18 maio 2011

Crônicas do trem

Brás, 18h. O trem abre as portas. Em meio ao empurra empurra dois jovens correm e sentam-se, visilmente aliviados depois de um dia tenso, como qualquer outro.
- Sabe ali? Onde ele mora, no barraquinho? Ele quer uns doil mil. Dali dá ainda pra construir. Tô pensando na ideia.
- Se eu tivesse dinheiro, passaria a máquina na minha toda e contruiria ela de novo. Daí tirava logo aquele vão da cozinha.
- Passa não mano, aluga ali. Dá pra tirar uns 400 conto. Em cima ali da minha tem o segundo andar. a segunda laje ta alugada toda. A terceira ainda ta por fazê. Num aluguei ainda não, tá pra bater essa semana.
- Carai, ta patrão você!
- Eu até ia falar procê, mas tá alugado tudo já.
- Gente pobre, quando pega algum bagulho acha que tem o rei.
- Que nem o Rogério. Aí mano vai dá uma de orgulhoso, finge que não vê a gente.
- Eu que que sei. Se tiver isso aí a gente toma tiro na cara. Pode não.
- Relaxa cara, você vai ficar comigo só comandando.
- Aí sim!
- Foda, mas não pode ser que nem os cara. Chega na disumildade, só porque almoça lá cos cara. Mas quando tem pra resolver, cola na fevala pra nois dá um jeito.
- Depois se fode, a culpa é minha e sua que não ajudou.
Houve alguns segundos de silênciio.
- E as folhas?
- Era três de quatrocentos. Bastante, dava pra comprar um golzinho quadrado. 2.400, vou dar seis cheques na mão dele semana que vem.
- Pega co agiota qualquer coisa. As veiz é mais fácil.
- Só que pra pegar com ele tem que ser direito.  Os Paraíba é tudo rico, mas tem que abrir o olho.
- Cara lá bobeu, pau. Cara tem uma Aavazaqui aqui, outra ali...
- O Régis é assim cos polícia. Ele e o Nelson, que á a cabeça dos Paraíba.
- Ele fica ali, só filmando. Que ver se os cara anda direito.
- O Régis cuida lá do CDHU. Cara é rico. Os cara só não mata ele por medo da retaguarda.
- E o tanto de inocente que ele já matou?
- Eu não julgo ninguém.
Ficaram num silêncio mais longe, olhando para baixo e pensando em segundos por aquele assunto proíbido.
- E no sábado, se não vai mais?
- Não vou mais não, nem no feriado. 4h tou pegando, me trocando e saindo. Toda semana os cara querem hora e a mais. Tou fora.
- Carai mano, meu dinheiro só dá até amanhã!
- E essa carteira que tá pedindo otra hein? Deixa eu vê isso ae.
- Agora já era. Esse rapá aqui tinha até um baseado escondido, olha! Vixe velho, tinha 20 aqui de manhã gastei 12, sobro só as moeda.
- Daqui seu burro, vem cá, deixa eu contar.
- Oh ali mano - disse olhando pela janela do trem - É ali onde a gente leva as minas. Tem estacionamento, dá pra deixar os carros e as motos.
- Aí sim, é nóis!
As portas do trem se abriram e eles saíram, tão escondidos pela multidão quanto quando entraram.

03 maio 2011

Entre Amigos

De repente Luís soltou a piada:
- Sabe o que é superstição? - Todos entreolharam-se procurando alguém que
soubesse.
- Lá vem... - murmurou o filho mais velho.
- É um preto bem alto e forte, super tição... - E riu sabendo que a piada não
tinha graça alguma. Era apenas uma coisa tola, para descontrair.
- Eu acho esse tipo de piada um absurdo. Mas que preconceito! - Chiou Ana, a gorducha
vizinha que servia salgadinhos fritos na mea.
- Preconceito nada, eu conheço vários crioulos... tudo gente boa, não existe
essa coisa não. Não aqui no Brasil, quem sabe lá fora. Aqui a gente fala mas é tudo só brincadeira.
- Queria ver se fosse sua filha casando com um preto, quero ver o que você ia falar.
- Mas eu nem tenho filha para casar, né moleque? - E deu um tapão nas costas
do filho, quase fezendo-o cuspir o salgadinho que tinha na boca. Depois desatou a
gargalhar. - Além disso, prefiro uma preta bonita do que uma branca feia.
- E se ela engravidar outra vez? - Insistiu Ana apontando Cláudia,
esposa de Luiz. - Nunca se sabe, vai que vem uma menita. 
- Sai fora, outro irmão? Chega né? Já basta esse daí! - E nisso o filho mais
velho levantou-se rápido da cadeira cansado daquela assunto. Foi  para a rua ver os amigos. Enquanto saia não
se esqueceu de dar um tapinha na cabeça do mais novo.

Sem adolescentes por perto, os amigos continuaram a jogar o baralho, cheios de concentração e risadas.

- E aí? Vai jogar ou vai entregar o jogo pro titio aqui? -  Mário olhou Luís de
soslaio...
- Deixa eu ver... ás, dois, três, quatro, cinco, seis sete! Canastra, e com esse
oito que você deixou passar... mil pontos... maravilha! Acho que a casa caiu pra você
Luisão.
- Espera pra ver o que o tio aqui tem na mão. - Blefava confiante.
- E  seu filho mais velho? Já vai pra faculdade?
- Claro, mas é só ano que vem. Por falar nisso, sabe quando preto tem chance
de ir pra faculdade? - Ana bufou, já emendou nervosa.
- Porra Luís, essa é mais velha e pior que a primeira... - Levantou-se, jogou as cartas na mesa e saiu. Com aquilo o clima pesou e ninguém
disse nada.
- Que saco, Ana, eu só estava tentando descontrair... - tentou consertar Luís.
- Você não conhece algum outro tipo de piada não, é? Na boa, se for pra
continuar assim eu vou é para casa.
- Mas era só pra a gente rir um pouco.
- Luís, chega! - Advertiu a esposa.
- Poxa amor, foi só uma brincadeirinha, ela que fica aí se descabelando por
pouco.
- Chega Luis!
- Vocês mulheres se estressam por cada coisa. Isso porque nem estão de TPM - Luiz e Mário riram juntos.
- Ta vendo Cláudinha, ele já mudou o foco. Mulher, preto, qualquer coisa ele discrimina.
- Ai Ana, deixa, não isiste nisso. Você também vai na dele toda hora.
- Não é a toa que casaram. - Resmungou Ana triunfante - Vocês dois são iguaizinhos. Feitos um para o outro. - E Ana riu irônica.
- Se é pra me ofender, a senhora pode sair. - Alterou-se Cláidia.
- Calma amor, não vai brigar por besteira... - Cutucou Luís.
- Porque a gente não volta a jogar? - Sugeriu Mário que ainda estava sentado, com uma canastra de mil pontos
e as cartas na mão.
- Joguem vocês que eu perdi a vontade. - Ana saiu pelo portão enfurecida. Cláudia entrou nervosa na sala para ver TV.
Luís e mário entreolharem-se confusos.
- Quem entende essas mulheres? - Suspirou Luís. Mário pensou por dois seguntos e emendou:
- Acho que o homem que as estendeu morreu de rir e não contou para
ninguém... - Os dois gargalharam sozinhos, recolhendo as cartas para jogar outra
coisa.

27 abril 2011

Voyeur

Quentinho, acaba de sair do forno e por isso talvez tenha erros :)


Passei o dia sentado à piscina, como qualquer pessoas sonha em passar todos os dias de sua vida. Dizem que sou assim, pretencioso, e que o dinheiro que tenho esbanjo com futilidades, porque a vida assim me permite. Apenas trabalho o suficiente para olhar a mim mesmo sob o sol, ouvindo o ruído da ågua até que isso me canse.
Deitado, de olhos fechados, mudo de posição, percebo que detrás do vidro alguém me olha discretamente. A princípio sorrio, o ego massageado, mas aos poucos fico apreensivo, incomodado com aqueles olhos vitrais.
Levanto-me, então.Contudo, ao me aproximar do vidro percebo que não há mais ninguém além de mim, e que tavez aqueles olhos fossem fruto de algum reflexo.
Volto a tormar sol, levemente angustiado, e por toto o instante procuro inquieto pelos olhos obervadores. Qualquer barulho me assusta, e até mesmo a água da piscina já me parece turva.
Aproximo-me novamente da porta de vidro, abro, vasculho o pequeno salão de jogos. Ali dentro não há nada além da minha desconfiança. Respiro aliviado, mas ao voltar meu olhar para a a piscina, vejo uma mulher sentada , justamente na cadeira qu eu ocupava, tomando sol. Ela usa óculos escuros, é visivelmente bonita.
Aproximo-me timidamente, cumprimento-a, mas ela não responde. Eu nunca a vira antes no condomínio, o que me deixa intrigado.  Ela permanece imóvel e vejo apenas que por trás das lentes não tão escuras, ela observa algo. Sento-me ao seu lado, presto atenção em seus movimentos, vejo-a, algumas vezes, passar as mãos pelos braços como se sentisse frio. Ela ainda ajusta os óculos no rosto quando esses lhe paressem desconfortáveis.
Tento, num outro momento, lhe falar qualquer coisa. Ela sorri, mas não responde. Decido, portanto, calar-me de uma vez, deixar-me ao silêncio, ouvindo apenas o vai e vem da água na piscina.
Aos poucos o sol vai-se embora. Está escuro e ambos demonstramos frio, encolhidos e sempre calados. Mas continuamos lá, olhando para frente, e só para frente, como dois desconhecidos observadores que somos. 

20 abril 2011

O enterro de ontem.

Ontem eu fui ao enterro de um amigo, mas não aqueles amigos de verdade, que sabem cada detalhe da sua vida. Era apenas um colega, que passou por minha vida há muito e que por anos eu tinha perdido o contato. Na verdade apenas me deixara umas boas tristes lembranças.
A esposa dele chorava, sem escândalos, quieta e triste. Os olhos já murchos de lágrimas, a cara puxada da noite mal dormida. Ela não me conhece, certamente. Eu mesma apenas havia a visto antes na foto do casamento civil. Um olhar discreto e potente. Lembro-me também que cheguei a encontrar o casal uma vez na praia, mas isso já faz muito tempo, uns vinte anos pelo menos.
Fiquei parada, ainda olhando de longe o caixão. Já não conhecia, nem de vista, quase ninguém. Metade dos amigos já se foram, a outra parte desapareceu.
- A senhora não vai assinar o livro? A família ficaria agradecida. - Sorri agradecendo a cordialidade, mas certamente não alegraria a viúva minha assinatura se depois ela perseguisse os passos do meu nome.
Cheguei a me sentar um instante sozinha, estive amistosa, quase invisível. Perdi-me nos pensamentos, não vi nada nem ninguém ao meu redor passar.
- Você não vai acompanhar? - Era ela, a viúva dos olhos inchados. A voz baixa. - Ele ficaria feliz em saber que veio. - Ainda sorriu devagar, como se minha presença fosse de fato importante. Eu me levantei quieta, inerte diante daquela inexplicável cordialidade.
- Foi você quem encontramos aquela vez na praia, não foi? - Disse como se minha resposta pudesse de alguma maneira confortá-la. Respondi que sim, mas estava tão sem graça, nem sabia quais palavras escolher.
- Ele sempre gostou muito de você. - Ela completou ainda com delicadeza enquanto erguia um pouco os olhos rígidos.
- Ele sempre falou muito em você! - Eu acrescentei quase que imediatamente da forma mais sutil possível, tentando não prolongar aquela conversa. Caminhamos conversando devagar até o caixão. Ela ficou séria à direita. Eu quieta à esquerda.
O cortejo começou a  subir devagar a rua. Pela colina as palavras engasgaram e as lágrimas eu já havia chorado anos atrás. Ela andou serena, quieta, murcha, segurou o choro mas não conteve a lágrima que fugiu devagar. Quando eu me vi também enxugava o canto de meu rosto com a mão.
Quando ele desceu até a terra nenhuma de nós desatou a chorar. Antes que eu fosse embora ela ainda me deu um envelope grande. Sorriu peculiarmente e me ofereceu carona, mas eu já estava de carro. Na saída cheguei a vê-la sozinha recostada numa árvore, mas como passei rápido não pude ter certeza de nada.
E assim aconteceu, ontem eu fui ao enterro de um amigo meu, não um qualquer, que a gente conhece por aí eu não da importância. Descobri que há mais mistérios entre nós. do que pode imaginar nossa vã consciência.

06 abril 2011

Temores


 
A noite fez-se imóvel, assim como a figura estática que mal ouviu os ruídos do lado de fora. Adam levantou apenas uma das sobrancelhas e continuou parado, pensando no que poderia estar passando por sua mente. De repente, sem ruídos, uma voz tiniu pela leve claridade da lâmpada no centro da sala. Foi uma questão de baixar os olhos um instante e tentar procurá-la para que fosse embora. Eu devo estar enlouquecendo, pensou Adam. Só pode ser isso.
Já estava aflito e, sem perceber, pegara o livro que estava próximo a antiga mesa onde ficava o telefone de disco. Abriu na metade, começou a ler parágrafos aleatórios, e seus ouvidos começaram a prestar a atenção nos pequenos ruídos provocados pelo silêncio. Ah! Se fosse cinema, certamente haveria um assassino junto à porta, imaginou apreensivo. Sabia que nada havia, mas começou a controlar a respiração, que ficava mais ofegante cada vez ele tentava torná-la mais amena.
A luz era fraca, uma lâmpada apenas para uma sala toda. Suficiente para a leitura ou para achar algum objeto, mas coadjuvante num momento como aquele. Ele Fechou o livro rápido, como se pressentisse algo. Levantou-se sem produzir barulhos, pegou com cuidado um casaco leve. Procurou pela chave, decidiu sair à rua para dar uma volta, espairecer.
Mas, a chave... onde estaria aquela maldita chave? Procurou em vários lugares. Não achava, merda de luz, pensava, luz, merda, merda...  Cadê a chave? Onde eu pus a chave?
Adam sentiu um medo lhe consumir em seus próprios temores. Abriu rapidamente as pequenas gavetas do móvel da sala. Que inferno, cadê a chave? Tremia, tremia, procurava a maldita por toda a sala. Só poderia ser uma conspiração, estariam tentando algo contra ele.
Anoiteceu e a ausência de barulhos deixou-se com a luminosidade. Ventava para que as janelas batessem, lá fora já ameaçava a suposta chuva. Adam não podia sair, estava preso em sua própria casa.
Ainda mexeu outra vez nos bolsos, mas já desistira de achar a saída. Mas antes mesmo que surtasse achou a maldita chave, escondida num lugar comum, bem à mostra. Sorriu aliviado e levou-a até a porta, que não abria... Não abria, não abria!!!!!! A Porta, a chave, a fechadura... como poderia?
Ele entrou em Pânico, ouvia passos, tinha certeza, ouvia. Havia alguém atrás dele, alguém tinha trocado a fechadura da casa. E os parágrafos soltos que lia pela manhã? Onde estariam? Ele  os deixara em algum lugar, mas onde?
Deixou a chave na porta, que não abriu e passou a procurar pelo livro e de repente viu-se perdido dentro de sua casa. Ouvia passos, ouvia, mas não havia ninguém. Respirava ofegante e aos poucos percebeu que poderia estar louco, só poderia estar louco!
Adam acordou, deitado no chão da sala. O livro ao seu lado, o dia claro. Levantou-se rapidamente. A chave não estava na porta. Nem no chão, nem e lugar algum. Esfregou os olhos aflito, e riu sozinho de toda aquela brincadeira.
Por segurança foi verificar as janelas. Trancadas e com grades. Mas... ele nunca tivera grades em casa. Passeou os olhos pela sala, havia um aparelho qualquer sobre a antiga mesa de telefone.
Adam abriu as cortinas e acendeu a luz para enxergar melhor. Horrorizou-se. As paredes pintadas, o teto cheio de pequenas lâmpadas, e no quintal, visto pela nova janela de vidro... onde estariam suas roseiras? Em desespero sentou-se no chão novamente, gritando por sua liberdade. Seus livros não estavam mais guardados no móvel, que sequer existia. Aquela casa, de quem era aquela casa na qual não havia pessoas, mas que tinha engolido seus objetos?
Ouviu passos novamente, mas sequer se preocupou. Deitou-se no sofá, que não era o seu. Sentia, sem se importar, alguns calafrios pelo seu corpo. Ouviu conversas perdidas, mas nada que ele quisesse prestar a atenção.
Adam apenas deitou-se, perdido no tempo e melancólico por não saber onde estava ou se pertencia aquele lugar. Dormiu sob as luzes, e esperava um dia acordar novamente em seu lugar, em seu rítimo, em sua época.

30 março 2011

Desencontros

Nos encontramos por acaso, naquele café que ambos frequentavamos há anos. Mas fora realmente conicidência, eu mesmo não aparecia por lá há um tempo tão árduo quanto minhas viagens. 
Um expersso cruto, pedi enquanto abria o livro e ajustava os óculos sob meu nariz achatado. Ao meu lado, um suco de manga pediu a moça, quase desacreditada ao perceber que por trás daquela armação redonda havia um conhecido de tanto tempo. 
- Ual! - disse - Só aqui mesmo pra eu te encontrar seu fujão! - Eu sorri desconcertado, mas imediatamente nos alojamos numa mesa e perdi as contas de quantos cafés mais tomei. 
- O que houve com você, sumiu. - Disse ela com aquele brilho habitual no olhar. 
- Viajei mais do que gostaria - Foi a resposta mais imediata que pude dar. 
Os grandes olhos dela sugaram minhas patéticas histórias de viagem, enquanto a conversa seguiu por todos os locais por onde passei.
- E qual deles você gosta mais, afinal? - Perguntou ela sem esperar a resposta certa. 
 - A verdade é que gosto e desgosto igualmente de cada um desses lugares. 
Ela não me olhou surpresa. Conhecia-me a tempo suficiente para não pedir explicações. Fez uma rara pausa em seu falar constante. Seus olhos contornaram o café e quando me encontraram novamente ela começou a falar de si. 
A verdade é aquele acaso e a indiferênça que ela pela primeira vez demonstrara por mim pareciam perdidos em nosso assunto. Afirmou, de repente, que estava tudo bem, e apesar dos problemas, era feliz. `As 16 horas, precisamente, ela pôs um ponto final em nosso assunto,  levantou-se, pagou sua parte da conta e saiu; não antes de pedir meu novo número de telefone. 
- Vê se não some de novo! - Seu beijo fez um pequeno e nostálgico estalinho na minha bochecha - Tchau.
Ela sabia que eu não ligaria, que não faria esforço para vê-la, que não voltaria ao café tão cedo para provocar outro acaso. Talvez seja por isso que eu não a tenha visto por lá durante os dois meses seguintes em que meu expresso curto se repetiu sozinho naquele balcão durante as tardes semanais. 
Eu sabia, ela não ligaria. Esperava ainda que eu fosse a seu encontro, por isso precisamente `as 17 horas e 13 minutos ela me telefonou. Sequer eu pude dizer alô. 
- Nina morreu! Achei que você gostaria de saber. - Ela não desligou nem disse mais nada. Apenas confirmou o local do veleório. 
Há tempos que não a via, Nina, e não pude imaginar que nosso próximo encontro seria tão gélido. 
Encontrei-a no velório. Ela estava lá, rodeada de desconhecidos meus. Veio a meu encontro, não disse nada. Não chorava. Eu apenas tomei-a nos braços. 
- A gente sempre soube que ia ser assim. - disse ele inconformada.
- A doença... há quanto tempo. Não foi melhor assim?
- A gente sempre soube que ia ser assim... - Fingi não compreende-la. Apenas mantive-a em meus braços, mexendo com suas mexas de cabelo. Ela procurou afastar-se um pouco de mim.
- Olha pra mim - disse nervosa - você sabia, não sabia?
- Todos nós sempre soubemos. - Os olhos dela desviaram dos meus e daquela vez ela exigiu respostas.
- Você sempre fingiu, um dia seria assim. - Aquela talvez fosse a maior de suas mentiras. Nunca houve ela, ou Nina, ou a mim.  
Ela sentou-se no chão, cuzou as pernas e chorou como um bebê. Dasta vez ela não aceitria minhas justificativas. 
Eu observei-a, enxuguei sua lágrima com as costas da minha mão. Aproximei-me, beijei sua testa e me afastei.
- Você não se importa, não é? - Ela ainda insistiu.
- Ah Nina minha, não precisa mais mentir. Você também sempre soube que seria assim. 

24 março 2011


Eu gostaria de ter um conto enorme pra essa charge, mas não consegui. Como achei-a genial. Resolvi publicar!

" - Nós só podemos lhe oferecer um trabalho de meio período.
- Quantas horas?
- Quarenta!"

19 março 2011

Semente da dor


- Meus parabéns, já vão fazer três meses. - Ângela olhou apática diante do sorriso agora amarelado da médica. As pernas tremiam, o coração disparado. Esperara dias para abrir aquele exame, amedrontada pelo resultado praticamente certo.
Saiu devagar, caminhou sozinha olhando para o nada, a respiração pela boca. Algumas vezes parava para olhar um espelho, imaginando como estaria sem a roupa justa. Sentou-se em uma praça, bem em frente à igreja, a mão pousada na barriga, o braço flácido e largado. Sentada tirou o maço de cigarros da bolsa, acendeu um e fumou devagar, porém não tragou, ficou brincando tola com a fumaça na boca. Desatou em soluços, afogou-se num mar de lágrimas.
- Está tudo bem minha filha? - A voz era de um sacerdote que procurou assisti-la em sua tristeza.
- Não é justo... - balbuciou apenas - não é...
Ângela caminhava todas as manhãs atordoada, a mente distante do mundo real. Tomava café sem açúcar, fumava quando tinha vontade, chorava sempre, ria sem motivo. 
As primeiras semanas passaram devagar, as seguintes voaram. Aos poucos Ângela passou a comer menos e dormir mais.
- Alô, César? É a Ângela - a voz feminina era natural e baixa, falava devagar.
- O quê? Meu? Mas... - Ele estava nervoso e confuso.
- Eu não vou ter esse filho! - foi dura.
- Ângela, por favor, vamos conversar, pense bem. - Falaram pouco, ela desligou fria depois de dizer o que queria, desde então sumiu.

A barriga cresceu normalmente, Ângela tomava comprimido para enjôo, lia sobre bebes, fumava depois do almoço. Estava cada vez mais fraca, mais quieta, mais apática. Tornou-se fria e dura com todos, mudou de casa, desligou o celular, desligou-se do mundo.
- César, aqui é a Ângela. - Ele mudou o tom de voz e surpreso, não sabia quais palavras escolher.
- E aí? Como você está? - foi apenas o que conseguiu pensar.
- Amanhã César, vai nascer amanhã. - Ele perdeu o tom, o tato, a tonalidade.
- Como assim? Em... em qual hospital? -  Balbuciou. 
- Fique tranquilo... - ela completou amável, enquanto deslizava a mão pela barriga grande. - vai dar tudo certo, você vai ver.
- Ângela, por favor, me fala pelo menos o hospital... - Mas Ângela estava decidida,  somente pôs o telefone no gancho, sequer teve curiosidade de saber o que César ainda tinha para dizer. A conversa lhe causou sono. Deitou-se no sofá e simplesmente adormeceu.
Angêla vomitou, de manhã, e daquela vez foi diferente; mais forte, mais brusco. Teve medo, tomou um comprimido, chegou ao hospital pálida. Sentia contrações, e uma dor estranha e fina que preenchia cada músculo de seu corpo.

César procurou em todas as maternidades, louco de remorso por aquela pequena criancinha.
- É aqui mesmo, senhor. Ela deu entrada já faz algum tempo. - A atendente pediu para que ele aguardasse alguns instantes enquanto ela verificava os detalhes. César compulsivamente destruía o que ainda lhe sobrava das carnes dos dedos.
- Senhor, qual seu grau de parentesco com a criança?
- O pai! Eu sou o pai! - A recepcionista assustou-se com os olhos vidrados  daquele homem, e ofereceu um copo d'água pra que ele se acalmasse. - Fique tranquilo. Assim que nascer viremos avisá-lo - Ela sorriu desconsertada e apontou um acento confortável ao homem.
César sentou-se, bebeu água, caminhou pelos corredores, mas a imagem das mães passando, dos bebês chorando, das enfermeiras...   os dedos todos em carne viva.  

- Queira me acompanhar senhor. - Pediu gentilmente a enfermeira. César balançou a cabeça em resposta e apenas seguiu-a em silêncio pelo corredor. A enfermeira não disse palavra alguma e aquele corredor imenso e branco provocou calafrios em ambos. César suspirou tenso, tomou fôlego.
- O que há com meu filho? - A enfermeira caminhou mais alguns passos, parou numa área mais reservada.
- Ouça-me, seu filho nasceu com sérias deficiências e não há muito o que possamos fazer por ele.  Talvez ele viva apenas mais algumas horas. Eu sinto muito. - César não conseguiu encarar a enfermeira e foi seco.
- Eu quero ver.
Caminharam mais alguns metros pelo corredor pálido até a ala infantil, onde jazia ainda viva criança O bebê era raquítico, tinha o rosto completamente desfigurado, manchas vermelhas nas pernas, as mãozinhas tortas, as pernas deformadas, um pequeno monstro. César olhou para o teto, sentiu dor e um ódio que lhe rasgou por dentro. Sentiu também o coração paterno dilacerar, inerte diante daquele pequeno ser humano.
- E Ângela? - falou baixo.
- Por favor - A enfermeira apontou o caminho, e deixou-os a sós naquele momento difícil. Ângela estava estática na cama, olhava para a parede de costas para a porta.
- Eu falei César, era pra ficar tranquilo. - As palavras congelaram no ar. César  foi na direção dela, levantou-lhe o queixo com o dedos e olhou-a fundo.
- Por que, Ângela? - Ela retornou o olhar fria, puxou o ar devagar.
- Por que, César, por quê? - Ângela ficou em silêncio, deu os ombros para César e retornou olhar à parede branca.
Ele enlouqueceu por segundos, pegou-a no pescoço e apertou até que seus dedos roídos sangrassem. Ângela sentia dor, faltava-lhe o ar, mas esboçou um lábio risonho. César não teve coragem, e suas mão relaxaram. Antes que alguém pudesse aparecer, ela puxou o ar com força, tossindo ofegante e assustada.
Ângela apenas virou-se novamente para a parede, permaneceu calada e seu olhar de perdeu-se mais uma vez, enquanto seu corpo seguia num contínuo movimento pra frente e para trás. César olhou-a ensandecido, chamou-a de louca ao pé do ouvido e deixou o quarto a passos largos, até sumindo pelos corredores.

Ângela, assim que o bebê deu-se morto, saiu de mãos e barriga vazias. Caminhou magra e de vestido largo pelas ruas, seguindo por qualquer direção. Uma das mãos alisou a barriga murcha, e sentido o equilíbrio perder-se, Ângela sentou-se num banco de praça, em frente a igreja. Os braços deixaram-se cair pelo corpo e buscaram na bolsa um cigarro. Ela tragou-o até o filtro mas os soluços não vieram, nem as lágrimas. Ângela jogou a butuca o mais longe que pode, em seguida espalhou os cigarros restantes no chão, brincando atônita com as formas que poderia criar com eles. 
- Está tudo bem minha filha? - Perguntou um sacerdote que passava por perto e pareceu reconhecê-la. Ângela levantou os olhos, encarou-o por alguns instantes. Sorriu e riu e riu, até que lhe doessem os músculos do rosto.
- Não é justo... - respondeu - simplesmente não é.

10 março 2011

Um poema velinho, mas não consegui escrever ou revisar nada nessa semana. É só mesmo para que não ficar vazio por aqui ;)



Dona Morte
26/07/2005

Ri para mim ela
vestida de branco,
a figura magrela
atrás do velho manto.

A face cinzenta e careca.
É irônica e torta,
se diz fina boneca
tão nojenta a menina.

E como pode?
É tão etérea, que porte.
Justo a cinza megera
já conhecida morte.

Quer mais? Veja só
além de tudo é arquétipa,
quer passar por santa.
Dos dentes tenho dó.
É uma figura patética
e inclusive manca.

É louca, chata, emfim,
decerto não teve sorte
Só peço eu, dona morte
Que passe longe de mim.




03 março 2011

Parte de Infância


Pela noite brincavam...
- Deixa eu balançar você! - Gritou a menina
- Você não balança direito! - Ele retrucou nervoso enquanto fugia.
- Eu não vou te machucar, é só você segurar forte. - Resmungava ela batendo o pé.
- Mas eu tenho medo de bater a cabeça... - A voz de Gustavo era chorosa e ele esfregava a cabeça.
- Vai nada... eu não vou deixar. - Silenciaram por alguns segundos.
- Vamos no outro? - Ele já preparava-se para correr
- Vamos nesse! - Ela chiou mandona, enquanto o menino já corria chutando as pedrinhas que voavam para todo o lado.
- Eu vou escorregar então. - Completou ele, correndo e escondendo atrás do brinquedo. Enquanto isso a meninas o perseguia. De repente Gustavo apareceu, jogando um monte de pedrinhas nela.
- Gustavo, não joga pedra! - Ela berrou.
- Jogo sim! - pegou mais um punhado e jogou de novo.
- Manhê!! O Gustavo tá jogando pedra ni mim! - E Gustavo correu malandro para a pequena ponte. A irmã perseguiu-o, o pai olhou feio mas não disse nada.
- Iá! - Gritou Gustavo ofegante enquanto pulava da ponte. Rapidamente já escorregava. Saiu do brinquedo num tropeço rápido, que sequer fez cambalear as pernas. Sua risada alta, simples e infantil, se espalhou pela brisa fria.
- Pára de tacar pedra, Gu, pedra não. - Falou num tom serio, porém calmo, o pai. Gustavo fingiu não dar atenção.
- Oh pai! Paiê! Vem aqui! Vem me subir! - Desconversou. - Paiê! Vem! - Por essas horas a menina já tinha desistido do irmão, tentado achar a mãe e voltava para brincar sozinha no balanço.
Gustavo subiu ágil pelas barras enquanto o pai, de baixo, acompanhava-o.
- Oooolha pai! Daqui dá pra ver tudo! - Apoiado no brinquedo, Gustavo ficou na ponta do pés para ver mais alto.
- Cuidado para não cair! -  O pai pôs os pés nas primeiras barrinhas do brinquedo, próximo a seu filho, sempre com as mãos prontas para amparar uma possível queda.
- Olha pai, vem ver... - E Gustavo se esticava vendo lá longe... os olhos brilhantes.
O pai finalmente subiu e sentou-se junto do menino, compartilhando da mesma vista. Numa conversa fina a voz deles desapareceu devagar e serena pelo friozinho noturno.

                                                        XXX

- Ah mãe, tá cedo... - Resmungou Gustavo cruzando os braços e fechando a cara. - Só mais um pouco. - A mãe concordou, disse que daria mais uma volta no parque e logo depois iriam embora. 
Do brinquedo ainda descia devagar e cuidadoso o pai. Nessa Gustavo já subia pela terceira vez no brinquedo. Agarrava as barras, virava de ponta cabeça, descia outra vez, corria.
- Pára de tacar pedra na sua irmã, oh... eu já falei! - O tom paterno era sempre calmo. - Brinca
de outra coisa.
- Tá, eu paro. - Respondeu baixo e resmungão, enquanto jogava escondido pelas costas outro punhado, com a outra mão.
Gustavo passou por baixo do brinquedo rolando nas pedras, escorregou e subiu mais uma vez...
- Gú -  Falou devagar - Vamos achar a mamãe e a Camila? - Gustavo torceu a cara, sabia muito bem o que aquilo significava, a princípio fez corpo mole. Mesmo assim saltou do brinquedo com velocidade, e correu na frente equilibrando-se nas guias. Enquanto isso o pai sorria, e em sua juventude cansada, tentava acompanha-lo.

23 fevereiro 2011

Uma pequena paródia com as estações do metrô de SP. Claro, não tem como não forçar a barra. Eu me diverti escrevendo, espero que vocês se divirtam lendo.


Ana Rosa


Ana Rosa namorava o Arthur Alvim, conheceram-se ali nos arredores de Santos, junto à Imigrantes, naquela peculiar Parada Inglesa. Isso porque o cara era gringo, dono do maior Campo Limpo Paulista de criquet.
Estar com ele era o Paraíso. Só que Arthur era mulherengo, deu logo em cima da
Armênia. Ana até perdou-o, mas não deixou passar quando ela pegou Arthur com três amigas suas da Vila: a Mariana, a Matilde e a Madalena. A pobre Ana ficou na maior Barra Funda e não havia Brigadeiro ou sorvete que lhe trouxesse Consolação.
Do Alto do Ipiranga Ana se jogou, caindo justamente no braços do belo Pedro, o II que a deixou. Bastou ele conhecer a abastada Penha Bresser e decidiu d imediato mudar-se para Belém, lá no Pará.
Brás, Ana conheceu na praça da Sé, um briguento, muambeiro conhecido do Largo 13 e Carandiru. Ana não foi Pudente, pois na Vila ele era um famoso Tiradentes, conhecido por mandar alguns às Clínicas, ou ao Tietê, dependendo de seu humor.
Ana já estava em desespero, pedindo à Santa Cruz uma ajudinha. Rezou até para o
Sto. Amaro, que ela nem sabia por qual causa olhava.
Num passeio à nascente do Tamanduateí conheceu o Tucuruvi. O cara era índio, da tribo Jabaquara, mas amante do Masp e das estradas do Senador Vergueiro. Mas o Tucu era meio doido e caminhava sozinho pelas ruas com seu boi, um Capão Redondo.
Vendo Ana em desespero, a Dona Conceição tentou ajudar e levou-a em Itaquera, lá no campo do Corinnthians. Ali Ana conheceu o São Bento, rapaz de boa Saúde. Só que o cara também era super esquisito. Pudera, amante da República vestia-se igual ao Marechal Deodoro e saudava a todos “Sacomã, Sacomã!”. Ela ia precisar ser Santana para aturar. Largou-o e conformou-se que arrumar namorado estava mais difícil do que achar um bem cuidado Jardim em São Paulo.
Como a Esperança é a última que morre, Ana Faria qualquer Lima pra se acertar no amor e rezou para tudo o que é Santo: Sta. Cecília, São Joaquim, e claro São Judas, causas impossíveis.
Foi andando a pé pela Praça da Árvore que Ana finalmente conheceu Giovanni
Gronchi. Ele era um Patriarca da família Sumaré. Sua conta bancária? Uma Vila
Mapa Metro SP
das Belezas e a paixão bateu mesmo quando ele chegou com seu Carrão ao lado dela e perguntou: “Ta tu a pé baby?”. Ana derreteru-se toda. Giovanni era a Luz no fim do túnel. Além de tudo, ainda dava a ela a Liberdade que precisava. Ana finalmente se casou, lá na Chákara do Klabin, e desde então eu nunca mais a vi.

16 fevereiro 2011

Catástrofe


Vermelho ou rosa? Fosco? Brilhante? Fuxia e Garota verão? Sinto-me indecisa e levo várias opções de cores para o quarto. Enquanto decido, ligo a TV, afim de quebrar aquele silêncio estranho de estar só em casa. A novela me é indiferente. Em contraste, meus olhos atentos preenchem as unhas, borrando-as o mínimo possivel nos cantos.
"Uma mulher já foi encontrada" ouço de relance falar a TV. "Impossível de prever quando a região serrana voltará a ser a mesma" Meus olhos agora procuram-na, o telejornal é tenso, rechado de notícias das chuvas, uma após a outra. Dou os ombros "Mais uma vez, ganhando em cima da desgraça dos outros, penso ligeiramente irritada.
As notícias prossegeuem. Limpo os catinhos borrados pelo esmalte. Mães chorosas. Base fixadora. Crianças orfãs. Óleo secante. Resgates milagrosos. Ah! Milagre, estão impecáveis.
Sorrio apreciando as unhas pefeitas e por detrás dos dedos, na TV, sorri também a entrevistada que acabou, pessoalmente, de entregar as doacões aos desabrigados. Aos poucos baixo minha mão, afim de ver melhor a tela, e murmuro aflita o fato de não ter der doado sequer um grão de arroz. Repentinamente desmorono em remorso.
Meu deus, penso, aquelas criancas com as quais nunca me importei, vítimas daquela tragédia que não sei bem qual é, afetadas pelo rio que todo ano enche e por aquelas casas desbarrancadas que não deveriam estar ali... Deus meu, que horror, que horror! Meu coracao pesa, corro à dispensa, sentindo-me aflita ao procurar feijão, bolachas, água potável e barrinhas de ceral diet. De uma vez meto a mão no armário e aquele saco de arroz, tão transparente e plástico, raspa em meu indicador direito, estragando a combinacão perfeita de Garota verão e Fuxia. O chão me falta novamente, e atordoada, largo o quer que eu tenha em mãos, afim de achar acetona, palito e algodão.
De volta ao quarto, tento corrigir a catástrofe. Arrumo atenta o esmalte e antes mesmo que o tenha aplicado óleo secante observo mais uma vez a TV. O jornal terminou, e outra novela em cena, um pequeno alívio. Um casal se beija e meu olhar se perde por alguns segundos naquela imagem. Vagarosamente meu coração enche-se de alívio e esperança. Por um instante, penso que o mundo não poderia ser tão cruel para ninguém e que a vida é apenas assim, uma bela trama televisiva. A solucão eu não poderia dar a ninguém, mas ela deveria ser assim simples, tal como é recombinar duas cores distintas numa unha estragada.

07 fevereiro 2011

Palavras Partidas

Já faz muito tempo, é a única coisa de que tenho certeza. Eu era apenas um jornalista enfiado no meio da guerra. Nevava. O frio deixava os cafés cheios, principalmente de estrangeiros assustados com o mundo lá fora.
Eu entrei logo depois dela, as bochechas rosadas do vento gelado. Prontamente ofereci-me para descansar seu casaco e puxar-lhe a cadeira.
- Por que não se senta? - Ela falou num francês suave - Olhei-a num susto de desconcerto. Perguntou-me então se eu falava inglês e sorriu devagar quando percebeu que eu me sentava à mesa dela já dizendo olá. Conversamos escolhendo as palavras, seu sotaque era forte e seu inglês muito mais aguçado que o meu.
- De onde você é? - Ela baixou os olhos azuis enquanto eu deduzia sua ascendência.
- Brasileiro... - Me identifiquei murmurando em alemão antes que ela pudesse responder. Seus olhos subiram num leve alívio. Para minha surpresa ela tateou um português pesado. Disse-me, já mais à vontade, que estivera há pouco no Brasil e enquanto às vezes ela errava alguma conjugação ou artigo eu me fascinava por aquela língua minha que há meses não ouvia.
Tomamos um café gostoso, perdido ora no meu inglês medíocre e ora naquele português distraído, que mesmo sem ter o som de Brasil, tinha um jeito gostoso de pátria.
- Já é tarde, não será perigoso andar sozinha? - Ela agradeceu cordialmente minha preocupação, mas disse que não seria necessária minha companhia, apenas completou antes de sair:
- Em qual hotel a senhor é hospedada? - Combinamos às seis, no restaurante do meu hotel, enquanto eu ria levemente daquele jeito diferente de falar.
 
                                                                             ***

- Uma senhora telefonou. Não deixou nome, mas disse que o senhor tem seu número. - Foi o recado que recebi assim que voltei para o hotel. Corri para o telefone e do outro lado da linha atendeu uma mulher.
- ...Elle est partie. - Foi a última frase. Desliguei o telefone após um agradecimento triste. Ela partira... partira... e eu nem tivera tempo de me despedir. Ainda tentara me avisar, mas... uma pena.  Será que ela sentirá saudades minhas? Será que ela sabe qual sentido esta palavra tem? Será? Senti-me num livro do século XIX, remoendo os sentimentos de algo que nunca ocorrera. Acabei descendo sozinho e melancólico para o restaurante, respirando os ares de um exilado.
Recusei o cardápio e de imediato pedi uma Vodka com limão e açucar enquanto garçon olhava-me confuso.
- Com seu licença, senhor. - a voz sorriu com a seriedade alemã. Olhei-a bobo. - O atraso foi menos do que eu pensava. - Fiquei ainda mais estático quando ela se confundiu um pouco para formar a frase.
- Por favor... - Eu estava tão atrapalhado, demorei para mexer-me e confundi-me inclusive para ser gentil.
- Pensei que tinha partido... - Comentei tentando me justificar.
- Oui, je suis partie en retard au restaurant. - Respondeu ela confusa justificando seu atraso. Eu apenas ri sozinho de meu drama, perdido por não conseguir esquecer o jeito natural de falar nem quando a língua era outra. Sorri desconcertado e mudei rápido de assunto.
Nossa conversa seguiu ainda cuidadosa. Eu tentava pensar em mil elogios para suprir todo aquele mal entendido, entretanto não achava uma boa palavra em inglês ou francês para aquele momento. As que pensei, ora, todas em português e para ela não teriam sentido afetivo algum. Fiquei passeando pela minha cabeça, sem prestar muita atenção em nossa conversa; escutava inerte comentando algo de vez em quando, que nem sempre tinha conexão direta com o que falávamos.
Num leve surto ela pegou em minha mão, chegou mais perto do meu rosto.
- Quando voltar para Brasil entrega esta bilhete neste endereço, por favor. Importante é esta bilhete... - Discretamente ela passou o papel para meus dedos e eu o guardei cuidadosamente no bolso de dentro do paletó, enquanto delicado tentava desviar o assunto. Em função disso acabamos finalizando a conversa bastante tímidos.
Ela despediu-se, brincando com o inglês e francês, mas sem desmontar a face séria que a compunha ou falar um tchau à brasileira. Eu fiquei ainda sozinho bebendo minha vodka, enquanto brincava com a fumaça do cigarro.
- Com licença, senhor. - Pediu em inglês um homem bem vestido que identificou-se prontamente.
- Thomas Darrys, agente. - Aquele homem sabia tudo sobre mim e explicou-me que aquela senhora com a qual eu conversava tratava-se de uma espiã alemã. Pediu-me, educadamente, para que o procurasse caso tivesse qualquer informação a seu respeito. Entregou-me também um papel, o qual guardei cuidadosamente no bolso interno do paletó, enquanto agradecia o alerta.
Subi para o quarto em passos gringos, apático diante daquela louca e doce ousadia em português. Aqueles olhos azuis misturados aos meus sons, mesmo caricaturados pelo sotaque forte, saciavam-me de uma saudade que fiquei engolindo desde que cheguei para trabalhar. Senti falta, inclusive, daquele monte de verbos que eu mesmo nunca soube conjugar.
Passei a noite pensando nas línguas que ouvira, aquele inglês cortês, o francês delicado e o português pesado que tanto me fascinou. Elas embaralharam-se na minha cabeça formando um monte de palavras soltas e sem sentido .
Não tirei os olhos de ambos os papéis e deixei minha mente se perder entre as frases. Verifiquei, mais uma vez, o conteúdo daqueles bilhetes sem pátria e fiteio-os por segundos. Em sua igualdade amassei-os. Fiz uma bolinha tosca que saltou pela janela e mergulhou na neve lá embaixo. Uma pena, pensei por um instante enquanto alisava o queixo. Aquelas palavras iguais não mereciam meu respeito, mas aquele sotaque gostoso... Ah! Que sotaque...

31 janeiro 2011


Expresso Paulista


São pequenas coisas que me despertam: os cheiros, as cores. Vejo este rio sujo sob mim, com o qual cruzo todos os dias. É como olhar a mim mesma, meu reflexo borrado sob as águas fétidas do Tamanduateí. As vezes penso em me jogar, mergulhar de vez, me deixar cair e cair e cair...
A cidade à noite me convida. Tenho vontade de encontrar-te lá embaixo, sob as ruas de onde brotam os demônios escondidos nas ruínas abandonadas.
Vejo os prédios, as pessoas moribundas se arrastando sob ternos ou chinelos afim apenas de viver. Sobreviver por este mundo que não é nosso, cujas nossas horas vivem esmagadas no trem lotado, cujas as almas padecem comprimidas sobre os trilhos. 
Abro os olhos, respiro. Me falta o ar e o pouco que vem ao pulmões cheira a cinzas. Tosse os alvéulos o velho a meu lado, engasga-se a criança.
Comprimo as mãos sob as barras de ferro. Nelas há suor, sangue, fragmentos.
Lá embaixo a cidade convida, prédios abandonados, lodo, bares, portas de madeira podre. 

Dizem que ao sol despertam as cores, mas daqui enxergo apenas o rio, os restos, as carcaças. 
Houve um tempo em que havia alma, hoje sequer enxergo as carniças. 
Abros os olhos outra vez. Respiro e padeço, vendo apenas aquele rio morto, com o qual meu reflexo tosco insiste em cruzar todos os dias.


25 janeiro 2011

A mulher encatadora

- Respeitável Público! - começou dizendo, com sua voz vibrante e rouca. Ajustou a capa, mantendo os olhos fixos na platéia em silêncio.
- Apresento-lhes a mulher mais encantadora do mundo! - O Mágico tranpassou a capa pelo vazio ao seu lado, mas sob o soar dos tambores nada apareceu.
- Nâo deixem que seus olhos os enganem, senhores, pois o encanto está no sentir - disse passando as mãos pelas coxas femininas que ninguém era capaz de enxergar.
- O sentir - continuou - este sim é que mais importa. – Num movimendo solene o mágico abocanhou a coxa, após deslizar mais uma vez os dedos sobre ela. Levantou o rosto vagarosamente em direção a platéia, buscando os olhares desconfiados de todos. Por seus lábios, antes pálidos, agora escorria sangue e devagar ele mastigava um pedaço da carne.
- A mulher encantadora precisa de cicatrizes - disse a voz reverberante – mesmo que ninguém possa enxergá-las - O público arregalou os olhos, mas mostrou-se visivelmente desacreditado do poder daquele homem. Era apenas um truque qualquer, diziam os burburinhos. O Mágico não se deixou abater, e pelas mãos fez sugir uma navalha diante do público agora atento. Aproximou-se do pescoço imaginário, cortando-lhe uma pequena fatia. Escorria sangue pelo ar. A platéia aos poucos delirava ao ver as mãos mágicas manchadas daquele líquido escarlate.
Encantador? Não? - Disse pausadamente encarando cada um que o assistia - Encantador...
Aos poucos as pessoas seguiam o mágico como uma serpente encantada segue a flauta, os olhos atentos em cada gesto dele, por mais sutil que fosse
- Quero ver o rosto encantado - Pediu uma voz da platéia. - Quero vê-la!
O Mágico pausadamente lambeu o sangue das mãos,
- Antes mesmo de vê-la é preciso sentí-la. – Advertiu.
As mãos dele percorriam um caminho pelo ar. Assim, surgiram os primeiros traços leves dos olhos dela . Sua boca, púpura, apareceu em seguida e a pele apresentou-se da cor e tonalidade ideal para qualquer visão.
O Mágico percorreu o palco, rodeou-a fazendo-a surgir vagarosamente.
- Encantadora você é... - susurrou o mágico ao ouvido dela, enquanto conduzia seu corpo e os olhos da platéia ao centro do palco. Os rostos estvam atônitos, incapazes de compreender porque não consguiam desviar o olhar daquela figura tão serena. Aos poucos o Mágico também parecia encantado, deslizando suas mãos incansavelmente pelo rosto dela.
As luzes se apagaram, e apenas um feixe iuminava os dois no palco. Ele abraçou-a por trás carinhosamente. Com a navalha abriu-lhe o peito delicado e tirou-lhe o coração ainda pulsante diante da platéia agora aterrorizada.
- Não há magia alguma. - disse cortando um pedaço do órgão e guardando em sua cartola. – Assim como não há encanto que dure para sempre. – O Mágico fitou novamente a platéia, seu olhar agora era desorientado, porém firme. Devagar, ele retornou à mulher, deslizou as mãos sobre seu corpo quase desacordado, repôs o restante do coração no peito. Com os olhos marejados deu-lhe um beijo na testa, levantou-se e cordialmente reverenciou o público. Ajustou também a cartola e num ensaiado movimento da capa se fez desaparecer.

17 janeiro 2011

Lírios Brancos

                                         
      Não havia sequer mistério capaz de ter olhos tão amenos e rústicos. A face bem tratada deslizava pelos cabelos loiros e tolos. O rosto roxo de frio, os lábios esboçados de sofrimentos, tensos e apáticos, assim como o corpo dotado de embriaguez e terno aberto.
      Trazia flores, lírios brancos derramados pela mão. Mal segurava-os com firmeza, sequer soltava-os com desprezo. Lírios brancos, novos e machucados pelos passos leigos e distorcidos daquele homem que, de repente, sem idéia do que fazia... apenas andava levemente pela madrugada gelada e sem sentido. 
      Flores brancas descansavam pelo chão. Os pés apressados pisoteavam-nas sem percebê-las. De repente elas se perdiam pela manhã de trabalho, pelo domingo de descanso, pela rua. Estavam sozinhas e pálidas, frias e murchas, para depois tornarem-se apáticas e largadas. 
      O rosto não esboçava brigas, os olhos não traziam marcas de choro, nem o peito sintomas de ardor. Mas estava amargo e sem graça. As mãos tênues se constrangiam enquanto caminhava. Olhos espantados fitavam-no com cuidado; analisavam seu terno, passavam longe de sua figura assustadoramente terna.
      Sentou-se na calçada, sem pudor, sem lembranças, sem pensamentos. Apenas largou-se para pensar naquelas imagens insanas que nunca teriam passado por sua mente. De repente a caça e a memória. De repente a frieza e o silêncio tornaram-no insólito na noite serena.
      Lírios brancos, soltos ao seu lado num tênue sentimento. Tentou ainda cheirar outra vez as flores murchas, mas estavam mortas e sem perfume. O terno deitou-se devagar, a cabeça ficou por um instante tentando pensar em algo. Lírios brancos, pensou, e adormeceu no frio, sem dor, sem culpa, sem sentido...

11 janeiro 2011

Primeiro post deste Blog, no qual pretende publicar contos semanalmente. Tentei colocar uma imagem pra acompanhar, mas o firefox não quer deixar, vai sem mesmo.







Segredos


- Que mais além de mim, quebra ou é de vidro?
Nem me lembro quanto tempo faz, mas foi assim que ele me disse em segredo enquanto corríamos pelo gramado. Éramos ainda crianças, e há poucos instantes eu lhe havia dado um chute na canela. Constumávamos jogar sempre futebol, mas não iamos só pelo jogo. Tinhamos amigos, mas desde aquele tempo entre nós já era diferente.
Quando nos olhamos pela primeira vez já quase não éramos mais crianças. Ele esperou que todos saíssem do vestiário e se aproximou.
- Se você encostar em mim, eu te chuto até a morte! - Eu disse.
- Se você enconstar em mim... Ah! Se você enostar... - Ele me sussurrrou à orelha como uma pequeno adulto. Devia ter ouvido aquela cantada barata em algum lugar.
Eu nunca estive pronto, não queria ser chutado até a morte no meio da rua.
- Vergonha de nós, é isso? - Foi assim que prosssegiram-se nossas últimas discussões. Eu era o medo e o receio. Ele a coragem e a o desequilíbrio.
Mas um dia eu me tornei coragem, estufei o peito. Estavamos na casa dele quando fui pego com a cabeça deitada em seu colo; ele me fazia cafuné. Fui puxado pelo braço, arrastado até em casa. Meu pai dirigiu sem palavras, prendeu-me no quarto, cortou meus telefonemas.
- Fui estilhaçado. - Foi a mensagem que chegou dele a mim. Eu era um adolescente amordaçado, mas pulei a janela, corri para a rua. Quem poderia me ouvir? Eu era um adolescente calado, aos poucos sozinho.
- Que faremos agora? - Perguntei a ele medroso. Ele virou-se para mim, beijou-me de leve e contraiu o senho de dor devido aos lábios inchados. Os olhos azuis ofucsdaos pela rouchidão dos hematomas. Ainda assim abraçou-me, protegeu-me e quebrou aquele silêncio vazio.
- Quebra ou é de vidro. Que mais além de nós?