16 março 2012

Os Imigrantes


O Som da sanfona percorrendo as casas, aquela música interminável que durava noites e noites e mais noites. Bem que minha avó contava, que ela mesma havia expulsado seu tio de sua casa depois de  sua festa de casamento. Afinal, todos já tinham ido embora e ele permanecia ali, no centro da sala tocando, tocando e tocando. 
Aqueles, aqueles eram outros tempos, tempos em que as crianças viviam soltas e livres nas ruas, os rios não estavam cobertos por concreto e a lama grudava nos calcanhares. Tempos em que as crianças apanhavam dos pais de vara de marmelo, a comida era escassa e falar alemão nas ruas era proibido.
Eu não sei bem como chegaram à São Caetano, mas a lenda conta que fugiram das fazendas de café, onde trabalhava-se do nascer do sol à aurora e que na venda devia-se mais do que as próprias calças. Os românticos contam que fugiram apenas porque junto ao cafezal a Polka era proibida, assim como era a sanfona, as danças e as lembranças da Europa. Sei apenas que pegaram o trem, e desapareceram na calada da noite. 
Naquele tempo os imigrantes fugidos aglomeravam-se nas periferias de São Paulo, uns sobre os outros, escondidos e temendo o estalo de outra guerra na Europa. A guerra veio e a fome dizimou ainda mais os famintos. As já escassas cartas não chegaram mais e a sanfona tocou mais lenta e mais triste. Ninguém perdeu seu tempo contando os mortos, apenas acendia-se uma vela por dia, na esperança que houvesse alguém vivo.  Tentava-se seguir em frente e mais uma vez não olhar para trás.
Mas um dia a guerra se foi, as tristezas viraram cicatrizes, nasceram os filhos os netos e bisnetos. O progresso, contudo, dizimou as lembranças dessa São Caetano de imigrantes, tornando quase irreconhecíveis essas histórias que mais parecem fragmentos. Fragmentos dos quais nada parece real além do som da sanfona que ainda hoje chora percorrendo noites e noites e mais noites numa lembrança vaga que nunca me pertenceu. 

09 março 2012

Confissões de Mulher

Eu e você somos duas que corremos lá e cá, afastadas do mundo que idealizamos. Somos assim, descalças e sorridentes, atadas numa convivência diária que nos desloca.
Difícil talvez perceber que em nosso mundo não cabemos e quanto mais perto estivermos mais difíceis serão os encontros.
A verdade é que temos caminhos, peças e partes, e nos encontramos somente quando estamos nuas, despidas do pudor e da decência que nos foi imposta.
Difícil também perceber que somos limpas e livres, que os olhos dos outros não nos enxergam, que nossos momentos não pertencem a nada.
Afinal, você e eu só nos olhamos para nos dar bom dia e ninguém nunca nos viu brutas, sujas e sorridentes, assim como gostamos de estar quando ninguém nos vê.



Uma homenagem a nós mesmas, com um dia de atraso

27 fevereiro 2012



Amor, preciso lhe dizer. Dizer que falta tesão.
Não importa quantas palavras belas você me diga, quantas noites conversemos ao luar, quão simpático você possa ser. A verdade é que falta aquela atração que marca, a vontade, a secura. 
Preciso lhe dizer que amor sem alma não sobrevive e que relação sem tesão não florece. 
Quanto te olho vejo um menino, não um homem, e por mais que eu saiba cuidar de mim, se é pra ter agluém preciso que me desdobre e me descubra frágil. 
Entenda isso, amor, entenda que você é capaz de encantar, de distrair, de sentar-se comigo e passar horas a fio, mas entenda que enquanto não houver desejo, faísca e fogo, seremos somente conversa e convívio.  

21 fevereiro 2012

Pequenas Maldades

Poucas coisas são mais intrigantes do que saber exatamente o que pensa um desconhecido apenas através de seu olhar. De maneira curiosa isso aconteceu essa noite.
Clara Lúcia dava seu show pessoal, gritava, mostrava a roupa nova, queria todos os olhares e comentários. Para ela os presentes eram insuficientes, pois Clara precisava de cada segundo de atenção.
Achando tudo aquilo curioso, lá estava eu em sua festa de aniversário, mesmo a conhecendo há apenas uma semana. Fomos apresentadas num encontro de negócios e por coincidência uma amiga em comum me levou a seu aniversário.
Cheguei com a festa já começada há bastante tempo e de maneira discreta cumprimentei alguns presentes. Sentei-me na parte externa bebendo qualquer coisa até que começamos, Carlos e eu, a conversar. Falamos desses assuntos que as pessoas falam quando se conhecem, hora ou outra interrompidos por Clara para tirar fotos conosco e fazer algum comentário humorístico.
- Uma figura essa Clara, não? - Comentei. Carlos sorriu, fez uma pausa e completou:
- Certamente, por onde ela passa deixa alegria.
Os assuntos de nossa conversa seguiram-se até que inicou-se a aglomeração para o cantar dos Parabéns. Clara já intimara um a um para aplaudir seu futuro. Foi nesse instante que perdi Carlos de vista e encontrei minha amiga, postando-me ao lado dela. Todos batemos palmas e cantamos à Clara e quando as luzes se acenderam  vi Carlos bem de frente, do lado da sala oposto ao meu. Clara fez seu discurso e nos olhos de Carlos pude perceber a paz dos que resolvem seus males. Clara falava, Carlos tossia uma, duas, três vezes. Lúcia fez uma pausa e olhou diretamente para Carlos. Carlos tossiu mais uma vez e sobre a mesa de doces ainda intocada derrubou uma avalanche de comida e bile vindas diretamente de seu interior. Depois, apenas desfaleceu em câmera lenta, não sem antes cruzar seu olhar ao meu e sorrir à vaidade de Lúcia, sua grande amiga de longa data.

8/2/2012
 

13 fevereiro 2012

Adeus,

disse deixando-lhe uma rosa e beijando-lhe os lábios ainda dormentes. Saiu sem suspiros ou gritos. Os pés um diante do outro, a menta vazia como a velha casa que deixara ao passado. Não o abandonara, apenas não fora escolhida. 
Adeus, pensou friamente, ao vento gelado, para menter-se ainda gélida. 
Seguiu num pé diante do outro pela ruas solitárias do amanhecer e assim permaneceu mais uns dois, três, quatro dias ou meses ou anos, sem saber exatamente a diferença entre cada um deles. 
Caminhou o quanto pode, o barulho das folhas caindo, a não lembrança de um idealismo qualquer e o vazio, apenas o vazio.

18 janeiro 2012

Nunca é pretensão demais

Faz anos que estamos parados olhando um para o outro. Os momentos se sobrepõe, nunca circulamos no mesmo sentido. Somos sim e não e nos alternamos quando a vontade nos permite.
Você desaparece, ressurge, recomessa e finjo, me perco, me vou. 
Talvez seja você meu alterego, por isso me irrita. Diz o que eu diria, age como penso em agir, tenta ser aquilo que não é.  Olha pra mim e desafia, encara, põe à prova. Em contrapartida olho nos olhos, rejeito, ignoro, recuo... mentira. 
Não sei o que você me causa, além da dúvida. Inconstante demais para ser intenso sempre, intenso demais para ser sempre vazio. Me irrita saber o que eu sou e o que finjo não ser, por isso o desdenho, mas não desprezo. Talvez por isso seremos sempre assim, refugiados tentando engolir um ao outro. Afinal, você me desdobra, me põe à prova. 
Não sei quantas vezes nos perdemos, quantas nos perderemos te digo apenas que para sempre é muito tempo, nunca é pretensão demais. 

10 janeiro 2012

As Cartas de Hattersheim 

Andres colocava-as no correio da pequena vila ao lado do rio Meno. Fazia anos que morava na casa interiorana de estilo enxaimel , mas não se lembrava ao certo o ano em que havia chegado. Lembrava-se, contudo, da capela em construção e das casas dos estrangeiros que se levantavam uma após a outra ao lado da vila industrial.
Suas cartas seguiam para longe, para os parentes próximos que ele nunca mais vira. Buscava por notícias de crianças que ele conhecera somente por uma ou duas fotografias e de parentes que ele dera um abraço de adeus. Aquele contato distante lhe lembrava as noites de polka intermináveis, as mulheres com quem dançara, a carne de porco ao pé da lareira.
Andres fora mais um levado para longe de casa e pensara também em atravessar o Atlântico uma ou duas vezes pera se exilar junto aos outros. Nunca teve coragem. Fez sua vida de exílio com os estrangeiros de Hattersheim e montou sua casa na rua Siegfriedring. Contudo não se permitiu a distância e escreveu cartas para aqueles que escolheram a vida bem mais longe de casa.
Nelas falava sobre a vida, os prazeres, mas nunca sobre a pátria. A Iugoslávia era assunto proibido, assim como pais e filhos que se separaram ou corpos que nunca foram encontrados sob os escombros. Falavam apenas sobre os amigos, os casamentos, os que nasceram.
Andres escreveu por todos os anos e datas, escreveu até quando a mão pôde segurar a caneta, escreveu enquanto as feridas do silêncio pudessem ser omitidas. Um dia Andres sentiu que não poderia mais não falar da fuga, do medo e da angústia e decidiu não escrever mais. Mergulhou só nas correntezas Rio Meno, colocando um ponto final em seu próprio destino.  

20 dezembro 2011

O acerto de contas

"A violência é tão fascinante, e nossas vidas são tão normais, você passa dia e noite e sempre vê, apartamentos acesos"  Renato Russo

Um, dois , três, quatro, cinco disparos. Os estrondos secos perfuraram a noite de verão, onde sorrisos e semblantes cansados se perdiam entre cerveja, pizza e horas de trabalho. 
O ônibus fez a curva, o homem correu, e antes que parasse no ponto arrematarem-lhe mais três projetis na cabeça. Os passageiros deitaram-se no chão e num sopro de segundo as respirações estavam mais fortes, os olhos arregalados, as vozes em silêncio e consolo. 
Os celulares ligavam desesperados enquanto o sangue ainda quente escorria pelo asfalto. Uma vida que se esvaiu num acerto de contas, espalhando sua dívida a quem passou, ouviu, observou. 
Num instante a conversa dá lugar ao grito, os corpos abaixam-se acuados. 
Definha o corpo no asfalto enquanto as vítimas fogem e escondem-se acuadas e tementes, sabendo que hoje ainda não foi seu último suspiro, mas que o amanhã, incerto, não lhes pertence. 


19/12/2011 - Por volta das 21h55min

Ainda não achei nenhum notícia sobre o ocorrido na imprensa.  


http://www.youtube.com/watch?v=CbjLS0ZuVm4

14 dezembro 2011

Não há guerra que dure pouco, batalha que não se estenda, revanche que não se peça. As vezes deixamos casas, causas pelas quais lutamos. O pior da guerra é olhar para trás, perceber quantos pedaços faltam, deixar o sangue fixo nas paredes pelas quais nunca mais entraremos. A guerra termina e a gente nem se lembra mais como ela começou.

07 novembro 2011

A USP, os estudantes, a polícia e a revolução

Não foi a primeira, nem será a última invasão, até mesmo porque concordando ou não com os estudantes, não de pode negar que eles colocaram a USP em pauta mais uma vez. 

Não sejamos também ingênuos: por mais que o motivo que levou a maioria ao protesto seja o anseio de se drogar numa suposta Zona Livre que é a universidade, sua reivindicação não é totalmente inválida.  

Não é dever da PM patrulhar a universidade, pode parecer estranho, mas não é. Assim como não é dever dela patrulhar a Volkswagen, a padaria da esquina, descer o cacete nas passeatas, cometer abuso de autoridade ou investigar crimes. Investigar crimes? Sim, investigar é dever da polícia civil assim como a segurança da USP é dever de uma guarda específica dentro da própria universidade.

 Não sejamos tolos em acreditar que o estado justo agora se lembrou da USP, que há muito tempo já tem altos índices de furto e violência. Para protegê-la, que coincidência  designou justamente sua polícia de combate, numa zona na qual sua entrada é sempre receosa devido às inquietações políticas.

Não lembra do regime militar? Aquele governo que matou e torturou, responsável pela grande crise brasileira dos anos 80. Governo esse que os estudantes lutaram contra, em prol do sonho romântico do comunismo. Comunismo infelizmente sangrento da União Soviética, que instaurou ditaduras tão sanguinárias quanto a nossa.
  
Não, esses estudante não pretendem fazer revolução socialista, até porque em 2011 isso parece sem sentido. Mas sua segurança não pode ser deixada nas mãos de quem vai reprimir qualquer voz, revistar qualquer corpo. Mesmo que muitos infelizmente estejam apenas preocupados na maconha que vão fumar, quem deve cuidar de si é a própria USP, num esquema montado por ela, cabendo a ela não fazer vista grossa às drogas ou à violência.  

Não sei quem é dessa reitoria, mas garanto que parte dela já estudou, já protestou, já teve medo e já apanhou. Hoje aperta as mãos do modelo de Estado que outrora criticou. Hoje joga na mão dele um dever que é seu: garantir a segurança no Campus. 

Não é fácil, não afirmo que é. Assim como não acho que a universidade deve ser Zona Livre da lei. Contudo não devemos nos esquecer que na política não se dá ponto sem nó e PM na universidade me parece um nó da marinha.  



P.S Não, isso não é um conto. 

30 outubro 2011

Feliz dia das Bruxas :)

Histórias de Duende

Mariana acordou assustada com o vulto em seu quarto. Estava certa que de que havia ouvido uma voz grave falando ao seu ovido. Acendeu a luz, e segurando o medo pela boca, olhou por debaixo da cama.
Sabia, lá estava ele, os olhos vermelhos, a pela crespa e esverdeada, as mãozinhas de quatro dedos. Mariana deu um pulo para trás e um grito, pegou uma vassoura e preparada para atacar olhou novamente por debaixo da cama.
O Pequeno duende implorou piedade, e dos olhos vermelhos saíam lágrimas tão azuis quanto o céu da noite. Aos poucos as mãos de Mariana baixaram e o duende, percebendo a caridade, se apresento, ainda tremendo de medo.
- Zuricate.
- Mariana.
Aos poucos o medo deu lugar a uma conversa tranquila e Zuricate contou que escapara do seu mundo pelo portal do sol. Queria apenas ter dado uma passeio pela terra, que diziam ser uma planeta tão verdinho e cheio d'água, mas perdeu-se junto aos prédios e às casas cinzas. Não sabia voltar, não sabia nem onde estava.
Mariana ouviu também que no mundo dos duendes o sol se punha somente quando a brincadeira perdia a graça, ouviu que o céu  brilhava e  que as núvens de algodão doce podiam estar ao alcance das mãos.
A conversa se seguiu pela noite, e quando o assunto se perdeu, Zuricate pediu ajuda a Mariana, pois ele não sabia mais o caminho de casa. Mariana ficou confusa, disse que estava tarde, mas os olhos vermelhos do duende a convenceram, principalmente quando ele disse que o portal se fecharia assim que o sol humano nascesse.
Mariana decidiu-se, pulou a janela de mãos dadas com Zuricate. Juntos correram pela noite, reviraram a cidade, tiveram medo, aflição, caminharam até que as pernas se cansassem, mas o portal do sol ficara invisível atrás dos prédios cinzas.
Mariana teve uma ideia. Subiu esperançosa até o andar mais alto de um prédio mais vistoso mas ao invés do portal deparou-se com os primeiros raios de sol que brotavam no horizonte. Zuricate teve medo, segurou firme a mão de Mariana e vendo-se sem saída fez brotar de seus olhos lágrimas cristalinas. 
Os raios de sol iluminaram todo e céu, cortando-o tão rápido quanto um vulcão que explode. O azul da manhã tornou-se vermelho, depois amarelho e branco. Mariana apertou a mão de Zuricate tão forte quanto pôde e de repente um clarão lhe encobriu a vista.

Mariana acordou assustada com um vulto em seu quarto. Estava certa que de que havia ouvido uma voz suave falando ao seu ouvido. Acendeu a luz, e segurando a aflição pela boca, olhou por debaixo da cama. Sabia, lá estava ele, os olhos vermelhos, a pela macia e esverdeada, as mãozinhas  imóveis de apenas quatro dedos. Mariana  sorriu, aproximou-se, pegou o boneco pelas mãos e ainda pôde ouvir Zuricate agradecê-la suavemente ao pé do ouvido.

22 outubro 2011

O Rebanho Alheio


"Senhor Deus dos desgraçados
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus..."


Diga-me, deus nosso, era esta a imagem que procuravas? Era esta a salvação que teu nome pregava? Nasceu mesmo este homem apenas para viver após a morte em teu reino?
"E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais..."


Prega-se o medo, buscam-se corpos, além do azar, do fim. Embebidos pela musa divina vão-se antigos amigos, tampam-se os olhos, vedam-se ouvidos. Tocam-nos sempre na fraqueza certa em sua generosidade pseudo honesta.
"Mas que vejo eu ali... que quadro de amarguras!
Que canto funeral!... Que tétricas figuras!...
Que cena infame e vil!... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!"

Mãos atadas em sorrisos prontos. Estão-se presos por vontade? Mentes lacradas, a loucura enrustida sob almas aflitas. Às vezes contam-lhes mentiras, mas a fé pode torná-las verdades em esboço. Só responsa-me, deus meus, era assim que idealizaras?
"Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!"

As vozes se perdem juntas, suplicam por salvação em transe.

"Ai! Quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!..."


Nada há ali, apenas paredes e pessoas. Brilha a peste reluzente, transforma ouro em salvação. Espatifam-se os sonhos coerentes, queimam-se as antigas letras ingratas da maldição. 
"Fatalidade atroz que a mente esmaga"


Agora são máquinas repetidoras, apenas e nada mais. Frutos da ganância, meras figuras insanas e fanáticas. Livre arbítrio controlado, respeito à cultura alheia confiscado. Doam a alma a quem porta o verbo, que as compra e vende a cada dia.
"Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!..."

Que deus é esse dito homem que carrega a verdade absoluta? Que deus é esse que afoga-lhes as mágoas em frases sem sentido? Quem é ? Quem pensa ser, afinal?

"Deus não está em grandes casas de madeira. Lasque uma pedra Eu estarei lá, feche seus olhos e irá encontrar-me..."

(Documento declarado como heresia)

26 setembro 2011

Brindemos

- Brindemos! - disse alto o velho louco. O bar todo virou-se para ele, pronto a reptrimí-lo. - Brindemos às nossas angústias, aos rostos perplexos a cada sentimento remoído. Ao meu, ao teu, brindemos! - Bebeu um gole e apenas dois ou três jovens fanfarrãos acompanharam-no em tom de brincadeira.

O velho sentou-se novamente, serviu-se doutra dose de conhaque e ficou por mais aquela noite sozinho, observando cada moça que lhe olhava feio, cada jovem que lhe dava trela afim de colher um par de risadas.
Nem sempre fora assim: velho, caquétipo, louco. Houvera outros dias, quando o velho Brandy ainda tinha 23 ou 25 anos. Costumava sair sozinho. Eram outros tempos, sentava-se às mesas e antes de pedir sua própria dose, ele costumava servir uma bela dama. Brandy não era exatamente seletivo, bastava-lhe um par de pernas e uma cintura mais fina que a sua própria.
- Brindemos - dizia ele à jovem ainda sentada na outra mesa. Nem sempre elas brindavam, mas Brandy era experiente e sabia ler nos olhos delas o interesse. Aproximava-se apenas quando tinha certeza e controle.
Brandy tinha 23 ou 25 anos. Saíra de casa preparado para a noite fria. Ventava mais do que de costume para maio e mesmo o casado e cachecol pesados permitiam ao frio transpassar os ossos. Chegou ao bar tremendo, as largas orellhas congelando por baixo da touca. Acomodou-se próximo ao balcão vazio.
- Schoth, por favor - O garçom lhe serviu na verdade conhaque e sinalizou uma mesa ao fundo. A jovem sentada nela ofereceu-lhe um brinde e Brandy, visivelmente desconcertado brindou com ela.
- Quem é a moça? - Cochichou ao garçom.
- Ela pediu que o senhor mesmo fosse perguntar. - Brandy olhou para baixo, pensou alguns segundos. Normalmente sexo fácil ou é pago ou perigoso, pensou consigo antes de dar os primeiros passos em direção à mesa. Deu um gole largo no conhaque e fez cara feia. Conhaque não era seu preferido, também não gostava do jogo da incerteza...
- ...de poder não estar no comando - Sussurrou-lhe ao ouvido a voz feminina. Quando Brandy se deu conta ela estava ao lado dele, sentada no balcão e sorrindo maliciosamente. Por alguns segundos Brandy mediu-a mudo.
- Não é a melhor forma, esta, de conversar com alguém. - Disse ela encarando o jovem Brandy ainda mudo.
- Saiba apenas que não sou nada do que você já pensou sobre mim - Ali, ela arrancara um sorrisinho de Brandy, que deu mais um gole no conhaque e fez cara feia.
- Eu prefiro Wishky - disse ele - ainda mais nesses dias frios. - Desta vez foi ela quem sorriu, mostrando os dentes alvos e levemente tortos na frente.
- Com o tempo, conhaque se tornará seu preferido. - A conversa se alargou até as mesas serem limpas e empilhadas. Brandy falou pouco e antes de terminar o último gole sentou-se ao lado dela na sarjeta. Os olhos levemente caídos derramaram-se no ombro dela.
- Eu posso ir pra casa, só ou acompanhado. - disse ele numa voz tão arrastada que custou a completar a frase.
- Quem anda pelas ruas, casa não tem - Cantaroulou ela.
- Casa não tem, não senhor - Brandy completou gargalhando.
A rua estava escura e os garçons já tinham ido embora há muito pela saída dos fundos.
- A solidão que persegue, aquela mesma do amor.- Continuaram a melodia
- Sem cor a gente envelhece, foi solidão que ficou...

Brandy acordou em casa, a cabeça ardendo, a roupa limpa dependurada sobre a cama, o silêncio. Serviu-se de um Schoot pra arejar a mente e nunca lhe parecera tão forte e amargo. Observou se havia vestígios de sexo ou roubo e ficou aliviado ao encontrar a carteira e ler o bilhetinho preso a ela.
Sob o silêncio tomou banho, fez a barba aprontou-se para outra noite, desta vez no mesmo bar.
Brandy caminhou na noite fria, sentiu outra vez o vento forte, bebeu outra dose de wiski mas preferiu conhaque. Voltou pra casa solitário e sóbrio. Brandy se perdeu por entre as ruas, rodou só por entre as noites, voltou sempre ao mesmo bar.
Talvez tivesse 23 ou 25 anos. Sentou-se no balcão e resmungou qualquer coisa. Serviram-lhe conhaque. 
Bebeu a dose devagar, sob a penumbra, e quando as mãos trêmulas permitiram, abriu a carteira. Os dedos grossos, as atiuculaçôes rijas, a pele carcumida, as olheiras fundas, os olhos brancos. Desdobrou o amarelado papel escrito à mão, observou-o por alguns segundos. Serviu-se novamente do conhaque até o copo transbordar, levantou-se, saldou a todos e disse:
- Brindemos! Ao meu ao teu. Às nossas angústias, a cada sentimento aniquilado, brindemos!

20 setembro 2011

Gotas

As gotas caminham uma atrás da outra. Correm, trombam-se, rebatem-se.
Ah! Gotinhas! Cantarolam em fila indiana; ploc, ploc, plaf!
São crianças, escorregam, desandam, desmontam...oooh!
Lá vão elas, que graça.
Corre pula, cai! De frente, de costas, demais.
Dançam, vão as gotas no mesmo rítimo: redonsilhas, rebolando redondinhas.
De lá pra cá, daqui pra lá. Dançam as gotas, até evaporar.

05 setembro 2011

Segredos


Carlos caía e um certo desespero tomou conta dele como um todo. Os olhos esbugalharam-se, o ar faltou e não havia mais o que fazer. Um tranco, de repente o barulho. Carlos abriu os olhos e viu-se caído no chão abraçado ao travesseiro, tremia. Levantou-se assustado, pudera, um pesadelo daqueles se repetindo tantas noites. Foi ao espelho, escovou os dentes, lavou o rosto, ajeitou os cabelos com o pente e com a mão esquerda, colocou as lentes de contato, limpas e bem guardas com duas gotas de soro fisiológico em caixinhas de cores distintas. Desligou o despertador que ainda guardava cinco minutos antes de tocar.
Carlos estava sozinho em casa, para sua paz, a mãe saíra cedo para trabalhar. Comeu duas habituais torradas e um copo de iogurte com fruta da estação.
Estou novo, pensou consigo abrindo um sorriso bobo daqueles que ainda tem alguma esperança na alma. Saiu no horário de sempre, nem um minuto a mais, nem a menos. Voltou para casa na hora correta, sem atrasos, sem preocupações.
Carlos era organizado, o filho bonzinho, desses que toda a mãe sonha em ter. Boas notas, cuidadoso, boa aprência, dava a atenção específica e correta para tudo. Não reagia às broncas, sempre apartava brigas. Era fechado, quieto, às vezes parecia infeliz embora sempre fosse esperançoso. A vida tinha que ser certa, não só a sua, mas a de todos. Desejava a esposa direita, para casar, para ser nos costumes.
Carlos não gostava muito de sair, preferia sua casa, seu canto, mas naquela noite a idéia da festa pareceu boa quando os colegas insistiram para que ele fosse. Passou um perfume que ganhara de alguém, saiu animado e arrumado.
Lá não dançou, não gostava e não sabia. Ficou sentado, curtindo sozinho enquanto os colegas ficavam na pista. Este não é meu mundo, não é para mim, pensava enquanto balançava no rítmico de lá para cá. A música ficou mais alta, barulho, baderna, e Carlos o contraste; sentado no seu balanço mole; o som ensurdecedor, e Carlos quietinho.
Frango, moça, estranho, nerd, bizarro. Estava acostumado a ouvir tudo isso, mas naquela noite sentiu-se à vontade, mesmo olhando perdido para toda aquela gente e ainda perguntando-se o que fazia por ali.
Algumas vozes embriagadas chegaram a atormentá-lo mas ele só se abalou quando uma delas falou mais alto que as outras. Carlos apenas levantou, não respondeu e saiu, cedeu seu lugar e deixou sobre a mesa o resto do suco que bebia. 
Mas o provocador debochou, deixou que o suco se derramasse na roupa de Carlos e sugeriu que aproveitasse a viagem ao bar e já comprasse duas bebidas.
Assustado com tudo aquilo e todo atrapalhado, Carlos dirigiu-se ao bar para providenciar o pedido. Acabou trazendo uma batida de qualquer coisa com uma tal de Vodka da primeira marca que tinha para escolher. Foi agradecido com um empurrão e um cortês tapa nas costas. Saiu sorrindo amarelo, escondendo-se pelos corredores de pessoas e música alta.
Os olhos remexeram-se nas pálperas, caia novamente, espasmos pelo corpo todo, uma sensação horrível. Carlos despencava, outra vez o mesmo pesadelo, outra vez o arrepio pela espinha. Antes que chegasse ao chão tocou o despertador; um novo dia. Carlos levantou-se, lavou o rosto com um jato de água, esfregou bem os olhos, fitou por alguns segundos sua figura no espelho e pôs as lentes de contato.
Apanhou o jornal entregue naquela mesma manhã sentou-se para tomar café. Entre uma colherada e outra no iogurte, virava as páginas, procurava pelos cadernos.
Seus olhos passearam pelas notícias até que finalmente fixaram-se numma manchete. Ele parou por alguns instantes e leu-a cautelosamente em voz alta: “Esta noite morre jovem morre hospitalizado com suspeita de envenenamento em boate”. Carlos abriu um sorriso doce e bobo, daqueles que ainda tem alguma esperança na alma, sentindo-se leve e renovado como numa manhã qualquer.

27 agosto 2011

Notas sobre Filmes e Sexo



A primeira vez nem sempre é tão boa quanto esperávamos.
A gente só melhora com a prática, mas teoria é sempre bom pra encorpar a experiência.
As sensações podem ser as mais distintas possíveis, de êxtase ao asco.
Mas, principalmente, feito com amor é muito mais gostoso.


Estou com esse pensamento há semanas na cabeça, hora de susbtituir por um conto tradicional :)

19 agosto 2011

A cidade e a treva

Logo abaixo do céu e quase anexa ao mar reside Saulo, cidade onde as noites são claras como os dias. Ali as ruas transpassam umas às outras, e os viadutos enroscam-se e achatam-se por todo o lugar que se olha.
Em Saulo há sempre diversos caminhos para o mesmo ponto e circulam por eles uma imensidão avermelhada de faróis que se perde de vista.
Nas praças de Saulo os tabuleiros de damas e xadrez deram lugar ao cheiro de urina, odor esse que percorre toda a cidade pelos canais de água que a cortam por todos as direções. 
Dizem os mais velhos que o por do sol de Saulo é sempre o mais belo de todos, mesmo que escondido sob as torres e o ar turvo que cheira a fumaça.
Saulo é assim, Saulo não para, e quanto o dia amanhece já está toda acordada, circulando apertada sobre o rios enterrados e as galerias escondidas. Galerias sobre as quais aglomeram-se narizes das mais diversas cores e formas, morando uns sobre os outros e tornando Saulo sempre mais e mais aglomerada, fadando-a simplesmente a ruir.






Baseado em As cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino.

25 julho 2011

Inominável

Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Depois de uma incrível sucessão deles o celular despertou ao som infernal de sua música favorita, capaz de destroçar qualquer sonho.
- Só mais cinco minutos - Murmurou Xavier. Sabia que não lhe restava mais um segundo sequer, entretanto o sono acolheu-o maternalmente naquela fria manhã.
De repente, o susto.
- Ih, merda! - Passara dos cinco minutos, dos dez inclusive. Saltou da cama já tirando a camisa e procurando os sapatos. Tomou café andando, preparando a pasta na escova e o creme de barbear. Vestindo o paletó trancou a porta, dirigiu mais loucamente que de costume rumo ao trabalho.
Chegou na empresa irritado, odiava ir para lá todo o dia, odiava acordar cedo. Também não suportava o terno e a gravata enforcava-lhe. Pelo menos pagam bem, pensava nos mementos de aperto.
Espremeu um sorriso da alma para distribuir alguns "bom dia" no caminho até seu setor. Caminhou automaticamente até a nona porta à esquerda do quinto corredor, como por três anos faz sistematicamente.
Em sua sala não encontrou alívio ou conforto, mas uma pilha de papéis sobre a mesa. Trabalho, trabalho e trabalho. Desde a faculdade nunca mais lera algo não técnico. Almoçou papeladas regadas a problemas.
Mas nem tudo era ruim como parecia, Xavier adorava, de vez em quando, passear pelos corredores. As portas, equipadas com uma simpática janelinha de vidro lhe permitiam flagrar dedos no nariz ou decotes escolhidos a dedo. Pena os passeios serem tão curtos, já que relatórios por fazer esperavam-no na mesa e as desculpas para essas voltinhas precisavam sempre ser economizadas para momentos de maior necessidade.
Horas a fio de trabalho: As mesmas palavras para diferentes problemas, quinhentas burocracias para um procedimento simples. Papel timbrado, carimbo, assinaturas, passos a serem seguidos e repetidos. Foi para isso que Xavier estudou, é por isso que ele vive bem; seu carro, seu apartamento, suas extravagâncias comuns.
Passos a serem seguidos, leituras automáticas, arquivos, arquivos, arquivos. Sem perceber Xavier frustrou a alma para satisfazer o corpo. Sabia informações como todos, desejava as mesmas mulheres que seus amigos, gostava dos mesmos filmes que os outros.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Era incrível como esse som infernal demorava mais a passar no final da tarde.
- Eu cheguei atrasado, preciso compensar - Diziam as engrenagens de seu cérebro.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Xavier roeu as unhas, Pensou em pular pela janela, mas a sala era climatizada. Hesitou uma vez, mas jogou longe o relógio. Viu-se preso, nunca antes percebera-se enclausurado. Forçou a porta sem necessidade, olhou para os lados procurando alguém que o observasse. O corredor pareceu mais longo e casa passo apressado parecia deixá-lo mais longe da saída.
Xavier correu, correu e correu, chegou ao lado de fora ofegante arrancando o que o enforcava e provocando olhares espantados. Inspirou o ar descondicionado e poluído com uma alegria inexplicável, tirou o terno, jogou-o no chão, deixou  o vento de inverno gelar seu rosto.
- Xavier? Tá tudo bem com você? - A pergunta veio da funcionária do setor 43, com decote escolhido a dedo. Xavier olhou os peitos dela com gosto, mas imediatamente sentiu-se desconcertado. Recolheu o terno, procurou vestir a gravata. Saiu sorrateiro e em silêncio, sentindo-se um idiota.
- Onde eu estava com a cabeça? - Martirizava-se. - O que foi aquilo?
Foi direto para o estacionamento e antes de dar partida no carro, certificou-se sobre sua aparência, ainda inconformado com o que acabara de fazer.
Chegou em casa em silêncio, foi do banho direto para a cama.
- Idiota! - Repetiu incansavelmente - Idiota!

Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Depois de uma incrível sucessão deles o celular disparou ao som infernal de sua música favorita. Desta vez Xavier não hesitou, levantou-se sistematicamente como sempre fizera por todos os dias.

14 julho 2011

O acidente

O trem partiu devagar, trilhando aos solavancos, como todos os dias. Aumentou vagarozamente a velocidade e de repente bateu. Bateu também a cebeça, a mulher quase voou pela janela e foi levada às pressas para o hospital. Que trajédia, que horror!
O SAMU sequer havia resgatado todas as vítimas e o partido da oposição já estava de manifestação marcada, reafirmando as verdades de sempre: "Esses trens velhos e superlotados. Essa passagem é cara. Esses políticos roubam mais do que a gente. Isso não é justo!"
As ainda vítimas continuavam presas no trem, mas o jornal do Blasfema entrou no ar, anunciando os possíveis dois mil feridos. Falou também da mulher voadora, cuja cabeça, o encéfalo, o crânio e ainda a região cefálica foram todos atingidos, multilados,  massacrados, num ato de carnificina e irresponsabillidade social.
Já a Compania Promíscula de Trens Metropolitanos emitiu uma nota dizendo que está apurando as causas do acidente. Afirmou ainda que houve apenas alguns feridos levemente. 
O partido governista, por sua vez, preferiu não dar declarações até que sejam apuradas as reais causas do acidente, mas num pronunciamento ao vivo no horário nobre da TV o governador colocou a público que amanhnã mesmo será inaugurada a nova estação faraônica de metrô ao lado do rio Lixeiros, convidando a toda a população de alta renda para a cerimônia de abertura. 
Eu, contudo, não tenho nada a dizer, pois ainda estou aqui, na estação Barra Imunda, me apertando há dez minutos para subir a escada, depois de sair de um trem ordinário, no qual ninguém voou ou bateu a caebça.

04 julho 2011


Fotografias
 

- Pai, paiê, vem aqui. - o menino gritava fazendo-se ecoar pela casa toda.
- Já vai, já vai... - Andava calmamente.
- Vem logo pai..
- Que foi? Para que tanto desespero?
- Quem são esses daqui da foto? - O menino tinha um álbum enorme nas mãos, cheio de antigas fotografias.
- Esses.. ah, são... eram os amigos do papai quando ele era mais novo. - Disse num tom melancólico e saudosista.
- Nossa! - espantou-se o menino - E você conhecia tudo isso de gente?
- Sempre têm alguns que a gente conhece melhor que outros. - Respondeu com um sorriso amarelo, malicioso e um pouco apático.
- E essa daqui? - Perguntou muito curioso.
- Ah, você não ta reconhecendo não? Olha bem...
- A mamãe? - Chutou.
- Ela mesma.
- Que roupa esquisita. - Torceu o nariz.

Os dois ficaram ainda algum tempo revendo as fotos antigas, até que o menino se cansou de tantas pessoas que ele não conhecia e saiu, deixando tudo largado.
- Ual... isso faz muitos anos - murmurou para si o pai. - Tantos anos. - Recolheu devagar as fotos, reorganizou-ascalmamente  enquanto desenterrava todas aquelas lembranças.
- Eram meus amigos... - Murmurou de repente. Eram, dissera sem perceber e aquela frase dita a toda lhe incomodou. Pensou em que rumo os outros poderiam ter tomado, se ainda gostavam das mesmas coisas ou se lembravam dos velhos tempos.
Procurou rever com mais calma as fotos, ficou algum tempo parado, pensando se deveria ou não tentar falar outra vez com aquelas pessoas.
Nas semanas seguintes tentou alguns contatos. Muitos tinham mudado de casa, ou mudado de vida. A gente precisa se ver... diziam, mas a gente nunca vai se ver, pensavam.
Não havia mais lugar naquelas vidas para as antigas amizades, talvez porque não eram mais amigos, não eram mais um grupo e todo o resto ficara apenas congelado nas imagens fotográficas.
Passou dias pensando nesse distanciamento, e quando revia as fotos e reencontrava seu passado detinha ainda certa esperança.
Tentou por mais algumas últimas vezes retomar os contatos. Não fora inútil, pois os poucos com quem consegiui falar lhe proporcinaram uma conversa gostosa e saudosista.
Mas com o passar das semanas acabou  também desistindo daquelas fotografias e guardou-as de vez Quem sabe mais para frente se aventurasse a vê-las novamente. Naquele momento decidiu simplesmente pôr fim àquela melancolia. 
Certamente assim deveriam ter feito seus amigos.  Esqueceram-se das fotos, das lembranças e também da promessa de nunca se separarem.