26 junho 2012

Aceito Passe


A velha calça preta jeans desbotada, os olhos semi fechados desprotegidos e
com medo do sol, a camisa verde listrada, manchada e amarelada.
Vendia balas de goma, que passavam rapidamente pelos olhares apressados. Faziam sinal negativo com a cabeça, mediam-no de cima a baixo. As pessoas passavam sem o ver, desconexas com aquele mundo tão distante de si mesmas. Ele era invisível, sequer olhavam para o lado.
O sorriso vazio manchado de amarelo. Aceito passe, pedia, retrucava, mas padeciam educados e negativos os rostos comuns. Aceito passe, repetia triste enquanto ia aos poucos perdendo dentro de si o resto de sua vida. A barba já escondia-lhe o rosto enquanto sua imagem tornava-se apenas reflexo.
Não era malandragem, era súplica. Nem por isso mudavam as reações; as cabeças continuavam a balançar, as vozes continuavam a deixá-lo mais impotente.
Aquilo homem não era digno para aquelas pessoas, nem para o mundo delas. E quando me lembro disso tudo, lembro-me como um borrão em minha memória. Mas a figura caída e invisível daquele homem não passou despercebida por mim. Sua camisa era verde, cor tola da esperança. Cor do  contraste com a avareza branca, preta, oriental ou indígena que lhe sorria amarelo.
Era mais que uma venda, era um gemido angustiado, tão baixo, tão apático, morto, fétido em seu mal gosto. Por isso olhei-o ainda mais uma vez, numa fria análise sobre sua figura. Malditos
avarentos, por um instante pensei. Mas antes que aquele homem suplicasse a mim subi rapidamente no ônibus, sem comprar uma bala sequer.

16 junho 2012

Rastros

Quando eu acordei naquela manhã e não vi seu bilhete sobre a mesa, pensei o que estava errado. Talvez você tivesse saído mais cedo e se esquecido, talvez estivesse trabalhando demais, talvez não tivesse lido minha mensagem. 
Bobagem, pensei enquanto colocava o café na xícara, uma bobagem pensar nisso. Amanhã com certeza a gente se encontra e se resolve. 
Cheguei em casa tarde, tudo apagado, um silêncio tão mórbido que fazia meus passos ecoarem no laminado de madeira. Acendi a luz e minha xícara de café ainda estava no mesmo lugar que deixei, assim como as almofadas da sala, a toalha no chão do banheiro, o edredon. Sobre a mesa não havia bilhete, mensagem, sinal. 
Num gesto automático liguei a tevê, e pensativa tirei o celular da bolsa. Valeria a pena ligar, saber onde você estava, por que se fora? Fiquei o tempo que precisei olhando o celular e digitando possíveis mensagens que nunca enviei, até adormecer no sofá. Eu não sonhei, e acordei de manhã assustada com o despertador. Não tinha tomado banho e minhas costas doiam da noite mal dormida. Novamente procurei, mas não vi rastro seu
Estranho pensar que nos dávamos bem, que nossas conversas eram constantes, que você me sorria. Foi tão de repente que perdi o chão e não encontrei. Por isso, com ou sem sinal seu eu apenas me levanto, tomo banho e saio, pensando que nada disso vale a pena e que em algum momento fui tola o suficiente para imaginar que você seria especial. Levanto, erguo os olhos e olho para frente, somente para frente, mas ainda procurando insensata por um rastro ou bilhete qualquer sobre a mesa.  

31 maio 2012

A ELEIÇÃO


Já que não posso escrever, vai um reciclagem escrita por mim aos 8 anos. O texto foi copiado na íntegra, inclusive com os erros.


Era uma vez uma cidade chamada Pontaçam .
Essa cidade se chamava assim, porque quem vivia la eram esses símbulos: o . [ponto] final, o ponto de !, [excalmação] e etc.
Um dia a virgula resolveu:
 - Vamos fazer o seguinte: já que todos queremos ser os melhores vamos chamar as crianças. Antes que terminasse a fala o ponto final disse:
 - Para que crianças?
 - Simples, para o auditório e tambem para decidirem quem é o (a) melhor. todos aplaudiram a vírgula.
No dia a vírgula estava preparada para ganhar quando disse:
  -Ba! ninguém me vemsse [vence] nésta todos vam [vão] votar em mim . A virgula preparou um texto e foi a o palco.
Quando estava tudo pronto foi chamado ponto a ponto.
A decisão era difícil para as crianças, mas os pontos era fácil, só votavam em si. Você sabe porque, claro todos queriam ganhar. Se fosse você tanbem quereria ganhar não é? Mas a opinião das criaças foi assim: todos os pontos sam [são] boms; Todo mundo ficou desapontado principalmente a virgula. Mas uma criança disse:
  -Porque estão tristes?
Foi ai que o ponto de esclamaçam [excalmação] disse:
 - É porque todos querião guanhar. [ganhar]
Logo uma das meninas da platéia disse:
 - Mas não intendo todos sam [são] inportantes.
Depois dos pontos estarem arrependidos, aprederam porque queriam ser os melhores.
E depois de um tempo, virão que todos eram importantes, e virão que ninguem os dispresava[desprezava]
Logo fizerão uma grande roda e mencionaram o nome de cada ponto um a um



22 maio 2012

O vazio do fundos dos teus olhos


Vazio, foi assim que o enxerguei quando cheguei mais perto e não o toquei. Os olhos evasivos, a boca da qual não saiam sequer grunidos, o não prazer. 
Pensar que não te atinjo, nem sequer na superfície.
Por que esse vazio, esse nariz que não respira, este corpo que não sente? Por que esse buraco? Essa ausência?
Intocável, inatingível seja por ti mesmo ou por minha impotência, insanidade, incapacidade. 
O prazer de uma aventura mascarada num sorriso que se guarda e que se perde, num momento que se vive e que se esconde. 
Quanto mais perto, mais distante, quanto mais fundo, mais oco, mais enclausurado, mais silencioso. 
É um olhar que se cobre sobre o meu, que se perde na palavra que não diz, que não se dá a chance de sentir. Afinal, fomos apenas um par de olhos desviantes na penumbra, acuados em semblantes sem êxtase.
Quanto mais perto, mais longe, mais longe, mais longe. Um de frente para o outro, nos olhamos sem nos vermos. 
E pensar que engolimos um ao outro em desejos camuflados. Camuflados pelo vazio do fundo dos teus olhos que aparam, que sorriem, que evitam.
Fomos assim, livres por essa insanidade do fundo vazio dos nossos olhos, tão oca e plácida quanto nosso desejo, misturado e esparramado sobre sensações que não experimentamos e que não nos pertencem. 

08 maio 2012

Adoro


lembrar de ti como se o tivesse visto ontem. Adoro pensar que não há qualquer distância. Adoro a maneira platônica como o encontro em meu pensamento, adoro sentir que tuas palavras fluem. Adoro sentir-me adolescente e incomodada. Adoro sentir o frio na barriga. Adoro o jeito que teus olhos não me encontram. 

Adoro discordar. Adoro dizer que sou uma coisa, que penso de uma maneira, que sou assim. Adoro estar nervosa, levemente radiante. Adoro sentir-me leve, sem saber por onde piso ou para onde vou. Adoro estar centrada. Adoro ouvir as palavras fluírem sem que eu pense exatamente sobre elas. Adoro olhar para as letras dançando no papel e perceber como não dizem nada. Adoro estar ansiosa. Adoro fingir que não há nada acontecendo. Adoro essa sensação passageira. 

Adoro sentir sem saber o que, adoro sentir sem me perguntar por quê.






15 abril 2012

Os problemas,


os problemas, a gente precisa resolver. Um amor desencantado, uma briga mal resolvida, um infortúnio. 
Les problèmes attendent , dizem os franceses. E esperam mesmo, esperam a vida toda e não há fuga que os faça fugir. 
Mas ainda assim Márcio o fez. Ele fugiu e ainda foge a cada silêncio, a cada resposta não dita, a cada agressividade. Foge atando-se ao vazio e às insanidades. 
Isso porque a fuga é assim, anda de mãos dadas conosco num arco-íris de fumaça e fogo. 
Só que não adianta fugir de mim, diz o problema ao pé do ouvido, eu sempre serei sua sombra, sua memória, seu remorso. 
Mas Márcio, Márcio batia os pés em silêncio, enrijecia as mãos, recorria às lembranças mal talhadas. 
Afinal, quanto mais se espera pela solução, mais cresce o problema, mais intenso fica, mais obscuro, mais abstrato.
Talvez Márcio se sentisse só, encarcerado em seu passado e pisoteando o presente. Talvez precisasse apenas abrir os olhos e enxergar o futuro. É, talvez precisasse ser assim, enfrentar de vez e deixar o passado finalmente ir, e ir, e ir, e ir, e ir. Assim, quem sabe poderia livrar-se de toda a mágoa, de todo o mal. E ser livre, finalmente livre.

12/4/2012 

08 abril 2012

Tou te esperando...


sentado, de pé, onde pudermos nos encontrar. Te espero sempre que o celular toca, que as mensagens vem e vão. Mas peço, contudo, que  não espere de mim o mesmo afeto, as mesmas expectativas. Te espero quando quero, te ligo quando posso, te torno amarga e amena. Apenas porque eu sou assim, um tolo desesperado a procura de alguém que me queira como eu não quero, e que me espere como te espero.

26 março 2012

Pé na estrada


Que adolescente nunca quis pôr o pé na estrada e não olhar para trás? Olhar o mundo sempre novo, de novo, outra vez. Pé na estrada, foi assim, e num estalo eu fui.
Mas sabe, a verdade, a verdade é que a gente sente falta dessas coisas mesmo, do pãozinho da esquina de casa, de saber qual semáforo abre primeiro naquele cruzamento cheio, de conhecer o melhor atalho, de fechar os olhos e dirigir. Sente falta até de se esconder daquele vizinho chato, aquele, que sabe seu nome, que puxa assunto...
Outro dia desses eu saia de casa de carro - era a minha casa mesmo, não essas tantas que adoto por aí - e vi uma vizinha saindo com uma grande sacola. Eu já tinha visto ela algumas vezes então parei pra oferecer carona. Ela aceitou. Puxa, a sacola estava pesada mesmo. 
E aí, aí, a gente conversou aquelas coisas que a gente conversa com aquelas pessoas que a gente não conhece. E a conversa foi boa, ela disse que eu era um jovem simpático, que lembrava um pouco um dos filhos dela. Mais pro fim da conversa, ela me perguntou se eu era novo naquele condomínio. Foi estranho, sabe? Foi estranho quando eu sorri sem saber o que dizer. Estranho porque foi uma daquelas pausas de meio segundo: ela ficou ali, esperando a resposta do rapaz educado que tinha conhecido. E eu? Então, o que eu podia fazer? Eu respondi suavemente, um pouco tímido, quase como quem se desculpa por tanta ausência: "há 21 anos...". Ela apenas sorriu, e sem grandes espantos se despediu, agradecendo a carona. 
Nos meses seguintes, nos meses seguintes, eu nunca mais a vi. E o engraçado é que eu não lembro o nome dela, assim como não lembro o nome do porteiro, a quem poderia perguntar sobre ela... É, acho que é como diz um senhor desses que conheci na estrada: "Faz parte, guri, faz parte"
A verdade? A verdade não importa. Importa que até o o tempero da comida... nunca, nunca é o mesmo, nem ao menos parecido. É tudo diferente. Até o gosto do refrigerante muda. Da água à hora que o sol se põe...
De verdade? A gente sente falta desse negócio todo aí... dessa rotina, sabe? É engraçado, mas justo eu assino jornal, aquele de papel ainda. Acho gostoso sentir o cheiro do café misturado à tinta que fica nos dedos. Só que por essa hora meu jornal deve estar em uma pilha gigantesca cheirando a notícia velha, dessas que não valem mais nada, nem pra puxar assunto com a pessoa sem nome que prepara aquele pão na chapa. Mas também, que importa? São notícias de outro lugar, de outra época, não valem nada mesmo. 
O que vale de verdade? A verdade é que nem sei há quanto tempo eu estou viajando, tô na estrada. Só sei que vou, e vou, e vou. E dessa vez, poxa, dessa vez eu já tinha até decorado o nome do Seu Manuel, um senhor que senta na cadeira de balaço e quando a gente fala com ele, ele responde num tom de quem se reanima: "fala comigo! Fala comigo, meu filho". Vou sentir falta disso, do seu Manuel... 

Texto escrito com a enorme colaboração de Denis Anjos :)

16 março 2012

Os Imigrantes


O Som da sanfona percorrendo as casas, aquela música interminável que durava noites e noites e mais noites. Bem que minha avó contava, que ela mesma havia expulsado seu tio de sua casa depois de  sua festa de casamento. Afinal, todos já tinham ido embora e ele permanecia ali, no centro da sala tocando, tocando e tocando. 
Aqueles, aqueles eram outros tempos, tempos em que as crianças viviam soltas e livres nas ruas, os rios não estavam cobertos por concreto e a lama grudava nos calcanhares. Tempos em que as crianças apanhavam dos pais de vara de marmelo, a comida era escassa e falar alemão nas ruas era proibido.
Eu não sei bem como chegaram à São Caetano, mas a lenda conta que fugiram das fazendas de café, onde trabalhava-se do nascer do sol à aurora e que na venda devia-se mais do que as próprias calças. Os românticos contam que fugiram apenas porque junto ao cafezal a Polka era proibida, assim como era a sanfona, as danças e as lembranças da Europa. Sei apenas que pegaram o trem, e desapareceram na calada da noite. 
Naquele tempo os imigrantes fugidos aglomeravam-se nas periferias de São Paulo, uns sobre os outros, escondidos e temendo o estalo de outra guerra na Europa. A guerra veio e a fome dizimou ainda mais os famintos. As já escassas cartas não chegaram mais e a sanfona tocou mais lenta e mais triste. Ninguém perdeu seu tempo contando os mortos, apenas acendia-se uma vela por dia, na esperança que houvesse alguém vivo.  Tentava-se seguir em frente e mais uma vez não olhar para trás.
Mas um dia a guerra se foi, as tristezas viraram cicatrizes, nasceram os filhos os netos e bisnetos. O progresso, contudo, dizimou as lembranças dessa São Caetano de imigrantes, tornando quase irreconhecíveis essas histórias que mais parecem fragmentos. Fragmentos dos quais nada parece real além do som da sanfona que ainda hoje chora percorrendo noites e noites e mais noites numa lembrança vaga que nunca me pertenceu. 

09 março 2012

Confissões de Mulher

Eu e você somos duas que corremos lá e cá, afastadas do mundo que idealizamos. Somos assim, descalças e sorridentes, atadas numa convivência diária que nos desloca.
Difícil talvez perceber que em nosso mundo não cabemos e quanto mais perto estivermos mais difíceis serão os encontros.
A verdade é que temos caminhos, peças e partes, e nos encontramos somente quando estamos nuas, despidas do pudor e da decência que nos foi imposta.
Difícil também perceber que somos limpas e livres, que os olhos dos outros não nos enxergam, que nossos momentos não pertencem a nada.
Afinal, você e eu só nos olhamos para nos dar bom dia e ninguém nunca nos viu brutas, sujas e sorridentes, assim como gostamos de estar quando ninguém nos vê.



Uma homenagem a nós mesmas, com um dia de atraso

27 fevereiro 2012



Amor, preciso lhe dizer. Dizer que falta tesão.
Não importa quantas palavras belas você me diga, quantas noites conversemos ao luar, quão simpático você possa ser. A verdade é que falta aquela atração que marca, a vontade, a secura. 
Preciso lhe dizer que amor sem alma não sobrevive e que relação sem tesão não florece. 
Quanto te olho vejo um menino, não um homem, e por mais que eu saiba cuidar de mim, se é pra ter agluém preciso que me desdobre e me descubra frágil. 
Entenda isso, amor, entenda que você é capaz de encantar, de distrair, de sentar-se comigo e passar horas a fio, mas entenda que enquanto não houver desejo, faísca e fogo, seremos somente conversa e convívio.  

21 fevereiro 2012

Pequenas Maldades

Poucas coisas são mais intrigantes do que saber exatamente o que pensa um desconhecido apenas através de seu olhar. De maneira curiosa isso aconteceu essa noite.
Clara Lúcia dava seu show pessoal, gritava, mostrava a roupa nova, queria todos os olhares e comentários. Para ela os presentes eram insuficientes, pois Clara precisava de cada segundo de atenção.
Achando tudo aquilo curioso, lá estava eu em sua festa de aniversário, mesmo a conhecendo há apenas uma semana. Fomos apresentadas num encontro de negócios e por coincidência uma amiga em comum me levou a seu aniversário.
Cheguei com a festa já começada há bastante tempo e de maneira discreta cumprimentei alguns presentes. Sentei-me na parte externa bebendo qualquer coisa até que começamos, Carlos e eu, a conversar. Falamos desses assuntos que as pessoas falam quando se conhecem, hora ou outra interrompidos por Clara para tirar fotos conosco e fazer algum comentário humorístico.
- Uma figura essa Clara, não? - Comentei. Carlos sorriu, fez uma pausa e completou:
- Certamente, por onde ela passa deixa alegria.
Os assuntos de nossa conversa seguiram-se até que inicou-se a aglomeração para o cantar dos Parabéns. Clara já intimara um a um para aplaudir seu futuro. Foi nesse instante que perdi Carlos de vista e encontrei minha amiga, postando-me ao lado dela. Todos batemos palmas e cantamos à Clara e quando as luzes se acenderam  vi Carlos bem de frente, do lado da sala oposto ao meu. Clara fez seu discurso e nos olhos de Carlos pude perceber a paz dos que resolvem seus males. Clara falava, Carlos tossia uma, duas, três vezes. Lúcia fez uma pausa e olhou diretamente para Carlos. Carlos tossiu mais uma vez e sobre a mesa de doces ainda intocada derrubou uma avalanche de comida e bile vindas diretamente de seu interior. Depois, apenas desfaleceu em câmera lenta, não sem antes cruzar seu olhar ao meu e sorrir à vaidade de Lúcia, sua grande amiga de longa data.

8/2/2012
 

13 fevereiro 2012

Adeus,

disse deixando-lhe uma rosa e beijando-lhe os lábios ainda dormentes. Saiu sem suspiros ou gritos. Os pés um diante do outro, a menta vazia como a velha casa que deixara ao passado. Não o abandonara, apenas não fora escolhida. 
Adeus, pensou friamente, ao vento gelado, para menter-se ainda gélida. 
Seguiu num pé diante do outro pela ruas solitárias do amanhecer e assim permaneceu mais uns dois, três, quatro dias ou meses ou anos, sem saber exatamente a diferença entre cada um deles. 
Caminhou o quanto pode, o barulho das folhas caindo, a não lembrança de um idealismo qualquer e o vazio, apenas o vazio.

18 janeiro 2012

Nunca é pretensão demais

Faz anos que estamos parados olhando um para o outro. Os momentos se sobrepõe, nunca circulamos no mesmo sentido. Somos sim e não e nos alternamos quando a vontade nos permite.
Você desaparece, ressurge, recomessa e finjo, me perco, me vou. 
Talvez seja você meu alterego, por isso me irrita. Diz o que eu diria, age como penso em agir, tenta ser aquilo que não é.  Olha pra mim e desafia, encara, põe à prova. Em contrapartida olho nos olhos, rejeito, ignoro, recuo... mentira. 
Não sei o que você me causa, além da dúvida. Inconstante demais para ser intenso sempre, intenso demais para ser sempre vazio. Me irrita saber o que eu sou e o que finjo não ser, por isso o desdenho, mas não desprezo. Talvez por isso seremos sempre assim, refugiados tentando engolir um ao outro. Afinal, você me desdobra, me põe à prova. 
Não sei quantas vezes nos perdemos, quantas nos perderemos te digo apenas que para sempre é muito tempo, nunca é pretensão demais. 

10 janeiro 2012

As Cartas de Hattersheim 

Andres colocava-as no correio da pequena vila ao lado do rio Meno. Fazia anos que morava na casa interiorana de estilo enxaimel , mas não se lembrava ao certo o ano em que havia chegado. Lembrava-se, contudo, da capela em construção e das casas dos estrangeiros que se levantavam uma após a outra ao lado da vila industrial.
Suas cartas seguiam para longe, para os parentes próximos que ele nunca mais vira. Buscava por notícias de crianças que ele conhecera somente por uma ou duas fotografias e de parentes que ele dera um abraço de adeus. Aquele contato distante lhe lembrava as noites de polka intermináveis, as mulheres com quem dançara, a carne de porco ao pé da lareira.
Andres fora mais um levado para longe de casa e pensara também em atravessar o Atlântico uma ou duas vezes pera se exilar junto aos outros. Nunca teve coragem. Fez sua vida de exílio com os estrangeiros de Hattersheim e montou sua casa na rua Siegfriedring. Contudo não se permitiu a distância e escreveu cartas para aqueles que escolheram a vida bem mais longe de casa.
Nelas falava sobre a vida, os prazeres, mas nunca sobre a pátria. A Iugoslávia era assunto proibido, assim como pais e filhos que se separaram ou corpos que nunca foram encontrados sob os escombros. Falavam apenas sobre os amigos, os casamentos, os que nasceram.
Andres escreveu por todos os anos e datas, escreveu até quando a mão pôde segurar a caneta, escreveu enquanto as feridas do silêncio pudessem ser omitidas. Um dia Andres sentiu que não poderia mais não falar da fuga, do medo e da angústia e decidiu não escrever mais. Mergulhou só nas correntezas Rio Meno, colocando um ponto final em seu próprio destino.  

20 dezembro 2011

O acerto de contas

"A violência é tão fascinante, e nossas vidas são tão normais, você passa dia e noite e sempre vê, apartamentos acesos"  Renato Russo

Um, dois , três, quatro, cinco disparos. Os estrondos secos perfuraram a noite de verão, onde sorrisos e semblantes cansados se perdiam entre cerveja, pizza e horas de trabalho. 
O ônibus fez a curva, o homem correu, e antes que parasse no ponto arrematarem-lhe mais três projetis na cabeça. Os passageiros deitaram-se no chão e num sopro de segundo as respirações estavam mais fortes, os olhos arregalados, as vozes em silêncio e consolo. 
Os celulares ligavam desesperados enquanto o sangue ainda quente escorria pelo asfalto. Uma vida que se esvaiu num acerto de contas, espalhando sua dívida a quem passou, ouviu, observou. 
Num instante a conversa dá lugar ao grito, os corpos abaixam-se acuados. 
Definha o corpo no asfalto enquanto as vítimas fogem e escondem-se acuadas e tementes, sabendo que hoje ainda não foi seu último suspiro, mas que o amanhã, incerto, não lhes pertence. 


19/12/2011 - Por volta das 21h55min

Ainda não achei nenhum notícia sobre o ocorrido na imprensa.  


http://www.youtube.com/watch?v=CbjLS0ZuVm4

14 dezembro 2011

Não há guerra que dure pouco, batalha que não se estenda, revanche que não se peça. As vezes deixamos casas, causas pelas quais lutamos. O pior da guerra é olhar para trás, perceber quantos pedaços faltam, deixar o sangue fixo nas paredes pelas quais nunca mais entraremos. A guerra termina e a gente nem se lembra mais como ela começou.

07 novembro 2011

A USP, os estudantes, a polícia e a revolução

Não foi a primeira, nem será a última invasão, até mesmo porque concordando ou não com os estudantes, não de pode negar que eles colocaram a USP em pauta mais uma vez. 

Não sejamos também ingênuos: por mais que o motivo que levou a maioria ao protesto seja o anseio de se drogar numa suposta Zona Livre que é a universidade, sua reivindicação não é totalmente inválida.  

Não é dever da PM patrulhar a universidade, pode parecer estranho, mas não é. Assim como não é dever dela patrulhar a Volkswagen, a padaria da esquina, descer o cacete nas passeatas, cometer abuso de autoridade ou investigar crimes. Investigar crimes? Sim, investigar é dever da polícia civil assim como a segurança da USP é dever de uma guarda específica dentro da própria universidade.

 Não sejamos tolos em acreditar que o estado justo agora se lembrou da USP, que há muito tempo já tem altos índices de furto e violência. Para protegê-la, que coincidência  designou justamente sua polícia de combate, numa zona na qual sua entrada é sempre receosa devido às inquietações políticas.

Não lembra do regime militar? Aquele governo que matou e torturou, responsável pela grande crise brasileira dos anos 80. Governo esse que os estudantes lutaram contra, em prol do sonho romântico do comunismo. Comunismo infelizmente sangrento da União Soviética, que instaurou ditaduras tão sanguinárias quanto a nossa.
  
Não, esses estudante não pretendem fazer revolução socialista, até porque em 2011 isso parece sem sentido. Mas sua segurança não pode ser deixada nas mãos de quem vai reprimir qualquer voz, revistar qualquer corpo. Mesmo que muitos infelizmente estejam apenas preocupados na maconha que vão fumar, quem deve cuidar de si é a própria USP, num esquema montado por ela, cabendo a ela não fazer vista grossa às drogas ou à violência.  

Não sei quem é dessa reitoria, mas garanto que parte dela já estudou, já protestou, já teve medo e já apanhou. Hoje aperta as mãos do modelo de Estado que outrora criticou. Hoje joga na mão dele um dever que é seu: garantir a segurança no Campus. 

Não é fácil, não afirmo que é. Assim como não acho que a universidade deve ser Zona Livre da lei. Contudo não devemos nos esquecer que na política não se dá ponto sem nó e PM na universidade me parece um nó da marinha.  



P.S Não, isso não é um conto. 

30 outubro 2011

Feliz dia das Bruxas :)

Histórias de Duende

Mariana acordou assustada com o vulto em seu quarto. Estava certa que de que havia ouvido uma voz grave falando ao seu ovido. Acendeu a luz, e segurando o medo pela boca, olhou por debaixo da cama.
Sabia, lá estava ele, os olhos vermelhos, a pela crespa e esverdeada, as mãozinhas de quatro dedos. Mariana deu um pulo para trás e um grito, pegou uma vassoura e preparada para atacar olhou novamente por debaixo da cama.
O Pequeno duende implorou piedade, e dos olhos vermelhos saíam lágrimas tão azuis quanto o céu da noite. Aos poucos as mãos de Mariana baixaram e o duende, percebendo a caridade, se apresento, ainda tremendo de medo.
- Zuricate.
- Mariana.
Aos poucos o medo deu lugar a uma conversa tranquila e Zuricate contou que escapara do seu mundo pelo portal do sol. Queria apenas ter dado uma passeio pela terra, que diziam ser uma planeta tão verdinho e cheio d'água, mas perdeu-se junto aos prédios e às casas cinzas. Não sabia voltar, não sabia nem onde estava.
Mariana ouviu também que no mundo dos duendes o sol se punha somente quando a brincadeira perdia a graça, ouviu que o céu  brilhava e  que as núvens de algodão doce podiam estar ao alcance das mãos.
A conversa se seguiu pela noite, e quando o assunto se perdeu, Zuricate pediu ajuda a Mariana, pois ele não sabia mais o caminho de casa. Mariana ficou confusa, disse que estava tarde, mas os olhos vermelhos do duende a convenceram, principalmente quando ele disse que o portal se fecharia assim que o sol humano nascesse.
Mariana decidiu-se, pulou a janela de mãos dadas com Zuricate. Juntos correram pela noite, reviraram a cidade, tiveram medo, aflição, caminharam até que as pernas se cansassem, mas o portal do sol ficara invisível atrás dos prédios cinzas.
Mariana teve uma ideia. Subiu esperançosa até o andar mais alto de um prédio mais vistoso mas ao invés do portal deparou-se com os primeiros raios de sol que brotavam no horizonte. Zuricate teve medo, segurou firme a mão de Mariana e vendo-se sem saída fez brotar de seus olhos lágrimas cristalinas. 
Os raios de sol iluminaram todo e céu, cortando-o tão rápido quanto um vulcão que explode. O azul da manhã tornou-se vermelho, depois amarelho e branco. Mariana apertou a mão de Zuricate tão forte quanto pôde e de repente um clarão lhe encobriu a vista.

Mariana acordou assustada com um vulto em seu quarto. Estava certa que de que havia ouvido uma voz suave falando ao seu ouvido. Acendeu a luz, e segurando a aflição pela boca, olhou por debaixo da cama. Sabia, lá estava ele, os olhos vermelhos, a pela macia e esverdeada, as mãozinhas  imóveis de apenas quatro dedos. Mariana  sorriu, aproximou-se, pegou o boneco pelas mãos e ainda pôde ouvir Zuricate agradecê-la suavemente ao pé do ouvido.

22 outubro 2011

O Rebanho Alheio


"Senhor Deus dos desgraçados
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus..."


Diga-me, deus nosso, era esta a imagem que procuravas? Era esta a salvação que teu nome pregava? Nasceu mesmo este homem apenas para viver após a morte em teu reino?
"E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais..."


Prega-se o medo, buscam-se corpos, além do azar, do fim. Embebidos pela musa divina vão-se antigos amigos, tampam-se os olhos, vedam-se ouvidos. Tocam-nos sempre na fraqueza certa em sua generosidade pseudo honesta.
"Mas que vejo eu ali... que quadro de amarguras!
Que canto funeral!... Que tétricas figuras!...
Que cena infame e vil!... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!"

Mãos atadas em sorrisos prontos. Estão-se presos por vontade? Mentes lacradas, a loucura enrustida sob almas aflitas. Às vezes contam-lhes mentiras, mas a fé pode torná-las verdades em esboço. Só responsa-me, deus meus, era assim que idealizaras?
"Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!"

As vozes se perdem juntas, suplicam por salvação em transe.

"Ai! Quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!..."


Nada há ali, apenas paredes e pessoas. Brilha a peste reluzente, transforma ouro em salvação. Espatifam-se os sonhos coerentes, queimam-se as antigas letras ingratas da maldição. 
"Fatalidade atroz que a mente esmaga"


Agora são máquinas repetidoras, apenas e nada mais. Frutos da ganância, meras figuras insanas e fanáticas. Livre arbítrio controlado, respeito à cultura alheia confiscado. Doam a alma a quem porta o verbo, que as compra e vende a cada dia.
"Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!..."

Que deus é esse dito homem que carrega a verdade absoluta? Que deus é esse que afoga-lhes as mágoas em frases sem sentido? Quem é ? Quem pensa ser, afinal?

"Deus não está em grandes casas de madeira. Lasque uma pedra Eu estarei lá, feche seus olhos e irá encontrar-me..."

(Documento declarado como heresia)