. 
Sendo assim, mesmo que quando estejamos juntos as coisas peguem fogo, mesmo que minha boca arda quando encontre a sua, prefiro apagar a lenha e deixar que aos poucos a fumaça se va, se va e se va, perdendo-se enquanto se mistura com o ar.

26 junho 2012

Aceito Passe


A velha calça preta jeans desbotada, os olhos semi fechados desprotegidos e
com medo do sol, a camisa verde listrada, manchada e amarelada.
Vendia balas de goma, que passavam rapidamente pelos olhares apressados. Faziam sinal negativo com a cabeça, mediam-no de cima a baixo. As pessoas passavam sem o ver, desconexas com aquele mundo tão distante de si mesmas. Ele era invisível, sequer olhavam para o lado.
O sorriso vazio manchado de amarelo. Aceito passe, pedia, retrucava, mas padeciam educados e negativos os rostos comuns. Aceito passe, repetia triste enquanto ia aos poucos perdendo dentro de si o resto de sua vida. A barba já escondia-lhe o rosto enquanto sua imagem tornava-se apenas reflexo.
Não era malandragem, era súplica. Nem por isso mudavam as reações; as cabeças continuavam a balançar, as vozes continuavam a deixá-lo mais impotente.
Aquilo homem não era digno para aquelas pessoas, nem para o mundo delas. E quando me lembro disso tudo, lembro-me como um borrão em minha memória. Mas a figura caída e invisível daquele homem não passou despercebida por mim. Sua camisa era verde, cor tola da esperança. Cor do  contraste com a avareza branca, preta, oriental ou indígena que lhe sorria amarelo.
Era mais que uma venda, era um gemido angustiado, tão baixo, tão apático, morto, fétido em seu mal gosto. Por isso olhei-o ainda mais uma vez, numa fria análise sobre sua figura. Malditos
avarentos, por um instante pensei. Mas antes que aquele homem suplicasse a mim subi rapidamente no ônibus, sem comprar uma bala sequer.

16 junho 2012

Rastros

Quando eu acordei naquela manhã e não vi seu bilhete sobre a mesa, pensei o que estava errado. Talvez você tivesse saído mais cedo e se esquecido, talvez estivesse trabalhando demais, talvez não tivesse lido minha mensagem. 
Bobagem, pensei enquanto colocava o café na xícara, uma bobagem pensar nisso. Amanhã com certeza a gente se encontra e se resolve. 
Cheguei em casa tarde, tudo apagado, um silêncio tão mórbido que fazia meus passos ecoarem no laminado de madeira. Acendi a luz e minha xícara de café ainda estava no mesmo lugar que deixei, assim como as almofadas da sala, a toalha no chão do banheiro, o edredon. Sobre a mesa não havia bilhete, mensagem, sinal. 
Num gesto automático liguei a tevê, e pensativa tirei o celular da bolsa. Valeria a pena ligar, saber onde você estava, por que se fora? Fiquei o tempo que precisei olhando o celular e digitando possíveis mensagens que nunca enviei, até adormecer no sofá. Eu não sonhei, e acordei de manhã assustada com o despertador. Não tinha tomado banho e minhas costas doiam da noite mal dormida. Novamente procurei, mas não vi rastro seu
Estranho pensar que nos dávamos bem, que nossas conversas eram constantes, que você me sorria. Foi tão de repente que perdi o chão e não encontrei. Por isso, com ou sem sinal seu eu apenas me levanto, tomo banho e saio, pensando que nada disso vale a pena e que em algum momento fui tola o suficiente para imaginar que você seria especial. Levanto, erguo os olhos e olho para frente, somente para frente, mas ainda procurando insensata por um rastro ou bilhete qualquer sobre a mesa.  

31 maio 2012

A ELEIÇÃO


Já que não posso escrever, vai um reciclagem escrita por mim aos 8 anos. O texto foi copiado na íntegra, inclusive com os erros.


Era uma vez uma cidade chamada Pontaçam .
Essa cidade se chamava assim, porque quem vivia la eram esses símbulos: o . [ponto] final, o ponto de !, [excalmação] e etc.
Um dia a virgula resolveu:
 - Vamos fazer o seguinte: já que todos queremos ser os melhores vamos chamar as crianças. Antes que terminasse a fala o ponto final disse:
 - Para que crianças?
 - Simples, para o auditório e tambem para decidirem quem é o (a) melhor. todos aplaudiram a vírgula.
No dia a vírgula estava preparada para ganhar quando disse:
  -Ba! ninguém me vemsse [vence] nésta todos vam [vão] votar em mim . A virgula preparou um texto e foi a o palco.
Quando estava tudo pronto foi chamado ponto a ponto.
A decisão era difícil para as crianças, mas os pontos era fácil, só votavam em si. Você sabe porque, claro todos queriam ganhar. Se fosse você tanbem quereria ganhar não é? Mas a opinião das criaças foi assim: todos os pontos sam [são] boms; Todo mundo ficou desapontado principalmente a virgula. Mas uma criança disse:
  -Porque estão tristes?
Foi ai que o ponto de esclamaçam [excalmação] disse:
 - É porque todos querião guanhar. [ganhar]
Logo uma das meninas da platéia disse:
 - Mas não intendo todos sam [são] inportantes.
Depois dos pontos estarem arrependidos, aprederam porque queriam ser os melhores.
E depois de um tempo, virão que todos eram importantes, e virão que ninguem os dispresava[desprezava]
Logo fizerão uma grande roda e mencionaram o nome de cada ponto um a um



22 maio 2012

O vazio do fundos dos teus olhos


Vazio, foi assim que o enxerguei quando cheguei mais perto e não o toquei. Os olhos evasivos, a boca da qual não saiam sequer grunidos, o não prazer. 
Pensar que não te atinjo, nem sequer na superfície.
Por que esse vazio, esse nariz que não respira, este corpo que não sente? Por que esse buraco? Essa ausência?
Intocável, inatingível seja por ti mesmo ou por minha impotência, insanidade, incapacidade. 
O prazer de uma aventura mascarada num sorriso que se guarda e que se perde, num momento que se vive e que se esconde. 
Quanto mais perto, mais distante, quanto mais fundo, mais oco, mais enclausurado, mais silencioso. 
É um olhar que se cobre sobre o meu, que se perde na palavra que não diz, que não se dá a chance de sentir. Afinal, fomos apenas um par de olhos desviantes na penumbra, acuados em semblantes sem êxtase.
Quanto mais perto, mais longe, mais longe, mais longe. Um de frente para o outro, nos olhamos sem nos vermos. 
E pensar que engolimos um ao outro em desejos camuflados. Camuflados pelo vazio do fundo dos teus olhos que aparam, que sorriem, que evitam.
Fomos assim, livres por essa insanidade do fundo vazio dos nossos olhos, tão oca e plácida quanto nosso desejo, misturado e esparramado sobre sensações que não experimentamos e que não nos pertencem. 

08 maio 2012

Adoro


lembrar de ti como se o tivesse visto ontem. Adoro pensar que não há qualquer distância. Adoro a maneira platônica como o encontro em meu pensamento, adoro sentir que tuas palavras fluem. Adoro sentir-me adolescente e incomodada. Adoro sentir o frio na barriga. Adoro o jeito que teus olhos não me encontram. 

Adoro discordar. Adoro dizer que sou uma coisa, que penso de uma maneira, que sou assim. Adoro estar nervosa, levemente radiante. Adoro sentir-me leve, sem saber por onde piso ou para onde vou. Adoro estar centrada. Adoro ouvir as palavras fluírem sem que eu pense exatamente sobre elas. Adoro olhar para as letras dançando no papel e perceber como não dizem nada. Adoro estar ansiosa. Adoro fingir que não há nada acontecendo. Adoro essa sensação passageira. 

Adoro sentir sem saber o que, adoro sentir sem me perguntar por quê.






15 abril 2012

Os problemas,


os problemas, a gente precisa resolver. Um amor desencantado, uma briga mal resolvida, um infortúnio. 
Les problèmes attendent , dizem os franceses. E esperam mesmo, esperam a vida toda e não há fuga que os faça fugir. 
Mas ainda assim Márcio o fez. Ele fugiu e ainda foge a cada silêncio, a cada resposta não dita, a cada agressividade. Foge atando-se ao vazio e às insanidades. 
Isso porque a fuga é assim, anda de mãos dadas conosco num arco-íris de fumaça e fogo. 
Só que não adianta fugir de mim, diz o problema ao pé do ouvido, eu sempre serei sua sombra, sua memória, seu remorso. 
Mas Márcio, Márcio batia os pés em silêncio, enrijecia as mãos, recorria às lembranças mal talhadas. 
Afinal, quanto mais se espera pela solução, mais cresce o problema, mais intenso fica, mais obscuro, mais abstrato.
Talvez Márcio se sentisse só, encarcerado em seu passado e pisoteando o presente. Talvez precisasse apenas abrir os olhos e enxergar o futuro. É, talvez precisasse ser assim, enfrentar de vez e deixar o passado finalmente ir, e ir, e ir, e ir, e ir. Assim, quem sabe poderia livrar-se de toda a mágoa, de todo o mal. E ser livre, finalmente livre.

12/4/2012 

08 abril 2012

Tou te esperando...


sentado, de pé, onde pudermos nos encontrar. Te espero sempre que o celular toca, que as mensagens vem e vão. Mas peço, contudo, que  não espere de mim o mesmo afeto, as mesmas expectativas. Te espero quando quero, te ligo quando posso, te torno amarga e amena. Apenas porque eu sou assim, um tolo desesperado a procura de alguém que me queira como eu não quero, e que me espere como te espero.

26 março 2012

Pé na estrada


Que adolescente nunca quis pôr o pé na estrada e não olhar para trás? Olhar o mundo sempre novo, de novo, outra vez. Pé na estrada, foi assim, e num estalo eu fui.
Mas sabe, a verdade, a verdade é que a gente sente falta dessas coisas mesmo, do pãozinho da esquina de casa, de saber qual semáforo abre primeiro naquele cruzamento cheio, de conhecer o melhor atalho, de fechar os olhos e dirigir. Sente falta até de se esconder daquele vizinho chato, aquele, que sabe seu nome, que puxa assunto...
Outro dia desses eu saia de casa de carro - era a minha casa mesmo, não essas tantas que adoto por aí - e vi uma vizinha saindo com uma grande sacola. Eu já tinha visto ela algumas vezes então parei pra oferecer carona. Ela aceitou. Puxa, a sacola estava pesada mesmo. 
E aí, aí, a gente conversou aquelas coisas que a gente conversa com aquelas pessoas que a gente não conhece. E a conversa foi boa, ela disse que eu era um jovem simpático, que lembrava um pouco um dos filhos dela. Mais pro fim da conversa, ela me perguntou se eu era novo naquele condomínio. Foi estranho, sabe? Foi estranho quando eu sorri sem saber o que dizer. Estranho porque foi uma daquelas pausas de meio segundo: ela ficou ali, esperando a resposta do rapaz educado que tinha conhecido. E eu? Então, o que eu podia fazer? Eu respondi suavemente, um pouco tímido, quase como quem se desculpa por tanta ausência: "há 21 anos...". Ela apenas sorriu, e sem grandes espantos se despediu, agradecendo a carona. 
Nos meses seguintes, nos meses seguintes, eu nunca mais a vi. E o engraçado é que eu não lembro o nome dela, assim como não lembro o nome do porteiro, a quem poderia perguntar sobre ela... É, acho que é como diz um senhor desses que conheci na estrada: "Faz parte, guri, faz parte"
A verdade? A verdade não importa. Importa que até o o tempero da comida... nunca, nunca é o mesmo, nem ao menos parecido. É tudo diferente. Até o gosto do refrigerante muda. Da água à hora que o sol se põe...
De verdade? A gente sente falta desse negócio todo aí... dessa rotina, sabe? É engraçado, mas justo eu assino jornal, aquele de papel ainda. Acho gostoso sentir o cheiro do café misturado à tinta que fica nos dedos. Só que por essa hora meu jornal deve estar em uma pilha gigantesca cheirando a notícia velha, dessas que não valem mais nada, nem pra puxar assunto com a pessoa sem nome que prepara aquele pão na chapa. Mas também, que importa? São notícias de outro lugar, de outra época, não valem nada mesmo. 
O que vale de verdade? A verdade é que nem sei há quanto tempo eu estou viajando, tô na estrada. Só sei que vou, e vou, e vou. E dessa vez, poxa, dessa vez eu já tinha até decorado o nome do Seu Manuel, um senhor que senta na cadeira de balaço e quando a gente fala com ele, ele responde num tom de quem se reanima: "fala comigo! Fala comigo, meu filho". Vou sentir falta disso, do seu Manuel... 

Texto escrito com a enorme colaboração de Denis Anjos :)

16 março 2012

Os Imigrantes


O Som da sanfona percorrendo as casas, aquela música interminável que durava noites e noites e mais noites. Bem que minha avó contava, que ela mesma havia expulsado seu tio de sua casa depois de  sua festa de casamento. Afinal, todos já tinham ido embora e ele permanecia ali, no centro da sala tocando, tocando e tocando. 
Aqueles, aqueles eram outros tempos, tempos em que as crianças viviam soltas e livres nas ruas, os rios não estavam cobertos por concreto e a lama grudava nos calcanhares. Tempos em que as crianças apanhavam dos pais de vara de marmelo, a comida era escassa e falar alemão nas ruas era proibido.
Eu não sei bem como chegaram à São Caetano, mas a lenda conta que fugiram das fazendas de café, onde trabalhava-se do nascer do sol à aurora e que na venda devia-se mais do que as próprias calças. Os românticos contam que fugiram apenas porque junto ao cafezal a Polka era proibida, assim como era a sanfona, as danças e as lembranças da Europa. Sei apenas que pegaram o trem, e desapareceram na calada da noite. 
Naquele tempo os imigrantes fugidos aglomeravam-se nas periferias de São Paulo, uns sobre os outros, escondidos e temendo o estalo de outra guerra na Europa. A guerra veio e a fome dizimou ainda mais os famintos. As já escassas cartas não chegaram mais e a sanfona tocou mais lenta e mais triste. Ninguém perdeu seu tempo contando os mortos, apenas acendia-se uma vela por dia, na esperança que houvesse alguém vivo.  Tentava-se seguir em frente e mais uma vez não olhar para trás.
Mas um dia a guerra se foi, as tristezas viraram cicatrizes, nasceram os filhos os netos e bisnetos. O progresso, contudo, dizimou as lembranças dessa São Caetano de imigrantes, tornando quase irreconhecíveis essas histórias que mais parecem fragmentos. Fragmentos dos quais nada parece real além do som da sanfona que ainda hoje chora percorrendo noites e noites e mais noites numa lembrança vaga que nunca me pertenceu. 

09 março 2012

Confissões de Mulher

Eu e você somos duas que corremos lá e cá, afastadas do mundo que idealizamos. Somos assim, descalças e sorridentes, atadas numa convivência diária que nos desloca.
Difícil talvez perceber que em nosso mundo não cabemos e quanto mais perto estivermos mais difíceis serão os encontros.
A verdade é que temos caminhos, peças e partes, e nos encontramos somente quando estamos nuas, despidas do pudor e da decência que nos foi imposta.
Difícil também perceber que somos limpas e livres, que os olhos dos outros não nos enxergam, que nossos momentos não pertencem a nada.
Afinal, você e eu só nos olhamos para nos dar bom dia e ninguém nunca nos viu brutas, sujas e sorridentes, assim como gostamos de estar quando ninguém nos vê.



Uma homenagem a nós mesmas, com um dia de atraso

27 fevereiro 2012



Amor, preciso lhe dizer. Dizer que falta tesão.
Não importa quantas palavras belas você me diga, quantas noites conversemos ao luar, quão simpático você possa ser. A verdade é que falta aquela atração que marca, a vontade, a secura. 
Preciso lhe dizer que amor sem alma não sobrevive e que relação sem tesão não florece. 
Quanto te olho vejo um menino, não um homem, e por mais que eu saiba cuidar de mim, se é pra ter agluém preciso que me desdobre e me descubra frágil. 
Entenda isso, amor, entenda que você é capaz de encantar, de distrair, de sentar-se comigo e passar horas a fio, mas entenda que enquanto não houver desejo, faísca e fogo, seremos somente conversa e convívio.