04 julho 2013

Cusparada

Ela cuspiu na minha cara. 
Nunca acontecera comigo antes, por isso não tive palavras. 
- Vadia - respondi pronto para dar-lhe um soco, mas a verdade é que mesmo enfurecido não tive coragem. Talvez porque ela tenha sido tão indiferente, tenha virado as costas e caminhado a passos estúpidos. 
Talvez eu tenha merecido a cuspida e por isso a coragem tenha me faltado no revide. 
Vadia, foi disso que a xinguei antes da cusparada, porque ela me empurrou e disse que não me beijaria nem que eu fosse o último homem do universo. 
Mas, por que, afinal, uma mulher de saia curta e bunda grande recusa um beijo e uma cantada?
Eu, eu devia tê-la pegado de jeito, encostado na parede e mostrado que sou macho. 
Mas ela, vadia, me empurrou com toda a força que teve, cuspiu na minha cara, ajustou o decote a saiu pé ante pé. 
Vadia, pensava enquanto limpava a cara entorpecida. 
Vadia, pensava enquanto me fingia ser mais homem, tentando truculento beijar outras bocas. 

25 junho 2013

Tempo

Preciso de um tempo, mas não sei quanto tempo. 
De um tempo pra refletir sobre porque as pessoas se vão.
Você se vai aos poucos, e não sei se choro, mas choro e não choro. 
Você me olhou, me criou, me abraçou, me sorriu, me mimou. 
Você se vai, vagarozamente rápido. 
E choro, porque dói.
E sinto, porque dói.
E entristeço, porque amo.
Preciso de mais tempo. Mas não sei quanto tempo.
Preciso de um tempo, porque o tempo passa tão depressa que a gente mal vê as pessoas indo. 
Preciso de um tempo a mais, mas não sei de quanto tempo mais preciso.

16 junho 2013

Vera

Ela é assim, se monta, se pinta, se veste. Mas na verdade, sob os cabelos ora loiros ora acobreados existe um sorriso inexistente, uma insegurança eminente, um choro contido. 
E chama-se Vera, e não gosta. Assim como não sabe se a franja lhe cai bem, mas a arruma precisamente ao tirar as fotos da rede social. 
Feliz, o sorriso da internet.
Vera costuma dizer que não consegue, diz também que não se fere. 
Vera tem vontade de trabalhar no emprego dos sonhos mas não vai. Diz não ter dinheiro e não alcançar, mas o tem. 
Vera é assim, na foto é bela e sorri, mas quanto mais se aproxima menos se vê.  Quanto mais sorrisos,  menos verdade, mais angústias. 

13 junho 2013

Entre coxinhas e tarifas

Respeito é pagar o preço justo pelas coisas. Pagamos caro em tudo, pela menor qualidade. 
Eu não me importo em pagar um real por uma coxinha meia boca e ruim no centrão. É barata, vem com pouco frango e muito óleo, mas é um real. 
Justa.
Eu não me importo em pagar 3,50 numa coxinha boa, bem recheada e saborosa. Justa.
Mas me importo em pagar 6,50 numa coxinha pequena só porque é do boteco "da moda". E porque todos os botecos no entorno do boteco da moda decidiram assim fazê-lo. E porque, então, todos resolvem aumentar o preço da coxinha.

Não me importo em pagar 3 reais pra pegar o metrô as 11h, quando vou sentadinha lendo meu livro ou dormindo. 
Mas me importo em pagar 3 reais quando sou saculeja, enfiada e cuspida pra dentro dos vagões (vagões mesmo, não carros). Até a soja viaja mais confortável que eu.
Me importo em pagar mais de quatro reais num ônibus que dá mihões de voltas para cumprir um trajeto e ainda só sai de 40 em 40 min, sempre lotado. 
Mas também não acho justo a passagem mais cara só porque o ônibus e mais confortável (como deveriam ser todos os ônibus) ou porque o metrô é sinônimo de coisa fina, que funciona na Europa e no caraleo-a-cuatro.


A tarifa, é somente mais um desses abusos diários que a gente vive e normalmente aceita. Mudar começa na coxinha, no consumo. Mas mesmo assim não tenho certeza alguma da mudança, dada a maneira como é sempre impossível conversar.

09 junho 2013

Desejo

   Eu gosto do seu abraço dengoso, do beijo lento que me preenche a alma, da tua mão suave que percorre minha nuca. 
Mas gosto, perceba, do meu cabelo puxado, de uma revoltosa agarrada, de sexo bem feito. 
   Difícil, neste mundo de princesas ou bandidas, se equilibrar. Difícil pra você, talvez, ler o gosto do meu desejo, a vontade do meu "pecado".
   Eu gosto do seu beijo lento mas preciso da tua boca ardente, ou me apago. Preciso do seu corpo quente, ou congelo, desfaço.  

30 maio 2013

Família

O que você pretende, me pergunto?
Que tipo de pessoa é você que alimenta a mãe como quem alimenta um cão de guarda, tirando a comida da sacola e jogando num prato sobre a mesa, sem dizer uma palavra sequer? 
Que tipo de pessoa é você que foge desde que me conheço por gente?
Que tipo de pessoa é você que vê a mãe chorando e dá as costas?  
Que tipo de pessoa é você, cujos olhos azuis esboçam um rosto frio, medroso, incapaz de olhar alguém nos olhos?
O que você pretende? A casa é sua, o dinheiro será seu.
Que tipo de pessoa é você, afinal, cuja crueldade sinto a cada passo, assim como a covardia, capaz de atirar, mas somente pelas costas. 

20 maio 2013

Virada Paulista

- Não fui à Virada e Sobrevevi. Já você, os olhos jazem sob um tiro por um celular.
Ela riu-se, desconfortada quando recitei. Não era piada. 
- Foram somente duas mortes para quatro milhões de pessoas.
- Afinal, celular a gente compra outro, o problema é sua alma, que não vale um vintém.

Fácil dizer quanto o tiro não é na tua cabeça. O celular não é seu, a bunda apertada é da outra.

Quando digo que não gosto de São Paulo é por isso. 
Porque não se pode relaxar. E não falo da virada cultural, que não fui esse ano mas adoro. 
Falo porque engarrafo no trânsito de olhos abertos e coração aflito. 
Falo porque não paro no sinal à noite, porque a cidade não para para eu passar.

E a gente se acostuma ao caos. Sobrevive. 
São Paulo é tão incoerente quanto o ricasso que paga caro para morar ao lado do esgoto Pinheiros. 
Tão incoerente quanto o favelado que joga esgoto no rio podre que corre à sua porta.
Tão incoerente quanto eu que não sei nem por onde começar por isso não faço nada. 

- Não fui à Virada e Sobrevevi!
Que frase patética! 
Já você finge que não é contigo quando alguém vai por um tiro por um celular.  

05 maio 2013

Belgrado

Eu olho as fotos de Belgrado na Internet pelo Google. Tentando encontrar nesta cidade algo que me pertence. Não há o que procurar. 

Em Belgrado, ou em Versaac, lá não soubrou ninguém. Nenhum sopro de vida
Minha tia, sem pesar as palavras disse que a guerra esfacela as famílias. Palavras de quem viu a sua própria se esfacelar.

Eu vejo as fotos de Belgrado no Google, uma a uma. 
Não sei o que dizer sobre a Sérvia, o que pensar sobre este país que a dezessete horas do Brasil. 

Me encheram de lágrimas os olhos ver minha tia chorar enquanto contava como seus pais fugiram das fazendas de café sob a mira de espingardas. Passaram a juventude fugindo. 
Quanta tristeza, ela disse medindo as palavras e engolindo o choro.

Olho as fotos de Belgrado pelo Google. O Danúbio não me parece azul. 
E quantos serão os corpos que jazem no fundo deste rio?

Eu choro, ao lembrar de uma história que não me pertence mas também é minha. 

Sabe, Belgrado me parece uma bela cidade e fica somente a 17 horas daqui. 

29 abril 2013

O peso do tempo

- O que o tempo faz com a gente? Me diz? - Ana Clara fitou os olhos negros e afundados do marido. 
- O tempo nos descama e nos isola - Ele respondeu desviando o olhar. 
Ficaram em silêncio por alguns instantes, ouvindo o murmúrio da televisão e olhando os organizados bibelôs e fotos acumuladas pelo tempo. Suspiraram juntos. 
- Quem será que vai primeiro? - Disse Ana Clara sem angústia.
- O que você prefere? - Ela não respondeu e continuou falando sozinha. 
- Sabe Armando, eu tenho medo de ficar só. Os nossos amigos de foram, dos velhos do bairro só sobrou a gente, e aprender tem ficado tão difícil... 
Armando refletiu alguns instantes, suspirou, ajustou os óculos no nariz largo, tomou impulso e levantou-se da poltrona. Num gesto lento aproximou-se da esposa, tocou com leveza seus alvos e ralos cabelos. 
- Sabe Aninha, como você fala mais, vai você primeiro então. Deixa que a solidão enfrento eu. Afinal, sem você eu devo durar um ou dois anos. Depois, o tempo passa tão rápido, logo a gente se reencontra. 
Ana desabrochou um sorriso e procurou o olhar do marido, desconcertada com a doce piada. Afinal, há quanto se conheciam? E Quem mais além do tempo seria capaz de fazer isso com a gente, me diz?

22 abril 2013

Pequenos Machismos

Assim como quase todas (os) nós sou cheia dos pequenos machismos (que ficam pra outro post) mas fico CHOCADA com os comentários de algumas reportagens que leio na internet. 
E vou citar um exemplo abaixo, sem muitas análises, apenas porque preciso compartilhar esta opinião.

E por isso pego como exemplo um caso bem atual. Vou falar da Suzana Vieira (70) e seu novo casamento com o Sandro Pedroso (29). 
Todo mundo sabe que a Suzana é idosa (pois é a partir dos 60 é idoso) e Sandrinho é um galã gostosão. Abaixo seguem dois comentários que extraí da notícia sobre o casamento deles. 


João da Silva: "ESSA IMBECIL merece mesmo pegar esses idiotas loucos para aprecer e arrumar uma boquinha na Globo....ela não aprendeu com aquele drogado que ela susentou por um tempo. Ela é idiota, ridícula e arrogante. ATRASADA É ELA COM A ARROGÃNCIA QUE LHE TOMA TODA A VIDA. Esse retardado que aceitou essa palhaçada não é macho....É CAPACHO !!!! 
APOSENTA COROA, VOCÊ JÁ ENCHEU O SACO POR MUITO TEMPO !!!"



Joana da Silva: "Essa SENHORA é a pessoa mais ridícula que eu já vi na minha vida... tem gente que ADORA fazer papel de IDIOTA... não só nas novelas mas também na vida real. ACORDA VÉÉÉÉIAAAA!!! SE ENXERGA!!!"


Agora vamos analisar os comentários de outro caso menos recente. O casamento entre nosso Vice-presidente da República, Michel Temer (72) e a modelo e vice primeira dama Marcela Temer (32). Atentemos para a diferença etária bastante semelhante a da Atriz global e seu companheiro. Acompanhemos os cometários da notícia:

João da Silva filho: "Minha dúvida Marcela, é: Se o Michel Temer, fosse aposentado do INSS ,ganhando um salário mínimo, voc teria casado com esse ancião? ou voce casou com a conta bancária dele? minha pergunta já foi respondida na última frase.!! HO,! CIOTADO.!!!! 


João da Silva neto:"Imaginem também...
Se o Ronaldinho fenômeno, o gaúcho, o Romário, o Pelé, e etc. etc. etc... Fossem serventes de pedreiro ou trabalhassem como borracheiros."


O que me choca é que ambos os casos parecem iguais: o mais novo está interessado no dinheiro/status que o mais velho pode lhe oferecer. Por sua vez o mais velho está interessado na beleza e juventude do mais novo.
Se  há ou não amor ou ele virá, não me cabe julgar. Mas, tirando-os como exemplo de muitos, pressupõe-se que é uma relação por interesse.
Então, porque nos dois casos a "vagabunda que não se dá ao respeito" é a mulher. Ainda que o cidadão do primeiro comentário deu uma chingadinha no Sandro, mas sobrou mesmo foi pra Suzana.... 
De verdade não entendo. Ora, pra mim me parece uma troca. Cada um ganha de um lado. Se é certo ou errado, isso é critério, é pessoal.Cada um com seus valores, e que sejam felizes.

09 abril 2013

Juliana

Juliana tirou a blusa e tocou levemente os próprios seios. Achou-os, murchos e sem graça. Pegou o celular e começou a tirar fotos de si mesma de fronte ao espelho, afim de encontrar um ângulo que lhe agradasse. Mas percebeu que não havia retrato cuja pele se mostrasse  lisa o suficiente.  
Prendeu uma flor nos cabelos crespos, mas ela não deslisou, não ornou, não lhe caiu bem. 
Afinal, porque nascera com os seios pequenos, o cabelo crespo, a voz tão aguda que lhe desagradava? 
Juliana, cujos olhos amendoados nunca saíam bem nas fotos, cuja boca rubra sempre permanecia apagada, cujos cabelos crespos, lisos, claros ou escuros nunca lhe seriam suficientes.  

01 abril 2013

Os Imigrantes II

Meu bisavó, conta minha avó, viu seu pai pela última vez no trem, balançando um lenço branco de adeus. Cada um tomara o trem para um lado, afim de lutarem numa guerra tão sangrenta que em seus nove milhões de mortos, levou um deles. 
Pedro, ou Peter, sobreviveu e desde aquelas lutas nas quais o sangue formava poças tão grandes que afundavam os pés, nunca recuperou a paz de espírito.
Ainda jovem tinha os ossos do rosto tão salientes que lhe encaveiravam a face. A guerra lhe deixara também os olhos vidrados, a garganta doente. Contudo, não lhe usurpara a beleza ou o dom de tocar sanfona.
Pedro tinha também uma tatuagem, mas a memória ou os traumas de minha avó não lhe permitem dizer o que havia nela. 

Eu, obviamente, não o conheci, mas sempre ouço que em sua casa os filmes de guerra eram proibidos assim como as palavras ofensivas, as armas, o desrespeito. 
De suas mãos desarmadas fazia-se o pão mais saboroso da Mooca, que vinha embalado em jornal até a mesa dos filhos em São Caetano.  
Na casa simples, de terreno largo, pomar e flores enterrou os anos de luta, a fuga e o sangue que ainda hoje escorre sob os tapetes das embaixadas. 
A Iugoslávia sempre fora o passado árduo, a saudade eterna. O Brasil fora sempre o exílio, a pátria, parte do trauma. Mas, afinal, que importava se não podia falar sua língua? Que importava se seria sempre o estrangeiro? Que importava o que ficou para trás.
Pedro era um homem forte e para ele importava apenas contar seus filhos vivos, proíbi-los de louvar a guerra e de serem fracos. Pedro era, era sim, um homem duro, cujo rosto fragilizou-se apenas quando deixou a vida, certo de que seus filhos nunca tinham visto um tiro sequer ser disparado sobre suas cabeças. 

13 março 2013

Se

quiser me falar, fale. Se quiser me olhar, olhe. Se quiser me sentir, tente.
Mas desta vez não espere de mim o primeiro passo, a primeira mensagem, o primeiro olhar. Afinal, cansei de chegar na frente, de dizer mentiras, de teatrar.
Se tem saudades, ligue. Se tem vontades, corra. Se tem palavras... diga.
Pois agora, fatigada e desaflita, apenas lavo o rosto a fim de tê-lo nu, deixando a quem quiser que me grite. 

02 março 2013

Turistar

Semana passada fui passear por São Paulo com uns franceses que conheci no aeroporto. Eles tinham acabado de vir do Rio de Janeiro e estavam super empolgados com a beleza das praias e da cidade. Comentei que eu, brasileira desde sempre, nunca fora ao Rio para passear, somente a trabalho, portanto nunca tinha ido ao Pão de Açucar.
A partir daí, e pelo desenrolar do assunto, me dei conta do que eu já sabia; que a última vez que entrei na catedral da Sé faz séculos, que minha última ida ao Masp foi pra ver uma exposição internacional, que não me lembrava mais da última visita ao museu do Ipiranga... Que desgosto, pensei por um instante amargurando minha não brasilidade. 
Afinal, isso é coisa de brasileiro, que não valoriza sua cultura. Afinal, eu também não conheço Amazônia e Pantanal.
Mas para minha (não) surpresa ouvi numa resposta bem humorada. "Eu nunca subi na Torre Eiffel, e minha última ida ao Louvre foi com a escola. Entrei na Notre Dame uma vez somente e foi porque um amigo foi me visitar em Paris. 
Esta resposta, tão óbvia, bem humorada e sincera me tranquilizou. Me fez relembrar que quando eu morava em Florianópolis ia principalmente aos lugares turísticos, quando meus amigos apareciam por lá. 
Por isso, sorrindo e tomando uma brasileira caipirinha no vão livre do Masp os franceses e eu chegamos a óbvia conclusão:  que na verdade a gente acaba sempre turistando por todas as cidades possívies, menos na nossa. 

24 fevereiro 2013

Algumas verdades


Amigo, você é um escroto que precisa de amigos, com o advento de ser gordo. 
Por isso, que fique claro, eu não me importo com seus problemas. Na verdade eu tenho problemas o suficiente para ficar encantada com os seus. Ah, se você lê três mil livros por ano e é PHD em física? Não ne importa também, pra mim você ainda é um gordo chato que fica me cantando pelo Facebook. 
Não, não tenho nada contra gordos, se você fosse magrelo e ao invés de PHD em física fosse PHD em cinema eu também não te beijaria nem que você ganhasse na Megasena. Sob essa última circunstância eu apenas assinaria um contrato de casamento sob união universal de bens na qual contato físico seria proibido. 
Sim, devo dizer que se você fosse bem chato mas fosse lindo talvez eu ficasse contigo por uma noite e postaria uma foto nossa no Facebook para aumentar minha própria auto-estima em relação à minha capacidade de ficar com caras lindos. O que não significaria que eu seria sua namorada. Afinal, aguento as besteiras que você diz por uma noite, mais que isso está fora das minhas possibilidades. 
Não se iluda, se eu recusei a sua cerveja, o seu café, a sua ida ao parque para ver os passarinhos é sinal que não vou sair contigo. Talvez eu aceite um convite seu para o Fazano, mais saiba que você pagará a conta e nunca mais sairei com você. E sim, eu terei a cara de pau de não lhe dar um beijo de boa noite e dizer que o problema é comigo, que estou insegura e que preciso de um tempo pra pensar.

18 fevereiro 2013

O futuro de verdade

O tempo, o sorriso, as fotografias, as mudanças. Quanto se guarda, se aprende, se vive, se relembra. 
Devo dizer que foi um bom tempo, uma bela aventura, um grande recomeço. 
Posso dizer que sinto mais viva, mais terna, mais confiante, mais astuta. Astuta a ponto de me fazer procurar aquilo que acredito ser melhor, a ponto de pensar que só é possível se mudar mudando. 
Penso que daqui para diante será futuro. Mais futuro que foi meu passado. 
É preciso mudar, mudar mesmo, é preciso olhar para frente e enxergar que pode ser diferente.
Não adianta simplesmente sonhar sem levantar os pés da cama em busca do amanhã. Afinal, há futuro para todos, basta acreditar que o futuro é possível. 

20 janeiro 2013

O tempo, as escolhas e os caminhos

Angélica abriu os olhos azuis e encontrou um fio de luz que entrava pela vaneziana do quarto. Era um domingo e ela não se lembrava quando fora a última vez que acordara sem o despertador. Talvez por isso tenha ficado algum tempo contemplando aquele feixe bobo de luz que escapava para o teto. 
Há quanto tempo não encontrava um tempo para si? Há quanto tempo não lia um livro sem pressa? Há quanto tempo não fazia nada pelo prazer da preguiça?
Angélica levantou-se, jogou água pelo rosto, sentiu os pés no piso gelado de cerâmica, olhou o celular. Viu que não havia mensagens e percebeu para aquele domingo não tinha nem trabalho, nem festas, nem churrascos. Era um domingo dominical, apenas.  
Angélica sorriu, optou por não ligar a TV, por reservar-se e tomar café sem interferências; afinal, há quanto tempo não ouvia o silêncio? Há quanto tempo não parava? Há quanto tempo não fazia escolhas? Afinal, por quanto tempo mais viveria na inércia?

31 dezembro 2012

Reflexões de Final de Ano

Devo dizer que este ano amei com intensidade muito aquilo que se perdeu. 
Devo dizer, também, que conquistei pequenas coisas que me tornaram melhor, mas perdi coisas mínimas que me esvaziaram. 
Pela primeira vez olhei nos olhos de uma pessoa mau caráter e senti medo de me tornar igual.
Este ano chorei, chorei porque alguém de quem gostava se foi pela morte.
Chorei por bons motivos também,  porque alguém de quem gosto se foi para tentar outra sorte.  
Me descobri como mulher de outras maneiras. Me culpei por ser bonita. Me escondi com vergonha de mim mesma. Me revirei para entender onde eu estava me metendo. Mas mudei, mudei e me percebi mais livre, nem por isso menos angustiada, menos duvidosa, mas certamente mais segura. 
Resolvi que me deixaria chorar quando fosse preciso, e chorei. Chorei porque deixei de acreditar que o choro é fraqueza, chorei porque me fizeram chorar, chorei porque me prometi ser diferente, chorei porque... 
Aprendi que não se pode viver só, mesmo que a solidão conforte.  
E de repente, quando tudo parecia caminhar diferente, vi que na verdade repeti erros mas também tateei acertos. 

Difícil....

Difícil  fazer um balanço de um ano tão intenso, com tantas mudanças, caminhos, pessoas, conflitos.
Este foi um ano de desistências, de jogar a toalha, de errar, de pequenos grandes acertos, mas sobretudo um ano de mudanças. 
Deve dizer que neste ano fui mais feliz que ano passado, embora este tenha sido mais dolorido.
Devo dizer que ainda sou uma pessoa tola, dessas que tecem  esperanças sobre o vazio e costumam sorrir dos problemas. 
Mas em 2013 quero enfrentar o que não tive coragem e construir fios mais sólidos. Quero poder realizar o que tive medo. 
Não parece, eu sei, mas estou otimista. 


Até lá, sorte pra nós...

24 dezembro 2012

Um Feliz Natal, até mesmo para você que não merece

- Foda-se o Natal - dizia o velho bêbado pela rua do comércio lotada de pés apressados.  Foda-se você também, sua velha avarenta que gasta 500 paus num perfume e não cospe um centavo pra mim. Ta olhando o que? Você mesmo, filho da puta, partiu um coração apaixonado sem olhar pra trás. Você mesma, vadia que fez uma fofoca, que pisou no calo por querer.
O bêbado estava em cima de um banco, vomitando palavras como esses pastores de mentira que gostam mais de dinheiro do que de deus. 
- Jesus? Farsa! Não existe! Natal, meu não amigo, Natal é o Solstício, festa que os cristão herdaram dos pagãos, que herdaram de algum outro povo qualquer. Natal? Natal é quando você se empanturra da crueldade de matar um animal ou dois que deixam seu sangue à mesa enquanto você tem fartura. Natal é falsidade, fingir que todos se amam se odiando. Natal é pretesto para avaliar a qualidade da herança que a velha mãe doente vai deixar. 
Uma pequena multidão juntou-se para ouvir o bêbado, fosse para condená-lo ou apoiá-lo. 
- Natal é comércio. E porque vocês me olham assim? Assustados? Nunca ninguém lhes disse? Natal é inocência somente quando ainda é tempo de abrir-se um pacote de brinquedo. -A multidão olhava estupefata, tentando convencer-se do contrário em argumentos prontos. 
- Vejam vocês, seus falastrões, que não acreditam em si mesmos e tentam encontrar argumentos para me condenar. E se não os encontram, eu sei porque. - Houve um pequeno silêncio, mas o homem continuou - Por quê? É simples... Porque fodam-se os que se odeiam, fodam-se simplesmente. Quem precisa aturar quem nos odeia? Foda-se se foi Jesus, se é o dia mais longo ou curto do ano, se é só comilança, se é a fartura. Que importa? Ou importa. Deixem de ser bobos, seus tolos, deixem. Deixem que ostentem, que finjam. Afinal, quem aqui não foi tão mau menino quanto eu, tão solitário quanto eu, tão egosísta quanto eu. Quem?
O bêbado atirou a garrafa, que espatifou-se e pelo cheiro de nada revelou-se ser de água.
- Me digam? Quem importa? - Num truque com as pernas o homem deu uma volta sobre si mesmo e endireitou a postura, reverenciou as pessoas e com um sorriso maldoso completou o show.
- Foda-se o que pensam do Natal, afinal, quem precisa de motivos para tentar ser melhor? Quem precisa de religião para amar ao próximo? A quem cabe julgar o bem e o mau? A quem?  Por isso, respeitável público, agradeço, reverencio e apenas desejo um Feliz "Feliz Natal", até mesmo para você que não merece. 

18 dezembro 2012

Elefante em Camadas



Ainda não sei exatamente como descrever este filme, que trata a crueldade com tato e sutileza. O choque, a discussão, tudo é colocado de maneira cuidadosa, mesmo que em alguns momentos o filme acabe caindo em certo clichés maniqueístas, como por exemplo a exploração do nazismo.
Contudo, nas maior parte do tempo o filme não procura culpados ou propõe soluções. Elefante aponta sintomas, dá pistas de que há algo de errado/estranho naquele colégio. O filme passeia pelas situações cotidianas,  momentos casuis e tenta mirar em qual poderia ter sido o disparador daquela situação.
Penso que haveria muitas vertentes pelas quais seguir para analisar essa obra mas proponho  um atentamento ao cuidado com o desenho sonoro, aos sons do colégio, às frases pequenas e pontuais que intensificam a densidade do filme, à trilha musical.
Mas antes disso é preciso pensar que Elefante é um filme de camadas. O primeiro sinal delas está nos intertítulos em telas pretas, com os nomes do(s) personagen(s) que a câmera e o som vão acompanhar naquele momento da narrativa.
Assim como faz a câmera, que passeia pela vida dos personagens um de cada vez decompondo o espaço temporal, o som também é construído através de sobreposições. Afinal, o filme trata de um espaço temporal comum, pois quase todos os acontecimentos com os diversos personagens ocorrem no mesmo momento do dia. Sabemos de sua simultaniedade porque vemos e ouvimos as mesmas ações muitas vezes em difererentes pontos de vista. Exageradamente, e para que não esqueçamos disso em nehum momento, o diretor inclusive opta inclusive pela câmera lenta, afim de chamar a atenção do espectador para determinado evento.

“Eli encontra Jonh no corredor e pede para que amigo pose para um foto. Toca o sinal. Ao fundo passa correndo Michelle, a nerd, que está atrasada para sua monitoria na biblioteca.” Essa cena é repetida três vezes de ângulos diferentes em diferentes partes do filme. Cada ângulo parte do ponto de vista de um personagem. A câmera, seja pelo enquadramento ou pelo foco, priveilegia determinados personagens e ações. Da mesma forma o som acompanhrá princialmente a fala dos meninos nas duas primeiras vezes que a cena surge e depois estará mais preocupado com os passos e a respiração de Michelle. 
    Outro exemplo de simultaniedade de ação em cenas distintas, esse mais enfatizado pela sonoridade, é a primeira sequência do filme. Jonh acabou de chegar atrasado ao colégio e foi para a sala do diretor. Nathan saiu do jogo de futebol americano, caminhou em direção ao prédio  do colégio, encontrou, Carrie - sua namorada - no corredor e dirigiu-se com ela até a secretaria. Enquanto Nathan E Carrie pedem aotorização para sair ouvimos um diálogo bem baixinho a respeito de uma foto, e uma viagem ao Hawai. Diálogo sem importância, já que os personagens focalizados estão pedindo autorização para sair do colégio. Quando Jonh sai da sala da direção e passa pela secretaria, pede para deixar as chaves do carro para seu irmão. Ele pergunta à secretária sobre a foto. Ela diz que foi tirada em sua viagem ao Hawai. Desta vez é  o diálogo entre o casal e a outra secretária que está no segundo plano sonoro.
O diretor utiliza-se desta alternativa durante todo o filme: o volume dos diálogos tem nuances claras, acompanhados pelo movimento e escolha da câmera. Subidas e descidas de áudio colocam-nos em contato com as histórias mais banais. Ao mesmo tempo passam por cima do universo íntimo de cada um dos personagens apresentados, daquilo que é ou não importante para cada um deles. As vozes, que nos dias comuns se misturam, são ouvidas uma a um numa tentativ de demembrar o colégio e e achar o que pode ter engatilhado o massacre.
É num desses passeios feitos pela câmera que Alex, autor do massacre, adiantará à sua colega que tem um plano. Ele não o revela, apenas diz naturalmente "Você verá", enquanto serve-se do almoço. A refeição naquele colégio é natural de todos os dias, da mesma forma como é natural que estudantes cheguem atrasados, peçam para sair mais cedo, revelem fotos no laboratório, frequentem a biblioteca, sejam vítimas de bulling durante a aula ou vomitem no banheiro após almoçar duas folhas de alface. Frases potuais como a de Alex, os barulhos típicos do colégio - como o sinal -  o som do engatilhar da arme frente a Nerd na biblioteca. Contrastes audíveis que colocam em xeque o que faz ou não parte desse mundo chamado de normal.
    Alex é um personagem frio, aparentemente inerte ao mundo do colégio, pianista. Sonata Luz da Lua é a música da primeira sequência do colégio, onde todos os personagens que morrem no massacre aparecem. A melancolia da melodia aponta para a vida tão cotidiana da escola como se fluísse rumo a sua decadência e enxergasse os pequenos conflitos e vazios retratados pelos alunos através dos diálogos aos poucos apresentados. A sonata de Beethoven transita pelas camadas de imagens e sobre o vazio existente em cada um desses adolescentes. O trecho dela que foi esclhido para o filme é repetitivo, assim como é a rotina. Ciclo esse que será quebrado apenas por Alex e seu amigo Eric, também responsável pelo massacre. Contudo, enquanto para Eric o massacre é apenas diversão, para Alex soa algo além. Alex aparece visivelmente deslocado, e a rotina do colégio para ele parece insuportável. Seja na cena de bulling em sala de aula ou pelo momento em que está na praça de alimentação pegando seu almoço.
  Após a rápida troca de palavras com a colega no refeitório, Alex fixa os olhos num ponto. O Barulho das vozes na praça de alimentação se intensifica, aumentando em volume. Os olhos de Alex parados juntamente com o som cada vez mais alto dão nos a sensação de perturbação sentida pelo personagem.  Para Alex a única ligação possível com o colégio está na melancolia, no piano, em Bethoween.
    Alex é pianista, o compositor do massacre. Quando está sóziinho em seu quarto toca primeiro Für Elise, música de melodia simples, mas cheia de nuances de altos e baixos e de camadas que se sobrepõe rapidamente. Aos poucos Alex muda a música que toca. Enquanto isso a câmera percorre seu quarto. A música e os objetos pessoais jogados no quarto de Alex dizem muito mais a respeito dele d oque a abordagem feita no colégio.
  Finalmente as mãos de Alex ao piano chegam em Sonata Luz da Lua, música do cotidiano do colégio. Ele não consegue tocá-la. Erra algumas notas, se irrita com o instrumento e consigo mesmo, desistindo com um gesto obsceno para o piano. Alex é incapaz de acessar o cotidiano melancólico como seus colegas, pois aquele mundo não lhe pertence. Se Sonata Luz da Lua não é possível, ele iniciará sua própria composição. Apesar da ajuda do amigo é Alex que pensa em tudo, que rege o plano, compõe as coordenadas, dá as ordens. O massacre é uma sinfonia, seua sinfonia. Tem expectativa, (a entrada dos dois atiradores vestidoscom roupas militares no colégio), momentos mais agitados, (na primeira parte Alex e Eric saem atirando por todos os lados) calmaria (quando ambos param no refeitório para apreciar o que fizeram), e até mesmo de surpresa, já que Alex mata o amigo que o ajudou com o ataque. Matar Eric e concluir o massacre sozinho é consolidar-se como alguém dentro daquele colégio. Alex deixa de ser apenas parte do cotidiano para se tornar o acontecimento. Grava seu nome no espaço e pode assinar sozinho a autoria de sua obra prima. 




Uma crítica escrita há muito tempo...